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capítulo 7 Karina narrando...

Acerto de Contas

Autora: Edivania Rios

Todos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98

História ambientada entre 1990 e 1998

Protagonistas: Karina e Gabriel

 

Capítulo 7

Karina narrando…

Eu amei saber que Gabriel quer se casar comigo. Tentei não deixar ele perceber, mas me senti voando como um pássaro, mesmo sabendo que posso pagar caro por todas as decepções que ainda podem vir. Dormir na cama dele foi maravilhoso, e agora que acordei percebo: é como se a minha alma finalmente tivesse encontrado o lugar certo. Meu corpo está leve, satisfeito, depois de tanto tempo.

Abri os olhos devagar, sentindo até que estava babada no travesseiro. A noite foi boa, muito boa mesmo. Faz tempo que eu não sabia o que era ter alguém que deixasse o meu coração assim, tranquilo e satisfeito. Será que é esse homem que você realmente quer, coração? Olhei para os dois: meu filho e ele ainda dormem, parecem carne e unha, tão unidos e tranquilos.

Fiquei ali quietinha, esperando eles acordarem. Mas é tão ruim ficar assim, fingir que ainda estou dormindo só para não atrapalhar. Depois de um tempo, meu filho começou a se mexer — graças a Deus, ele tem esse costume de se mover quando está perto do pai.

— Mamãe? A senhora está acordada? — perguntou ele baixinho.

— Estou sim, filho — respondi, também baixo. — Seu pai ainda dorme, fala mais devagar.

— Não se preocupe, eu acabei de acordar mesmo — ele disse, já se animando. — Vocês dois ficam conversando tanto que não tem como dormir.

— Papai! — chamou ele alto, pulando em cima de Gabriel. — Vamos brincar de ping-pong hoje?

— Está bem, filho — respondeu ele, abrindo os olhos com um sorriso. — Vou pegar as raquetes. Vou ver se trouxe, se não tiver, compro umas novas para nós dois.

Vi logo que ele faz tudo o que o filho quer, sem hesitar. Agora entendo por que, quando chegava a sexta-feira, meu filho ficava tão ansioso para ir para a casa do pai.

Ele olhou para mim, ia falar algo e parou:

— Bom dia, Cla… me desculpa, Karina. Bom dia.

Senti uma pontada de ofensa no peito. Ele ia me chamar pelo nome da outra, daquela que ele ama. Mas ele vai casar comigo. Vou aceitar esse desprezo agora, porque tenho esperança: um dia ele vai me ver com outros olhos. Eu quero esse homem para mim, custe o que custar.

— Vamos, mocinhos — falei, tentando disfarçar a dor. — Se arrumem os dois para tomarmos café. Vou com vocês. Senti até um pouco de alegria, como se já fosse dona deles, mandando Gabriel e meu filho se aprontarem.

— Com licença, Karina — disse ele sorrindo. — Eu e esse rapazinho aqui vamos trocar de roupa dentro do banheiro.

— Nem quero ver — respondi, fazendo cara de brava, mas sem conseguir segurar o sorriso. Os dois riram juntos.

— Meu avô pediu para eu ir na casa dele hoje — avisei quando voltaram arrumados. — Se você quiser ficar com o seu pai, filho, pode ficar.

— Eu quero muito, mamãe! — disse ele logo, todo animado.

— Então está bem.

— A patricinha não consegue largar o conforto, né? — provocou Gabriel de leve.

— Todo mundo sabe que nasci no conforto — respondi firme. — Para mim essas coisas são difíceis de largar. Quero ver quem me julga conseguir fazer diferente.

— Eu consigo, mamãe — disse meu filho todo orgulhoso. — Eu sempre fico lá na casa do papai, ele me ensina muitas coisas boas.

— Parabéns, meu filho — beijei a testa dele com carinho. — Obedeça seu pai.

Saímos para a cozinha e tomamos café. Vi logo a cara de Luan e Paulo, arrebentadas, principalmente a de Paulo. Se Gabriel desconfia mesmo que foi ele quem tentou machucar o nosso filho, não me surpreendo nem um pouco — faz todo sentido, ainda mais depois que o menino quebrou o relógio que era tão importante para ele.

— Karina, você está com raiva de mim? — perguntou Paulo, me olhando com aquela cara de quem me venera há anos.

Olhei firme para ele, sem baixar a guarda:

— Olha aqui, Paulo. Por que você tentou matar o meu filho? É tanto ódio assim de Gabriel? Meu filho é uma criança, Paulo! Uma criança inocente!

— Não acredita nesse tal Gabriel, Karina — tentou se defender ele. Luan ficou ali calado, só olhando de um lado para o outro.

— Vou sair agora — avisei, levantando da mesa.

— Karina, deixa eu ir com você — pediu Luan, se levantando depressa.

— Não precisa. Eu vou me casar com Gabriel, entenda de uma vez por todas — falei claro e direto. Luan e Clarissa me olharam com tanto ódio que quase me queimaram com o olhar. Virei para Gabriel: — Ah, Allan vai ficar com você, ele é sangue nosso. Fica de olho nele!

— Claro que vou — respondeu ele, sério.

— Só esse imbecil aqui fica diferente perto de você — disse Paulo, baixinho, mas que todos ouviram. — Esqueceu que ele já abusou muito de você?

— Mas antes ninguém tentou matar o meu filho! — rebati com toda a força que tinha. — Ninguém aqui sabe a dor que eu passei para colocar ele no mundo. E agora alguém vem querer tirar a vida dele? A vida dele é de Deus, ele é uma benção minha e de Gabriel.

Vi Gabriel me olhar com atenção, como se estivesse conhecendo uma parte de mim que nunca tinha visto antes. Coloquei o relógio no pulso, os óculos escuros, ajeitei o cabelo e saí. Entrei no meu carro de capota aberta, e senti o vento batendo forte nos meus cabelos enquanto eu dirigia pela estrada.

Chegando na casa do vovô, vi que a rampa estava toda pintada de novo, brilhando.

— Benção, vovô!

— Deus te abençoe, filhota! — ele me abraçou forte. — Cadê o meu bisneto?

— Ele está com o pai — respondi. Ele fez uma cara feia, que não gostou nem um pouco da resposta.

— Mas hoje? Esse menino tem que aprender desde cedo a cuidar da empresa, filha. Não é ficar junto com o pai pobretão que ele vai conseguir alguma coisa na vida.

— Ah, vovô… o senhor sabe que nós também viemos de onde viemos, não é mesmo?

— Minha filha, a nossa empresa ganhou bilhões! Voltamos a ficar no topo de novo!

— Jura mesmo, vovô Marcos? Então eu posso voltar a trabalhar na empresa?

— Pode sim! Pode comprar o que quiser, e vamos trabalhar juntos para vencer tudo.

— Está bem — concordei, ficando por lá com ele. Mesmo sabendo que se o meu filho viesse para cá, nada ficaria em pé — ele bagunça tudo, é muito esperto e arteiro. Almocei com o meu avô e voltei para aquela casa que parecia um inferno de tantas confusões.

Quando cheguei, vi meu filho chutando bola pelo jardim, e Gabriel ali com Clarissa ao lado dele. O menino já tinha quase quebrado a cerca de tanto brincar, mas sabia que perto do pai ele era intocável. E Paulo e Luan não falavam nada, não se atreviam — porque sabiam que o protetor estava ali, disposto a tudo.

Eu sei disso porque muitas vezes Luan chamou atenção do meu filho, chamando de cabeçudo. Se for para corrigir, até entendo, mas se for para tratar criança como se fosse adulta, eu não aceito de jeito nenhum. Foi por isso que nunca quis namorar com ele de verdade: ele não sabia respeitar o meu filho.

Entrei na casa, não dei confiança para ninguém, fui direto para o meu quarto e comecei a tirar a roupa para descansar um pouco. De repente a porta abriu de uma vez e Gabriel entrou.

— Sai daqui, Gabriel — falei firme, virando para ele.

— Não saio — ele respondeu, fechando a porta atrás de si com firmeza.

— Sai logo…

— Não saio.

 

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