Do outro lado, voltou o silêncio.
Ninguém sabia quanto tempo passou, até Arthur soltar uma risada fria:
— Luís, ela mandou você ajudar ela a encenar isso?
Luís queria matar Arthur. Ele engoliu o choro e gritou:
— A Sara...
Mas no instante seguinte, uma mão fraca o segurou.
Luís baixou os olhos, e viu que a pessoa que estava desacordada tinha acordado.
Sara balançou a cabeça com dificuldade e, só com a boca, falou pra ele:
— Não... deixa... ele... vir.
E naquele momento, no monitor, os batimentos dela começaram a subir aos poucos.
Do outro lado, a voz de Arthur veio rouca, cobrando:
— O que aconteceu com ela?
Só que Luís não tinha tempo de explicar. Vendo os batimentos subirem, ele ficou fora de si de alegria, desligou e saiu correndo pra chamar o professor.
Depois de mais uma rodada de exames, o médico tirou a máscara, pingando de suor, e soltou o ar:
— Os sinais dela voltaram. Rápido, leva pra sala de observação!
Em seguida, empurraram Sara pra sala de observação.
Do outro lado, depois que Luís desligou, Arthur ficou encarando o celular por um bom tempo.
Elisa viu que ele tinha se distraído de novo por causa de Sara, e no olhar dela passou uma ponta de inveja e rancor.
— Arthur, eles com certeza se juntaram pra te enganar, só pra chamar sua atenção. Esses anos todos, a Sara ainda não cansou desse tipo de joguinho?
Ela foi tentar segurar a mão dele, mas errou, porque ele se levantou de repente.
Arthur falou, calmo:
— Ainda tenho trabalho pra terminar. Você volta pra casa.
Elisa tinha achado que hoje ela finalmente ia dormir lá. Ouvindo isso, ela só conseguiu sair irritada, sem engolir.
No escritório.
Arthur olhou pra tela do computador, mas a cabeça dele estava um caos. Ele não conseguia se acalmar.
No fim, ele ligou pra outro assistente.
— Descobre onde a Sara está.
Ele ouviu o próprio tremor na voz.
O assistente respondeu que sim.
Uns dez minutos depois, o assistente ligou de volta.
— Sr. Arthur, a Sara sofreu um acidente de carro horas atrás. Ela está no Hospital Central, mas já saiu de perigo.
Arthur segurou o celular e ficou muito tempo sem dizer nada.
Tanto tempo que o assistente não aguentou e perguntou:
— O senhor... quer ir ver ela?
Arthur ficou em silêncio mais um pouco, e só então disse:
— Não deixa ela saber que eu perguntei.
O assistente ficou surpreso, disse que sim, e a ligação caiu.
Arthur não disse mais nada. Só naquela noite, a luz do escritório ficou acesa até amanhecer.
No dia seguinte, no hospital.
Sara estava um pouco melhor.
Luís ficou o tempo todo ao lado dela. Quase implorou:
— Sara, não dá mais pra adiar. Você tem que ficar internada e começar quimioterapia agora, senão você não aguenta por muito tempo!
Sara só sorriu e balançou a cabeça:
— Melhor ainda. Eu sempre esperei por esse dia.
Luís travou.
No peito, veio uma dor que cortou fundo, e a voz dele tremeu:
— Você vai se punir desse jeito mesmo?
— Pra mim, morrer não é punição. Luís, obrigada por ter ficado comigo todos esses anos. Se você realmente quer o meu bem, então deixa eu decidir sozinha, eu te peço.
Cinco anos atrás, a alma dela já tinha morrido por completo.
Agora, era a vez do corpo.
Poucos dias depois, mesmo com Luís tentando impedir, Sara insistiu em sair do hospital.
Porque o dia do aniversário da morte de Isabela tinha chegado.
Sara levou um buquê de flores e foi até o cemitério.
Ela parou diante da lápide e olhou a foto em preto e branco, de uma garota jovem e bonita.
Tão jovem, tão bonita, tão boa, e mesmo assim a vida dela tinha ficado presa naquele dia, pra sempre.
— Isabela, você deve não querer me ver.
— Esses anos todos, eu sonho com você toda noite. Toda noite, no sonho, eu fico te dizendo desculpa.
— Eu queria tanto voltar pra aquele dia. Se eu pudesse voltar, eu não ia correr.
Ela se sentou no chão, encostada na lápide, como quando as duas se juntavam pra falar segredo.
— Sabe, eu já vou poder ir pra perto de você. Mas eu tenho medo. Eu tenho medo de você não querer me ver. Eu tenho medo de você me odiar do mesmo jeito...
Falando isso, as lágrimas escorreram pelo rosto dela.
No cemitério, o vento frio soprava sem parar. Sara passou a mão na foto, e por dentro subiu uma dor que não tinha nome.
Com a voz rouca, ela disse:
— Você me odiando ou não, eu vou te procurar. A gente prometeu ser melhores amigas pra vida inteira.