O sorriso de Sara Torres se aprofundou, e ela balançou a cabeça sem nem pensar:
— Não precisa, doutor. Eu passo o dia esperando a morte. Eu devo ter só mais um mês de vida. Quando chegar o dia, eu aviso o hospital com antecedência, e peço que vocês doem todos os meus órgãos, pra ajudar mais gente. Desculpa o trabalho.
Dizendo isso, ela se levantou sorrindo e foi embora.
O médico a viu sair, com o rosto tomado de surpresa. Era a primeira vez que ele via uma paciente tão decidida a morrer.
Assim que Sara saiu do hospital, o telefone dela tocou. Era Arthur Figueiredo.
A voz dele chegou fria, um pouco mais grave:
— Hoje você pediu folga pra ir aonde?
Os dedos de Sara, apertando o celular, travaram por um instante. Ela não contou a verdade:
— Foi só um resfriado.
Era evidente que do outro lado ele não estava realmente ligando.
— Clube Riviera, sala 314. Vem.
Sara não discutiu, e foi na hora.
Quando ela entrou na sala, havia muitos parceiros de negócios de Arthur.
— A Sara chegou, eu já tinha ouvido falar. Dizem que você não cai nem com mil doses, é isso mesmo?
— Falam que você fecha muita coisa bebendo, hoje você vai ter que mostrar pra gente.
— Essas 99 taças na mesa, se você der conta de todas, a parceria sai hoje!
No sofá ao lado, Arthur estava com um sorriso indecifrável no canto da boca e falou, sem pressa:
— Não me decepciona.
Todo mundo ficou esperando, e Sara não recusou.
Ela sorriu e pegou uma taça:
— Então eu vou tentar.
Ela bebeu uma, e depois outra. Logo o estômago começou a queimar, e pra alguém com câncer no estômago, a dor vinha dez vezes pior do que antes.
Sara ficou pálida, até as mãos tremiam.
Mesmo assim, ela não parou. Taça após taça.
E Arthur só observou, do começo ao fim, com um olhar frio.
No fim, sob os olhares incrédulos de todos, Sara tomou a última. Noventa e nove taças.
A sala explodiu em aplausos:
— Impressionante. Impressionante mesmo!
Sara estava com suor frio na testa, e só conseguiu forçar um sorriso.
Um dos parceiros ficou interessado nela:
— Srta. Sara, trabalhar com o Arthur é prejuízo pra você. Olha como ele te faz passar por isso. Não tem o mínimo de cuidado com você. Vem trabalhar comigo.
Sara sorriu de leve e recusou, em voz baixa:
— Obrigada pela consideração. O Sr. Arthur é muito bom.
— Eu te pago o triplo!
Mesmo assim, Sara balançou a cabeça, firme.
Ninguém entendeu:
— Por que você não quer ir?
O sorriso de Sara perdeu um pouco da força.
— Eu fiquei pra pagar uma dívida.
O parceiro achou que ela devia dinheiro ao grupo Figueiredo. Ele até lamentou, mas deixou pra lá.
No fim, o acordo foi fechado.
A reunião acabou, e a noite caiu.
O motorista veio buscar os dois, e Sara entrou no banco do passageiro, como sempre.
Arthur não gostava que ela sentasse junto dele.
O carro parou em frente ao prédio dela. Sara agradeceu em voz baixa e desceu, exausta.
Ela estava cansada demais e não percebeu que Arthur tinha vindo atrás.
Ele olhou o jeito cambaleante dela, e os olhos escuros foram ficando mais fundos.
Sara não notou nada até chegar à porta. Parou, tirou a chave.
De repente, alguém puxou o pulso dela, virou o corpo dela e a prensou contra a parede.
A luz do corredor acendeu no mesmo instante. No segundo seguinte, Arthur segurou o queixo dela e a beijou.
O beijo foi intenso e longo, e Sara quase não conseguia respirar.
Só depois de muito tempo ele soltou. Era ele quem tinha forçado o beijo, mas os olhos dele estavam vermelhos, e a voz tremia:
— Você vive fingindo assim, é pra me fazer sentir pena? Eles te chamaram pra ir embora e você não foi. Sara, por que você ainda não foi embora?
Sara respirou forte, e tentou colocar o coração no lugar.
— Eu vou ficar pra pagar pelo que eu fiz.
Isso irritou Arthur de novo. Ele bateu a mão na parede com força.
O ódio nos olhos dele parecia uma lâmina, arrancando ela aos pedaços:
— Então por que você não morre? Vai morrer, então!
Sara riu sem alegria. Do jeito que ele queria, ela estava mesmo prestes a morrer.
Ela ia falar, mas o celular de Arthur tocou.
Sara baixou os olhos e viu o nome na tela.
Elisa, a noiva dele.
Quando viu a ligação, a respiração de Arthur ficou mais pesada. Ele virou de costas, como se estivesse juntando os pedaços.
Atendeu, e a voz dele ficou baixa e gentil, como se ele voltasse a ser o Sr. Arthur que todo mundo via por aí.
— Elisa.
Do outro lado, ela disse alguma coisa. A expressão dele mudou um pouco. No instante seguinte, ele soltou Sara, não disse nada, e foi embora.
Sara ficou encostada na parede. Depois que as costas dele sumiram no corredor, ela não aguentou mais. Abriu a porta, correu pro banheiro, e começou a vomitar com violência.
Ela vomitou até perder a noção, e só muito tempo depois levantou a cabeça e viu que o vaso estava cheio do sangue que ela tinha vomitado.
Muito sangue, demais.
Um vermelho que feria os olhos.
Sara apertou o botão da descarga, sem reação. Tentou se levantar, mas a fraqueza tomou tudo, e ela desmaiou.
Sara sonhou.
No sonho, ela estava na universidade. Debaixo das árvores, ela caminhava junto com Arthur e Isabela.
Isabela agarrava o braço dela e fazia manha, sem parar:
— Sara, no fim de semana vai ter um encontro entre o nosso departamento e o de Direito. Você vai comigo?
O rosto de Arthur ficou fechado. Ele puxou Sara pra perto e falou na hora:
— Isabela, eu te dei permissão pra pegar minha namorada emprestada?
— Você é muito mesquinho, mano!
Naquela época... como era bonito.
Sara tinha sido órfã desde pequena. Na escola, ela conheceu Isabela Figueiredo e virou melhor amiga dela.
Arthur era o irmão de Isabela. Na universidade, ele era famoso por ser distante, frio, elegante, e não dar abertura pra ninguém. Todo dia ele jogava fora uma pilha de cartas de amor. No começo, Sara nem tinha coragem de falar com ele.
Mas Arthur sempre aparecia no campo de visão dela. Ele arrumava as anotações dela, ia com ela pra biblioteca, buscava e levava ela pra casa.
Uma vez, ele foi pegar ela debaixo de chuva forte, porque ela estava sem guarda-chuva.
Os dois ficaram sob o mesmo guarda-chuva, e Sara não aguentou e perguntou:
— Arthur, você me trata bem assim por causa da Isabela?
O garoto, com o rosto frio, encurralou ela contra a parede:
— Sara, você é muito burra. Eu vou te dizer agora por que eu te trato tão bem!
Quando terminou, ele segurou a nuca dela e beijou ela.
Depois daquele dia, eles ficaram juntos.
Até cinco anos atrás, na véspera do casamento.
Sara e Isabela foram ao cinema. Já estava tarde. No caminho, passaram por um beco e encontraram alguns caras bêbados.
Eles estavam claramente alcoolizados, falando coisas nojentas. Cercaram as duas no fim do beco e não deixaram elas passar.
As duas eram só meninas, tremendo de medo. No fim, Isabela usou toda a força pra segurar aqueles caras e gritou:
— Sara, corre!
Sara sabia que as duas não tinham chance contra aqueles bêbados. Então ela correu.
Correu até a rua do outro lado pra chamar ajuda.
Mas quando ela voltou com gente, o beco estava silencioso.
Os bêbados já tinham ido embora. O chão estava destruído. E ali, no meio de tudo, estava Isabela, depois de ter sido violentada várias vezes, coberta de sangue, sem respirar.
Quando Arthur chegou, o que ele viu foi o corpo da irmã, num estado impossível de encarar.
Naquele tipo de cena, qualquer um sabia o que ela tinha sofrido.
A cabeça dele ficou em branco. Ele agarrou a mão de Sara com força, e perguntou, em meio à dor e ao desespero:
— Por que você correu? Por que você a deixou sozinha? Sara, por que você correu?!
Sara não tinha como responder. Ela se odiava mais do que qualquer outra pessoa.
Depois disso, a família Figueiredo nunca mais perdoou Sara.
Ela perdeu a melhor amiga, e também virou inimiga da pessoa que ela mais amava.
Mas agora, pelo menos, ela estava prestes a morrer.
Ela podia descer e pedir perdão à Isabela pessoalmente.
E Arthur também podia, finalmente, se libertar.