— Não! Isabela! Corre!
Sara acordou com o rosto encharcado de lágrimas, e percebeu que estava deitada na própria cama, em casa.
A roupa manchada de sangue já tinha sido trocada. Ao lado da cama, havia alguém vigiando, era Luís Leite.
Luís era colega de faculdade de Sara. Esses anos todos, ele sempre gostou dela, mas por causa da existência de Arthur, ele nunca teve coragem de dizer o que sentia, e só podia cuidar dela em silêncio.
Naquele momento, ele segurava a folha do exame, amassada. Lia palavra por palavra, repetindo a mesma linha, de novo e de novo.
Luís era médico, então ele sabia o que aquele resultado significava.
Os olhos dele ficaram vermelhos, e ele perguntou, tremendo:
— Você está com câncer no estômago?
Sara saiu daquele abismo aos poucos, e foi se acalmando. Ela respirou fundo, enxugou as lágrimas devagar, e assentiu.
Luís se levantou de repente:
— E você ainda bebeu! Foi o Arthur que te obrigou, não foi?
Sara baixou os olhos e não disse nada.
Mas Luís nem precisava de resposta.
O peito dele se despedaçou, e ele segurou a mão dela na hora:
— Você não pode continuar assim. Você tem que sair de perto dele agora, e ir pro hospital tratar!
Só que Sara puxou a mão de volta.
Ela forçou um sorriso:
— Não é tão grave assim. Fica tranquilo, eu vou cuidar de mim.
— Você sabe que isso é câncer...
— Eu não quero ser internada, Luís. Deixa eu decidir sozinha.
Vendo o jeito sério dela, Luís entendeu que não conseguiria convencer.
Ele também entendeu que a morte de Isabela, cinco anos atrás, era uma ferida que ela não atravessava.
Por isso ela tinha virado assistente pessoal dele pra se punir. Por isso, não importava o que Arthur fizesse com ela, ela não recusava.
Luís não conseguiu ir contra. Ficou e cuidou dela por uma noite. Só na manhã seguinte ele voltou pro Hospital Central.
E Sara saiu correndo pra ir trabalhar.
Hoje, ela ia acompanhar Arthur numa recepção.
Mas Sara não era a acompanhante dele. Ela só ia como assistente.
Elisa era a acompanhante dele.
Quando viu Sara, Elisa olhou com desprezo:
— Sara, eu te admiro. Até agora você ainda tem coragem de ficar colada no Arthur.
Elisa era colega deles do ensino médio, e gostava de Arthur desde pequena.
Só que ela perdeu pra Sara, que não tinha nada. Elisa sempre teve inveja. Depois que virou noiva de Arthur, ela finalmente podia maltratar Sara sem se segurar.
Sara não rebateu nada, só ficou quieta num canto.
Nessa hora, Arthur se aproximou, e Elisa enlaçou o braço dele com intimidade:
— Arthur.
Arthur não rejeitou. Mas, quando olhou pra Sara, os olhos ficaram mais frios.
— Quem mandou você entrar no salão? Vai esperar lá fora.
Cidade J já tinha entrado no inverno. Do lado de fora não tinha aquecimento, só vento gelado.
Sara apenas assentiu:
— Tá bom.
Ela virou e saiu do salão. Do lado de fora havia um jardim aberto, sem nenhuma cobertura para protegê-la do frio.
Sara ficou parada no vento frio. O corpo magro e frágil tremia sem parar.
Um funcionário não aguentou ver e perguntou se ela queria ir descansar na sala de apoio.
Sara balançou a cabeça, em silêncio.
Ela ficou ali até escurecer, até a recepção acabar.
Elisa saiu com o casaco de Arthur nos ombros. Os dois viram que Sara ainda estava lá fora.
A garganta de Arthur se mexeu, e a voz dele saiu estranhamente rouca:
— Tá parada aqui pra quê? Anda logo.
Ele foi embora com Elisa, e Sara foi atrás dos dois.
Quando passaram pelo lago artificial do jardim, Elisa puxou um sorriso no canto da boca. Ela tropeçou de propósito, deu uns passos pra frente e agiu como se tivesse sido empurrada.
— Ai! Minha pulseira caiu no lago!
Ela virou pra Sara, furiosa:
— Quem mandou você me empurrar?
Sara rebateu no reflexo:
— Eu não...
— Ainda quer negar! — Elisa fez manha, agarrada no braço de Arthur. — Arthur, aquela era a minha pulseira favorita.
O olhar de Arthur caiu em Sara. Ele ficou alguns segundos olhando, e só então disse baixo:
— Entra e pega de volta.
Ele não perguntou nada. Foi direto ao ponto, como se a culpa já estivesse decidida.
Sara olhou pro lago. Bastou olhar pra saber que era um frio que cortava.
Mesmo assim, ela entrou, calada.
A água não era funda, chegava um pouco acima do joelho.
Mas, no inverno, a água era gelada até o osso. Cada passo parecia pisar em lâmina de gelo, com os pés nus.
Sara já estava fraca. Procurando, o corpo dela começou a balançar forte, como se fosse cair.
Arthur só olhou por alguns segundos, e virou de costas. Deixou uma frase:
— Se não achar, amanhã você nem precisa aparecer.
Depois disso, ele saiu com Elisa.