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capítulo 6 Gabriel narrando...

Acerto de Contas

Autora: Edivania Rios

Todos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98

História ambientada entre 1990 e 1998

Protagonistas: Karina e Gabriel

 

Capítulo 6

Gabriel narrando…

Depois de ver o meu filho quase morto naquela noite, eu decidi com toda a certeza do mundo: vou casar com a mãe dele. Vou tentar colocar juízo naquela cabeça de riquinha mimada. Talvez eu esteja escolhendo o caminho mais difícil, que vai me trazer muita dor, mas não importa — o meu filho não pode continuar correndo risco de vida nesse lugar.

Não tenho a menor dúvida de que foi o Paulo quem fez aquilo. Ele viu a Karina sair, é louco por ela há anos, e resolveu agir na calada da noite. Pois eu vou tirar dele o que ele mais quer nessa vida: ela. Ninguém vai tocar um dedo no meu filho enquanto eu respirar.

Entrei no quarto e vi a Karina sentada na beira da cama, chorando, os olhos vermelhos e inchados. Ela me olhou e falou com a voz carregada de mágoa:

— Nunca mais me fale, Gabriel, que a sua namorada ama mais o meu filho do que eu. Ela não sentiu a dor de dar à luz a ele, não passou por tudo o que eu passei, engravidando de você e depois aceitando cada coisa com todo o amor que eu tinha. Eu saí ontem porque precisava andar, andar sem rumo… não tenho ânimo, não estou feliz… esse menino saiu de dentro de mim, eu amo ele mais do que tudo, então não diga o que você não sabe e não sente.

Eu respirei fundo, sentindo o peso das palavras que tinha dito na hora da raiva.

— Me desculpa — falei baixo, quase um sussurro. — Eu estava nervoso, preocupado, e não pensei antes de falar.

Ela virou para o menino, enxugando as lágrimas com as costas da mão:

— Vou resolver tudo para nós, meu amor. Daqui a pouco nós vamos embora daqui, está bem?

— Sim, mamãe — respondeu ele, todo encolhido de medo.

Virei-me para a Clarisse, que estava ali parada, esperando em silêncio. O coração doeu forte no peito, como se alguém o estivesse apertando, mas falei firme:

— Clarisse, me perdoe. Eu vou casar com a Karina.

— Por quê? — ela perguntou, os olhos cheios de lágrimas, sem conseguir acreditar no que ouvia.

— Porque eu preciso ficar mais perto do meu filho. Para que ela não saia durante a noite sem avisar ninguém, e para que esses homens despeitados não tentem machucá-lo de novo. Ou então eu vou acabar tendo que acabar de vez com a ganância e o desejo dessas pessoas.

Ela me olhou com uma tristeza que cortou a minha alma:

— Já não sei mais o que vim fazer aqui. Vou embora com você, Gabriel. Vamos sair daqui, eu não quero mais esse dinheiro, não quero mais nada disso.

— Vou ver se a Karina desiste dessa confusão toda — murmurei, mais para mim mesmo.

— Espera, Gabriel! — ela segurou no meu braço com força. — Eu amo você! Esquece essa mulher metida, por favor, volta para mim.

— Nunca foi por ela — falei, soltando devagar o seu braço. — Sempre foi e sempre será pelo meu filho.

Fui até a Karina e chamei:

— Karina, vem cá. Eu te propus casar com você, mas infelizmente a Clarisse quer ir embora… e por mim, você também poderia ir embora daqui.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa, mas ela respondeu com todo o orgulho de sempre:

— Pode ir, Gabriel. Vou pedir para o Luan cuidar de mim e do meu filho. Você aí com essa sua maneira rude de falar, dizendo que se preocupa com o menino, mas no fundo só ama uma pessoa: a sua namorada. Você me chamou de mãe ruim… e o que você está sendo agora?

— Eu exagerei, Karina — admiti, sentindo o peso da verdade. — Casamento é coisa séria, tem que ter amor. Você me odeia e eu amo outra mulher.

Ela levou a mão ao peito, respirou fundo e disse com uma voz calma que me surpreendeu:

— Tudo bem. Tudo bem então.

O menino se aproximou, todo apertado contra mim:

— Papai, estou com medo de ir morar naquela casa sozinho.

— Você vai comigo e com a sua mãe — falei sem pensar duas vezes. — Eu vou casar com a sua mãe.

Até eu me achei um louco: uma hora quero, outra hora não, mas no fundo sei que é o jeito certo de proteger ele.

— É verdade mesmo, papai? — ele perguntou com os olhos brilhando de esperança.

— É verdade — confirmei. A Karina me olhou sem entender nada, como se não acreditasse no que tinha ouvido.

Fui até a Clarisse, o coração doendo como se estivesse sendo rasgado ao meio, e falei olhando bem dentro dos seus olhos:

— Acabou, Clarisse. Acabou para nós.

Ela começou a chorar alto, e eu também não segurei as lágrimas. Foram dez anos juntos, tudo verdadeiro, tudo nosso. A Karina e o meu filho ficaram ali parados, nos olhando, com o coração apertado também.

Quando chegamos na casa grande, fui atrás do Paulo com toda a fúria que havia em mim. Segurei ele pela gola e dei uns murros forte, sem dó:

— Nunca mais você encosta um dedo no meu filho, seu incompetente! Seu frustrado! E quero que você saiba: eu vou me casar com a Karina. Você e esse idiota do Luan podem tirar o cavalinho da chuva — ela não vai ser de nenhum de vocês.

— O quê? — Todos ali ficaram assustados, sem acreditar no que ouviam.

— Não acredito nisso! — gritou o Luan, vindo para cima de mim. Dei uma porrada forte na cara dele, e o sangue saiu logo. — E não seja valente comigo, seu imbecil — falei firme. — Achou que da outra vez na cozinha conseguiu porque eu deixei? Pois saiba que isso não vai se repetir. E tudo o que vocês me fizeram no passado… o acerto de contas está batendo à porta agora.

Peguei o meu filho no colo e saí dali. Sei que eles vão tentar fazer mal à Clarisse por causa disso, tudo por dinheiro que esse povo não larga mão nem pela própria vida. Será que vale a pena tudo isso? Mas pelo meu filho, eu me dobro, eu faço qualquer coisa, eu me transformo em quem for preciso.

Levei o menino para o meu quarto. A Clarisse veio atrás, ainda chorando muito:

— Não me diga que isso é verdade mesmo…

— É sim — respondi, secando o rosto com a manga da camisa. — Você sabe que é. Por favor, vá embora daqui. Ou terei que carregar vocês três comigo, e isso só vai trazer mais dor para todo mundo.

Assim que ela saiu, eu deitei e dormi cansado, com o corpo e a mente pesados. Quando acordei, vi a Karina ali, sentada na beira da cama, passando a mão devagar no rosto e nos cabelos do meu filho, com um jeito doce que eu nunca tinha visto nela antes.

— Teremos que conversar — ela disse, me olhando nos olhos.

Eu concordei com a cabeça. Fomos até o banheiro, para não passar pela sala e não ver a Clarisse, para evitar mais sofrimento para todos.

— Como vai ser o nosso casamento? — ela perguntou baixo, quase num sussurro.

— Vai ser um acordo — expliquei. — Nós dormiremos no mesmo quarto, mas com separação de corpos. E eu não vou deixar a Clarisse, eu pretendo continuar com ela.

— E eu também posso ficar com quem eu quiser? — ela perguntou sem pestanejar.

Abri bem os olhos, surpreso com a pergunta, e respondi meio seco:

— Se for longe daqui, sim. Mas no fundo do meu coração eu queria dizer que não.

— Está bem — ela disse tranquila. — Então vamos nos casar.

— Por que você aceita algo tão pouco, Karina? — aproximei dela, enrolei um fio do seu cabelo nos meus dedos e fiquei olhando bem fundo nos seus olhos.

Ela me olhou firme e respondeu:

— Qual foi a pergunta que você me fez mais cedo?

Eu apertei os olhos, tentando lembrar, tinha esquecido no meio de tanta confusão e dor.

— O que eu faria pelo nosso filho? — ela continuou, com a voz firme. — Eu daria a luz a ele outra vez. Eu daria a minha vida por ele de novo e de novo.

— Mesmo ele sendo meu? — perguntei, com a voz embargada pela emoção.

— Mas como ele não poderia ser? — sorriu fraco, quase triste. — Posso dormir aqui na cama com vocês?

— Já? — pensei logo na Clarisse, sentindo uma pontada forte de culpa.

— É só dizer que não que eu vou embora agora mesmo, Gabriel — disse ela, sem se ofender nem um pouco. — Não vou te agarrar, pode ter toda a certeza.

— Pode sim — acabei dizendo, sem saber direito por quê.

Levei ela até a cama; ela estava com um pijama simples de calça e blusa, sem nenhuma jóia, sem nada de luxo. Deitamos, e ela ficou de lado, virada para o menino, cuidando dele em silêncio. Mas eu não conseguia parar de olhar para ela. Essa mulher… eu não esqueci como ela geme, como ela se entrega, como ela mexe comigo de um jeito que ninguém mais consegue. Meu Deus, como posso estar pensando nisso agora? Confuso é a palavra que define tudo o que sinto. Como pode passar oito anos sem ver uma pessoa, e de repente ter que casar, conviver, mudar toda a minha vida da noite para o dia? Parece que ela fez explodir uma bomba em tudo o que eu construí até hoje.

Passei a mão no rosto, tentando ver se estou embriagado ou sonhando. Não, estou sóbrio, de pé, mas com a cabeça girando sem parar. Ela exala riqueza, elegância, sempre com roupas boas, um jeito de quem nunca precisou lutar por nada na vida. E além de tudo… é fascinante, sexy, linda de um jeito que me deixa atônito. Mas eu não vou deixar a Clarisse. Eu amo ela. Não importa o que aconteça, não importa o que eu tenha que fazer pelo meu filho, o meu coração ainda é dela.

 

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