Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdam viajou aos Emirados Árabes pela empresa, onde passaria uma semana na nova filial. Para mim, foi um alívio — ou eu tentava me convencer disso. Talvez a distância esfriasse o que estava acontecendo entre nós, se é que aquilo podia ser chamado de “relação”.
O coquetel de apresentação dele como diretor foi cancelado e tudo se concentraria na festa de 25 anos da empresa, que seria um evento grandioso. Eu precisava manter a cabeça ocupada. Decoração prata, cenário sofisticado, orçamento gigante. Perfeito. Ocupação dobrada para tentar não pensar nele. A Estação São Paulo, onde aconteceria o evento, era impecável. Arquitetura elegante, estrutura completa, equipe treinada — segurança, bombeiros, técnicos, camareiros. Tudo incluído no contrato. Isso reduzia meu trabalho e, por sorte, minha mente andava precisando de descanso. Eulália me ajudava com as notas dos fornecedores — dezenas delas. Enquanto me afogava em planilhas, a diretoria começou a se movimentar. Dr. Afonso chegou, cumprimentou-me e entrou na sala dele. Logo depois Dr. Carlos. E então, Dr. André. Era raro os três estarem juntos. Eu poderia aproveitar para apresentar o plano da festa, mas e se eles não quisessem ser interrompidos? Deixei para depois. Meu telefone tocou. — Pois não, Dr. Afonso? Claro, estou indo. Saí praticamente correndo com a pasta debaixo do braço. Bati e entrei — sempre nessa ordem, porque com Dr. Afonso não existia cerimônia. Ele estava à mesa. Dr. André e Dr. Carlos, nas poltronas à frente. A única poltrona vaga era… a de Adam. Sentei sob o olhar atento dos três. — Podemos continuar — disse Dr. Afonso. — Após a festa, deixarei a empresa. É hora de me aposentar, e caberá a nós escolhermos o novo CEO. Acredito que deva ser alguém jovem, com garra, determinação, conhecimento e sabedoria. Dr. André inflou o peito. Eu quase ri. Dr. Carlos ergueu a mão. — Concordo. Além disso, empatia… e simpatia. A expressão de Dr. André denunciava que ele se sentiu diretamente atacado. — E você, Ester? — perguntou Dr. Afonso. — Alguma sugestão? — Bem… eu ainda estou tentando descobrir quem será esse. — Ele não está aqui — Dr. Afonso me interrompeu. — Enviei-o para fechar um negócio difícil, e ele se saiu muito bem. Era o que faltava para escolhê-lo. A respiração sumiu do meu corpo. Dr. André, estranho e tenso, perguntou: — Está falando do meu filho? Do Adam? — Exatamente, André! Ele será o novo CEO. A reação foi imediata. Dr. André arregalou os olhos, surpreso e… não totalmente satisfeito. — Ele é muito jovem. Não está preparado. — E é justamente isso que o torna perfeito — rebateu Dr. Afonso. Dr. Carlos virou-se para mim, sorrindo. — Vamos comemorar. Ester, traga o whisky da minha sala, por favor. Saí quase flutuando. Eu… tinha dormido com o novo CEO da empresa. E agora estava prestes a rejeitá-lo para que ele se afastasse. Peguei o whisky e, ao passar por Eulália, ela me olhou de forma estranha. — Chegaram flores para você — disse ela. — Para mim? Deve ser engano. — Desculpa, li o cartão. Achei que fosse do seu ex. Meu coração despencou. Corri para a sala. Havia um vaso de “tulipas roxas” sobre minha mesa — minhas flores favoritas. Peguei o cartão. E quase deixei cair. “Gata, tô louco pra te devorar, te pegar e, te fazer gemer de amor, tô chegando. Adam.” Meu corpo esquentou instantaneamente. Guardei o cartão dentro do sutiã — era o único lugar seguro naquele momento. Voltei para a mesa de Eulália, peguei o whisky e tentei agir como se nada tivesse acontecido. Depois de servir os diretores, voltei para minha sala. Precisei pensar rápido. Levei o vaso até Eulália. — Vou entregar para a verdadeira dona — informei. — Adam pediu. — Ah! Pensei que fossem pra você! — Está louca? É para uma modelo que ele conheceu na viagem. Vou até os Jardins entregar. Já volto. Ela acreditou. Entrei no elevador com o coração na garganta, chamei um motorista e fui direto para casa. Coloquei o vaso no centro da sala. Peguei o cartão de novo. A temperatura do meu corpo subiu como se alguém tivesse me acendido por dentro. Droga. Eu precisava afastar esses pensamentos. Voltei para o trabalho. O dia passou entre preparativos finais. O anúncio oficial de Adam seria feito na festa — ele ainda não sabia. A grande noite chegou. Fui uma das primeiras a chegar, não para trabalhar, mas para conferir se tudo estava perfeito. E estava: buffet impecável, decoração em prata brilhando, duas bandas prontas para tocar, garçons alinhados como soldados. Meu vestido vermelho esvoaçante atraía olhares por onde eu passava. O decote era indecente. O salto 15, criminoso. Meu cabelo preso em um meio coque deixava meu pescoço exposto — e eu sabia que Adam sempre repara no meu pescoço. A mesa dele ficava ao lado da minha. Ótimo. Ou péssimo. Eulália chegou, linda num vestido verde esmeralda. Sentou-se comigo. Os convidados começaram a encher o salão. Mas Adam… nada. Ele já tinha voltado de viagem, mas não apareceu no escritório na sexta, por causa do fuso horário. Decidi ir à pista de dança, tentar esquecer por alguns minutos. **Bee Gees — “You Should Be Dancing”** Perfeito. Eu me movia no ritmo da música quando senti **um corpo atrás do meu**, quente, firme, uma mão segurando minha cintura com precisão perigosa. Virei. Era ele. Adam. E ele estava ainda mais bonito do que antes de viajar. O cabelo curto, com mechas mais claras. A camisa azul escura justa demais nos braços musculosos. A calça cinza que… deixava pouco para a imaginação. E o sorriso. Aquele sorriso que tirava o meu ar. — O que você está fazendo? — perguntei, tentando manter a compostura. — Dançando. Com você — respondeu, deslizando a mão pela minha cintura. — Está todo mundo olhando. — E daí? Deixa olharem. Meu corpo reagia a cada centímetro de aproximação dele. A voz dele estava baixa, quente, quase roçando minha pele. — Eu preciso sentar — menti. — O salto está me matando. — Então vamos lá fora. Estou louco pra te beijar. — Não posso. Saí como se fugisse de um incêndio. A verdade era pior: eu estava fugindo de mim mesma. Sentei, tomando um gole de espumante. Ele se juntou à mesa com a família, mas eu sentia o olhar dele me atravessar. De vez em quando, levantava os olhos e encontrava Adam me observando, a camisa parcialmente aberta, um copo de whisky na mão. Ele estava lindo. Perigoso. E eu… vulnerável demais. Quase meia-noite, Dr. Afonso subiu ao palco. — Estou me aposentando, e tenho orgulho de anunciar o novo CEO da AVANCE… Adam Smith. A sala explodiu em aplausos. Adam subiu ao palco, visivelmente bêbado, claramente pego de surpresa. Disse algumas palavras simples, emocionadas. Quando o evento acabou, tentei fugir. Mas ele veio atrás de mim, determinado. — Você já sabia? — perguntou, a voz baixa, carregada. — Sim — respondi. — E achei a melhor escolha. — Mas pra você… eu não sou o melhor, né? Por quê? O carro encostou. — Meu motorista chegou. Entrei rapidamente. Fechei a porta. Ele ficou parado ali, me olhando como se eu tivesse tirado algo dele. Se o motorista atrasasse mais um minuto… Eu teria ficado.






