5. A FESTA

Adam viajou aos Emirados Árabes pela empresa, onde passaria uma semana na nova filial. Para mim, foi um alívio — ou eu tentava me convencer disso. Talvez a distância esfriasse o que estava acontecendo entre nós, se é que aquilo podia ser chamado de “relação”.

O coquetel de apresentação dele como diretor foi cancelado e tudo se concentraria na festa de 25 anos da empresa, que seria um evento grandioso. Eu precisava manter a cabeça ocupada.

Decoração prata, cenário sofisticado, orçamento gigante.

Perfeito. Ocupação dobrada para tentar não pensar nele.

A Estação São Paulo, onde aconteceria o evento, era impecável. Arquitetura elegante, estrutura completa, equipe treinada — segurança, bombeiros, técnicos, camareiros. Tudo incluído no contrato. Isso reduzia meu trabalho e, por sorte, minha mente andava precisando de descanso.

Eulália me ajudava com as notas dos fornecedores — dezenas delas. Enquanto me afogava em planilhas, a diretoria começou a se movimentar.

Dr. Afonso chegou, cumprimentou-me e entrou na sala dele.

Logo depois Dr. Carlos.

E então, Dr. André.

Era raro os três estarem juntos. Eu poderia aproveitar para apresentar o plano da festa, mas e se eles não quisessem ser interrompidos? Deixei para depois.

Meu telefone tocou.

— Pois não, Dr. Afonso? Claro, estou indo.

Saí praticamente correndo com a pasta debaixo do braço. Bati e entrei — sempre nessa ordem, porque com Dr. Afonso não existia cerimônia.

Ele estava à mesa. Dr. André e Dr. Carlos, nas poltronas à frente.

A única poltrona vaga era… a de Adam.

Sentei sob o olhar atento dos três.

— Podemos continuar — disse Dr. Afonso. — Após a festa, deixarei a empresa. É hora de me aposentar, e caberá a nós escolhermos o novo CEO. Acredito que deva ser alguém jovem, com garra, determinação, conhecimento e sabedoria.

Dr. André inflou o peito. Eu quase ri.

Dr. Carlos ergueu a mão.

— Concordo. Além disso, empatia… e simpatia.

A expressão de Dr. André denunciava que ele se sentiu diretamente atacado.

— E você, Ester? — perguntou Dr. Afonso. — Alguma sugestão?

— Bem… eu ainda estou tentando descobrir quem será esse.

— Ele não está aqui — Dr. Afonso me interrompeu. — Enviei-o para fechar um negócio difícil, e ele se saiu muito bem. Era o que faltava para escolhê-lo.

A respiração sumiu do meu corpo.

Dr. André, estranho e tenso, perguntou:

— Está falando do meu filho? Do Adam?

— Exatamente, André! Ele será o novo CEO.

A reação foi imediata.

Dr. André arregalou os olhos, surpreso e… não totalmente satisfeito.

— Ele é muito jovem. Não está preparado.

— E é justamente isso que o torna perfeito — rebateu Dr. Afonso.

Dr. Carlos virou-se para mim, sorrindo.

— Vamos comemorar. Ester, traga o whisky da minha sala, por favor.

Saí quase flutuando.

Eu… tinha dormido com o novo CEO da empresa.

E agora estava prestes a rejeitá-lo para que ele se afastasse.

Peguei o whisky e, ao passar por Eulália, ela me olhou de forma estranha.

— Chegaram flores para você — disse ela.

— Para mim? Deve ser engano.

— Desculpa, li o cartão. Achei que fosse do seu ex.

Meu coração despencou.

Corri para a sala.

Havia um vaso de “tulipas roxas” sobre minha mesa — minhas flores favoritas.

Peguei o cartão.

E quase deixei cair.

“Gata, tô louco pra te devorar, te pegar e, te fazer gemer de amor, tô chegando. Adam.”

Meu corpo esquentou instantaneamente.

Guardei o cartão dentro do sutiã — era o único lugar seguro naquele momento.

Voltei para a mesa de Eulália, peguei o whisky e tentei agir como se nada tivesse acontecido.

Depois de servir os diretores, voltei para minha sala.

Precisei pensar rápido.

Levei o vaso até Eulália.

— Vou entregar para a verdadeira dona — informei. — Adam pediu.

— Ah! Pensei que fossem pra você!

— Está louca? É para uma modelo que ele conheceu na viagem. Vou até os Jardins entregar. Já volto.

Ela acreditou.

Entrei no elevador com o coração na garganta, chamei um motorista e fui direto para casa.

Coloquei o vaso no centro da sala.

Peguei o cartão de novo.

A temperatura do meu corpo subiu como se alguém tivesse me acendido por dentro.

Droga.

Eu precisava afastar esses pensamentos.

Voltei para o trabalho.

O dia passou entre preparativos finais. O anúncio oficial de Adam seria feito na festa — ele ainda não sabia.

A grande noite chegou.

Fui uma das primeiras a chegar, não para trabalhar, mas para conferir se tudo estava perfeito.

E estava: buffet impecável, decoração em prata brilhando, duas bandas prontas para tocar, garçons alinhados como soldados.

Meu vestido vermelho esvoaçante atraía olhares por onde eu passava.

O decote era indecente.

O salto 15, criminoso.

Meu cabelo preso em um meio coque deixava meu pescoço exposto — e eu sabia que Adam sempre repara no meu pescoço.

A mesa dele ficava ao lado da minha.

Ótimo.

Ou péssimo.

Eulália chegou, linda num vestido verde esmeralda. Sentou-se comigo.

Os convidados começaram a encher o salão.

Mas Adam… nada.

Ele já tinha voltado de viagem, mas não apareceu no escritório na sexta, por causa do fuso horário.

Decidi ir à pista de dança, tentar esquecer por alguns minutos.

**Bee Gees — “You Should Be Dancing”**

Perfeito.

Eu me movia no ritmo da música quando senti **um corpo atrás do meu**, quente, firme, uma mão segurando minha cintura com precisão perigosa.

Virei.

Era ele.

Adam.

E ele estava ainda mais bonito do que antes de viajar.

O cabelo curto, com mechas mais claras.

A camisa azul escura justa demais nos braços musculosos.

A calça cinza que… deixava pouco para a imaginação.

E o sorriso.

Aquele sorriso que tirava o meu ar.

— O que você está fazendo? — perguntei, tentando manter a compostura.

— Dançando. Com você — respondeu, deslizando a mão pela minha cintura.

— Está todo mundo olhando.

— E daí? Deixa olharem.

Meu corpo reagia a cada centímetro de aproximação dele.

A voz dele estava baixa, quente, quase roçando minha pele.

— Eu preciso sentar — menti. — O salto está me matando.

— Então vamos lá fora. Estou louco pra te beijar.

— Não posso.

Saí como se fugisse de um incêndio.

A verdade era pior: eu estava fugindo de mim mesma.

Sentei, tomando um gole de espumante.

Ele se juntou à mesa com a família, mas eu sentia o olhar dele me atravessar.

De vez em quando, levantava os olhos e encontrava Adam me observando, a camisa parcialmente aberta, um copo de whisky na mão.

Ele estava lindo.

Perigoso.

E eu… vulnerável demais.

Quase meia-noite, Dr. Afonso subiu ao palco.

— Estou me aposentando, e tenho orgulho de anunciar o novo CEO da AVANCE… Adam Smith.

A sala explodiu em aplausos.

Adam subiu ao palco, visivelmente bêbado, claramente pego de surpresa.

Disse algumas palavras simples, emocionadas.

Quando o evento acabou, tentei fugir.

Mas ele veio atrás de mim, determinado.

— Você já sabia? — perguntou, a voz baixa, carregada.

— Sim — respondi. — E achei a melhor escolha.

— Mas pra você… eu não sou o melhor, né? Por quê?

O carro encostou.

— Meu motorista chegou.

Entrei rapidamente.

Fechei a porta.

Ele ficou parado ali, me olhando como se eu tivesse tirado algo dele.

Se o motorista atrasasse mais um minuto…

Eu teria ficado.

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