Sara ficou sozinha dentro do lago, e por dentro subiu uma tristeza que não dava pra dizer em voz alta.
Ela se curvou e procurou a noite inteira, e só então achou a pulseira.
Quando o dia clareou, ela se levantou tremendo. O corpo inteiro já estava roxo e duro de tanto frio, mas ela não ligou pra isso. Pegou a pulseira e correu de volta pro prédio do Grupo Figueiredo.
Elisa estava no escritório dele. Ela pegou a pulseira, olhou com nojo e disse:
— Tá toda cheia de lama, toda suja. Eu não quero mais!
Depois disso, ela arrebentou a pulseira e jogou no lixo.
Arthur só lançou um olhar e falou, sem emoção:
— Se não gostou, então não precisa. Eu compro outra.
Elisa abriu um sorriso:
— Você é tão bom.
Sara saiu, toda acabada.
O pessoal do escritório da presidência já estava acostumado a ver ela daquele jeito. Nesses anos, Sara tinha passado por coisa demais.
Eles só não entendiam por que ela ainda insistia em ficar.
Sara não tirou nem um dia de folga. Só tomou duas pílulas para evitar um resfriado e foi acompanhar Arthur numa vistoria.
Quando a vistoria terminou, já era fim de tarde. Elisa foi atrás de Arthur pra jantar.
— Sara, vem junto também. — Ela falou com uma simpatia de fachada.
Mas só quando a comida chegou é que Sara entendeu por que tinha sido convidada.
Na mesa, quase tudo era apimentado. A única sobremesa era sorvete de manga, e ela era alérgica a manga.
Antes, se tivesse um pedacinho de pimenta no prato, Arthur tirava pra ela com cuidado.
Agora, ele parecia ter esquecido.
Arthur nem olhou pra Sara. O tempo todo, ele só serviu água pra Elisa e colocou comida no prato dela.
Elisa perguntou de propósito:
— Sara, por que você não come?
Arthur também levantou os olhos. Entre as sobrancelhas, passou um frio:
— Se não vai comer, tá sentada aqui pra quê?
Sara só conseguiu pegar os talheres, pegar um pedaço de frango apimentado e colocar na boca.
Depois de comer, Arthur foi embora com Elisa.
Sara voltou sozinha. A pimenta fazia a testa dela suar, e no estômago a dor se revirava como um vendaval.
Ela se deitou na cama, sem reação. Por mais que doesse, os olhos ficaram secos, e não saiu uma lágrima.
O que ela tinha sofrido nesses anos era uma forma de pagar a Isabela.
Quanto mais doía, mais ela conseguia respirar um pouco sob aquele peso.
A dor deixou a cabeça dela turva, e mesmo assim o canto da boca dela puxou um sorriso vazio.
...
Dias depois.
Como ela nunca tinha tratado, e ainda bebia com frequência, irritando o estômago, a doença só piorava.
E, toda vez, Sara só engolia duas pílulas, só pra ir levando.
Naquele dia era fim de semana.
Sara estava estendida no sofá, doendo tanto que nem se atrevia a mexer o corpo.
Então o telefone tocou. Era Arthur.
— A Elisa está com vontade de comer um pastel de frango da Pastelaria Bela Massa. Vai lá e compra uma porção pra ela.
Como assistente de Arthur, Sara nunca teve dia de descanso.
Se ele precisasse, ela tinha que trabalhar na hora.
Mas hoje Sara mal conseguia levantar.
— Hoje dá pra pedir pro assistente José ir comprar, eu...
Ela nem terminou.
Arthur interrompeu, frio:
— Sara, eu já te dei direito de escolher?
O ar travou na garganta dela, e ela não conseguiu dizer mais nada.
— Ou você vai, ou você some pra sempre.
Ele desligou.
Sara só conseguiu se levantar, segurando a dor na marra, e saiu cambaleando.
A Pastelaria Bela Massa ficava numa rua bem afastada, mas vivia lotada. Sara ficou na fila por três horas inteiras, e só então conseguiu comprar uma porção.
Quando ela chegou correndo na casa de Arthur e entregou a sacola, o rosto de Elisa fechou.
— Quem mandou comprar apimentado?
Sara estava com tanta dor que até respirar ficou difícil:
— Você não gostava de comida apimentada?
Elisa virou a caixinha e despejou tudo.
— Agora eu não gosto mais.
Arthur olhou pesado pra Sara.
— Compra de novo.
Sara só conseguiu correr pra fora de novo.
Na segunda vez, Elisa reclamou que tinha azeitona dentro.
Arthur parecia não perceber que ela estava fazendo de propósito pra atormentar a Sara. Ele só falou, frio:
— Vai comprar de novo.
E assim, Sara foi e voltou várias vezes.
Na última vez que voltou, já estava de noite.
Sara vinha de volta, fraca, com a porção de pastel bem embalada nas mãos.
Uma dor violenta subiu do estômago. Os passos dela estavam leves demais, sem firmeza.
Com a cabeça girando, ela nem viu direito o que vinha na frente.
Só ouviu um som de buzina, estridente, estourando no ouvido.
Uma van veio em alta velocidade e atingiu Sara com força.
Ela foi arremessada no chão, rolou algumas vezes e, com aquele impacto, não aguentou mais. Vomitou um grande jato de sangue.
No nariz, veio o cheiro do pastel que tinha caído no chão.
Tudo diante dos olhos de Sara virou um borrão branco, tremido, sem foco.
Ela finalmente podia morrer... podia ir ver Isabela?
Uma lágrima de alívio escorreu do canto do olho dela, e depois disso, ela apagou.
No hospital.
Luís viu a maca que a ambulância empurrava, e percebeu que era Sara. O olhar dele tremeu na hora.
— Sara! Sara!
Ele chamou várias vezes, mas ela não reagiu.
E ela continuava vomitando sangue, sem parar.
Até o médico-chefe se assustou:
— Será que algum órgão rompeu?
Luís falou, apavorado:
— Ela tem câncer no estômago!
A expressão do médico mudou na hora, e eles correram com ela pra sala de cirurgia.
Horas depois, a cirurgia terminou, mas só tinha dado pra estancar o sangramento dos ferimentos do acidente.
Nos monitores, tudo indicava que os sinais de vida dela estavam caindo.
Luís entrou em desespero:
— Professor, o que aconteceu com ela?
O professor balançou a cabeça:
— Câncer no estômago em estágio terminal. O corpo dela já estava muito fraco, e o acidente acelerou a falência dos órgãos.
Na cama, Sara não acordou. Ela tossia sangue e, sem consciência, repetia um nome, sem parar.
— Arthur... Arthur Figueiredo...
Parecia que ela ia parar de respirar a qualquer momento. Luís, com os olhos vermelhos, segurou a mão dela e a voz saiu engasgada:
— Sara, aguenta, por favor, aguenta.
— Eu vou chamar ele pra te ver. Espera mais um pouco, espera.
Ele pegou o celular dela, tremendo, e ligou pra Arthur.
Assim que atendeu, a voz fria veio do outro lado:
— Sara, eu mandei você comprar um pastel, e você não consegue voltar?
Luís apertou as mãos com força.
— Sou eu, Luís.
Do outro lado, houve silêncio. Alguns segundos depois, a voz dele saiu mais grave:
— Por que você está com o celular dela?
Luís olhou o monitor cardíaco, vendo o ritmo descendo, quase zerando. A voz dele tremia, palavra por palavra:
— Vem pro hospital. Vem ver a Sara pela última vez.