Mundo de ficçãoIniciar sessão
O barulho metálico das cadeiras de ferro sendo empilhadas ecoava pelo jardim do sítio como marteladas em um caixão.
O som era seco, pragmático, desprovido de qualquer poesia. Eu continuava ali, sentada, uma estátua de seda e renda em meio aos destroços de um naufrágio social. Olhava para a cerimonialista, que agora comandava a desmontagem das mesas com uma eficiência quase cruel. Ela retirava os arranjos de flores brancas — lírios e rosas que eu escolhera com tanta dedicação — como quem recolhe o lixo após uma feira de domingo. Toda aquela parafernália, o buffet caríssimo, a luz cênica, o tapete que levava ao altar... tudo não passava de uma embalagem luxuosa para a maior mentira da minha vida. Meu nome é Ester. E eu acabo de ser a protagonista de uma cena de novela mexicana, mas sem o brilho do filtro de câmera. Fui abandonada pelo meu noivo no exato momento em que as alianças brilhavam sob o sol do final de tarde, prontas para selar um destino que já nasceu morto. O roteiro do desastre foi rápido. Jefferson, o homem com quem eu dividi planos e lençóis nos últimos anos, congelou. Ele não olhou para o juiz, nem para mim. Seus olhos buscaram Vanessa. Minha "melhor amiga". Minha madrinha. A mulher que segurava o meu buquê segundos antes. Com a voz embargada, ele soltou a bomba: amava a ela. Não podia se casar comigo. O escândalo silencioso que se seguiu foi pior que um grito. Vanessa, em um átimo de consciência ou covardia, tentou fugir, mas ele a segurou pelo braço, diante de todos, como se estivesse reivindicando um prêmio. Eu? Eu fiquei paralisada. Senti o sangue fugir do rosto, as mãos esfriarem. O juiz de paz, um homem que parecia ter uma planilha de metas a cumprir, fechou o livro com um estrondo seco. "Não posso perder tempo, tenho outros casamentos agendados", disse ele, sem um pingo de empatia. Minha mãe desabou em uma cadeira, o rosto pálido, sendo abanada freneticamente por Cristina, minha irmã, que lançava olhares de puro ódio para as costas de Jefferson. Os convidados começaram a debandar, o burburinho de indignação se misturando a reclamações mesquinhas sobre o buffet que não seria servido. Agora, sobrou apenas o silêncio e o cheiro de grama cortada. Arranquei o véu com um movimento brusco, sentindo os grampos repuxarem meu couro cabeludo. O arranjo de flores secas foi para o chão. Soltei meu cabelo, sentindo o peso dos fios caírem sobre meus ombros, e me sentei de frente para a piscina, observando o reflexo azulado da água. Engraçado. Olhando agora, no vácuo do abandono, eu me pergunto: eu queria mesmo me casar com o Jefferson? Nossa história era antiga, um emaranhado de memórias do ensino médio. Éramos um trio inseparável: Vanessa, Jefferson e eu. O tempo passou e os caminhos bifurcaram. Eu ralei na Federal, me formei em Administração e hoje ocupo um cargo de confiança em uma multinacional de locação de veículos. Sou assessora da diretoria, organizada, prática. Jefferson seguiu o caminho técnico e tornou-se professor. Vanessa... bem, Vanessa era a beleza do grupo. Parou de estudar, foi modelar, viveu de sua imagem. O reencontro que selou meu destino aconteceu na casa dela, após sua volta do Japão. Um coquetel sofisticado, regado a bebidas caras e reencontros nostálgicos. Jefferson me deu carona. Ele estava alterado, o álcool soltando suas inibições. Tentou me beijar no carro. Na época, movida por uma mistura de cuidado e atração, não deixei que ele dirigisse naquele estado. Fomos para o meu apartamento, onde arrumei o sofá para ele. No dia seguinte, o constrangimento dele foi quase charmoso. Pediu desculpas, saiu apressado. Mas logo veio o convite para um café. Vanessa tinha ido para Paris. E assim, no vazio deixado por ela, nós começamos a namorar. Lembro-me de ter sido a força motriz de tudo: o primeiro beijo real, a primeira noite... eu tomei a iniciativa. Cheguei a questionar sua sexualidade em pensamentos sombrios, mas hoje a verdade me atinge como um soco: ele não queria trair a Vanessa. Ele estava comigo, mas habitava o fantasma dela. O planejamento do casamento foi um projeto solo. O cerimonial, o Espaço, o buffet, os convites, cada detalhe saiu do meu bolso e da minha organização. E para quê? Para ser trocada por uma mulher que, convenhamos, tem mais pose do que substância. Vanessa é alta, magra, tem aquele "porte de modelo", mas eu não fico atrás. Sou uma mulher de curvas, pele morena, olhos castanhos intensos, que brilham e uma independência que assusta os fracos. Tenho meu apartamento de dois quartos, minha varanda cheia de plantas, minha estabilidade financeira. Sou o que chamam de "bom partido". E, ainda assim, fui deixada de lado. Talvez Vanessa o tenha incentivado a ficar comigo. Talvez fosse um jogo deles desde o início. A raiva começa a substituir o choque. Uma promessa silenciosa nasce no meu peito, mais forte que qualquer voto matrimonial: nunca mais vou amar ninguém. O amor é uma armadilha para os vulneráveis. De agora em diante, se houver alguém, será apenas sexo. Sem laços, sem segundas vezes, sem a chance de criar raízes em solo infértil. Vou me fechar. Uma única vez com cada um, e adeus. É a única forma de garantir que ninguém nunca mais me humilhe assim. Levantei-me. O vestido sereia cor pérola pesava. Minha mãe e minha irmã já tinham ido embora; não aguentei ver a vergonha em seus olhos, como se o erro fosse meu. Chamei um Uber pelo aplicativo. Tirei os saltos altíssimos e senti a grama fria sob os pés descalços. — Ester! Aquela voz. Claudete, a mãe de Jefferson. A última pessoa que eu queria ver. — Claudete! Você ainda está aqui? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Me dá um abraço, minha filha. Eu sinto tanto... Ela me apertou, mas o consolo parecia vazio. — Está tudo bem, Claudete. Não era para ser — eu disse, a máscara da polidez voltando ao lugar. — O Jefferson estava tão feliz... eu não entendo o que deu nele — ela murmurou, genuinamente confusa. "Eu te explico o que deu nele, Claudete", pensei com amargura. "O desgraçado do seu filho tem um caso com a minha melhor amiga e decidiu anunciar isso para o mundo na hora do 'sim'". Mas apenas sorri. Fingir demência era menos exaustivo do que explicar a traição. — Preciso ir. Vou me trocar — cortei o assunto. — Ele vai colocar a cabeça no lugar, Ester. Você vai ver. Revirei os olhos enquanto me afastava. Ela realmente achava que eu o aceitaria de volta? A audácia de algumas pessoas é fascinante. Subi para o quarto de apoio, onde minhas coisas estavam. No espelho, vi uma noiva abandonada, mas ainda impecável. O vestido realçava cada curva que Jefferson decidiu que não queria mais. Despi-me com pressa, quase rasgando o tecido. Vesti jeans, uma camiseta básica e calcei meus tênis. O vestido ficou ali, pendurado, um cadáver de cetim. Peguei meu celular e as notificações explodiram. Centenas de mensagens. Ligações perdidas de Jefferson e Vanessa. A audácia de ligarem agora chegava a ser cômica. Bloqueei a tela. Meu Uber chegou. O motorista, um rapaz com traços indianos, olhou para mim pelo retrovisor assim que entrei. — É, moça... peguei um pessoal aqui mais cedo. Comentaram que a noiva foi deixada no altar. Que loucura, né? — ele puxou assunto, sem saber quem eu era. — Pois é. É verdade — respondi, seca. — Como um cara faz uma coisa dessas? É muita maldade. — Por acaso, a noiva sou eu. O silêncio que se seguiu no carro foi absoluto. Ele me olhou pelo espelho, surpreso, e depois deu aquela conferida rápida quando paramos no sinal. Ao chegarmos no meu prédio, ele tentou consertar a situação: — Moça, liga não. Quem perdeu foi ele. Você é linda demais. Dei um tchauzinho irônico e saí. Agora vinha a parte difícil: encarar o porteiro. Seu Gumercindo estava lá, ouvindo o radinho de pilha. — Oi, Dona Ester! — ele saudou, sem notar meu estado de espírito. — Oi, Gumercindo. Entrei no hall e apertei o botão do elevador. Quando as portas se abriram, o destino pregou sua última peça do dia. Jefferson saiu de dentro da cabine carregando duas malas. O choque foi mútuo. — Vim buscar minhas coisas. Ester, eu sinto muito, mas... Não deixei que a voz dele poluísse o ar por mais um segundo. Estiquei o braço e espalmei a mão. Ele entendeu. Colocou as chaves na minha palma sem dizer mais nada. Entrei no elevador e as portas se fecharam, separando nossas vidas definitivamente. Segurei o fôlego até entrar no meu apartamento. Assim que a porta se trancou atrás de mim, o dique rompeu. Corri para o quarto, me joguei na cama e chorei um choro visceral, que vinha do fundo da alma. Era uma mistura de ódio, vazio e uma decepção tão profunda que parecia física. — Amar vale a pena? — gritei para as paredes vazias. Investi tempo, dinheiro, sonhos e afeto em um homem que era apenas um inquilino temporário do meu coração. NUNCA MAIS VOU AMAR! EU PROMETO! Levantei-me, o punho em riste como se fizesse um juramento de guerra. Fui até a cozinha, peguei uma garrafa de vinho e uma taça. Não precisava de saca-rolhas, a raiva me dava força para qualquer coisa. Sentei-me no sofá, olhando para as minhas plantas na varanda, e bebi até que o sono da exaustão finalmente me levasse para longe daquele domingo que deveria ter sido o primeiro, mas foi o último.






