Amar Vale a Pena?
Amar Vale a Pena?
Por: Lu Correa
1. A DECEPÇÃO

Estou sentada, vestida de noiva, enquanto a cerimonialista desmonta as mesas.

As flores ainda estão ali. O bolo também. Tudo montado para uma festa que nunca vai acontecer.

O casamento — essa grande encenação social — acabou antes mesmo de começar.

Meu nome é Ester.

E eu fui abandonada no altar.

Não houve discussão. Não houve pedido de desculpas digno.

Jefferson apenas olhou para Vanessa — minha melhor amiga, madrinha do casamento — e disse, diante de todos, que a amava. Que não podia se casar comigo.

Vanessa ainda tentou recuar, encenar surpresa, mas ele a segurou pelo braço.

Eu fiquei imóvel.

O juiz de paz fechou o livro com impaciência. Disse que tinha outros compromissos.

Minha mãe passou mal. Cristina, minha irmã, a abanava.

Os convidados começaram a ir embora, reclamando da comida que não seria servida.

E eu permaneci sentada.

Arranquei o véu. Depois o arranjo do cabelo. Os fios caíram soltos sobre os ombros.

Caminhei até a cadeira de frente para a piscina e sentei ali, como quem observa um naufrágio em silêncio.

A verdade?

Eu nem sei se queria mesmo me casar com Jefferson.

Nos conhecemos no ensino médio. Sempre fomos três: ele, Vanessa e eu.

Depois a vida nos separou. Eu fui para a universidade, ele para a escola técnica. Vanessa abandonou os estudos e virou modelo — sempre linda, sempre no centro.

Anos depois, foi num coquetel na casa dela que tudo recomeçou.

Jefferson me deu carona. Estava bêbado. Tentou me beijar.

Não deixei que fosse embora naquele estado. Arrumei o sofá. Ele dormiu.

No dia seguinte pediu desculpas, constrangido.

Depois veio o café. Depois os encontros. Depois a cama.

Fui eu quem tomou a iniciativa de tudo. Cheguei a achar que ele não me desejava. Hoje sei: ele só não queria trair Vanessa.

Planejei o casamento sozinha.

Cerimonial, juiz, sítio, buffet, convites. Tudo.

Para ser deixada no altar como se eu fosse descartável.

E não sou.

Vanessa tem porte de modelo. Eu tenho presença.

Sou mulherão, independente, formada, bem-sucedida. Tenho meu próprio apartamento, minhas economias, minha liberdade.

Nunca precisei de ninguém para existir.

Mesmo assim, doeu.

Não entendo como alguém sustenta um relacionamento sem amor e permite que o outro acredite nele.

Talvez tudo isso já existisse antes. Talvez eu só tenha sido conveniente.

Só sei de uma coisa: não quero mais amar.

Se for para ficar com alguém, que seja só sexo. Uma vez. Sem laços.

Não vou mais me apaixonar. Não vou mais sofrer.

Levanto. Tiro os sapatos. Ando descalça pelo salão vazio.

— Ester!

Reconheço a voz.

Claudete. A mãe de Jefferson.

Ela me abraça. Diz que sente muito. Diz que o filho estava feliz. Diz que ele vai “colocar a cabeça no lugar”.

Sorrio. Finjo educação.

Subo as escadas antes que diga o que realmente penso.

No quarto, tiro o vestido. Observo meu reflexo no espelho.

Um tubinho pérola, cauda de sereia.

Nunca mais.

Visto jeans, camiseta, tênis. Deixo o vestido pendurado como um corpo vazio.

Chamo um carro por aplicativo.

— Comentaram que a noiva foi deixada no altar — diz o motorista.

— Sou eu.

Ele me olha pelo retrovisor, surpreso e diz:

— Quem perdeu foi ele.

No prédio, encontro Jefferson no elevador, com duas malas.

— Vim buscar minhas coisas… eu sinto muito, mas...

Estendo a mão.

Ele entrega a chave.

Entro no elevador sem olhar para trás.

Seguro o choro até fechar a porta do meu apartamento.

Depois, desabo.

Vinho. Taça. Silêncio.

Antes de adormecer no sofá, a pergunta ecoa como um desafio:

Amar vale a pena?

Hoje, não.

Nunca mais vou amar.

Eu prometo.

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