POV Amara
Mateo dorme de novo.
Aquela paz frágil, emprestada, que a gente aprende a respeitar quase em reverência. Eu fico alguns segundos parada, observando, como se o simples ato de respirar mais alto pudesse quebrar o encanto. Depois saio do quarto na ponta dos pés e fecho a porta devagar.
Olho o relógio na cozinha.
23h07.
Meu estômago ronca, como se lembrasse que eu ainda sou um corpo além de mãe. Sorrio sozinha. Abro a geladeira e faço algo simples, sanduíches quentes, nada elaborado. Sobrevivência pura. Vida real.
Killian aparece encostado no batente da porta, gravata já frouxa, mangas arregaçadas.
— Posso ajudar? — pergunta, sincero.
— Pode sentar — respondo. — Já ajuda.
Ele obedece sem discutir, se joga no sofá como quem finalmente permite que o cansaço alcance os ossos. Conversamos de coisas pequenas enquanto eu me movimento pela cozinha. Coisas bobas. O trânsito. O pão que veio errado do mercado. O jeito estranho que Mateo faz com a boca quando sonha.
Em algum momento, a voz