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A DESILUSÃO
— Você se comportou hoje, meu amor? — pergunto assim que robert corre pelo corredor colorido da escolinha e se j**a diretamente para os meus braços. O impacto do seu corpinho contra o meu é a única âncora real que tenho depois de um dia exaustivo. A professora, uma jovem carinhosa com um sorriso gentil e olhos cansados, aproxima-se enquanto entrega a mochila dele, enfeitada com pequenos dinossauros. — Ele é um anjo, sofia, como sempre, não dá trabalho, brincou com os colegas, dividiu os blocos de montar e até ajudou a guardar os brinquedos na hora da soneca. — Ouviu isso, meu amor? Sua professora te elogiou — beijo a bochecha gordinha do meu filho, arrancando uma risadinha gostosa e cristalina que ecoa pelo hall de entrada. O som é música pura para os meus ouvidos. robert passa os bracinhos curtos ao redor do meu pescoço, apertando-me com aquela força desajeitada que só as crianças possuem, enquanto caminhamos lado a lado até o estacionamento. O ar de fim de tarde está fresco, anunciando a chegada da noite, o cheiro de shampoo infantil misturado com o perfume adocicado natural da pele dele me faz sorrir automaticamente, derretendo qualquer tensão que eu estivesse carregando dos ombros. Depois de um dia inteiro de trabalho lidando com planilhas, prazos e demandas intermináveis, esse é, sem a menor sombra de dúvida, o meu momento favorito de toda a existência. São momentos como esse que faz meu mundo melhor, donovan trabalhou a tarde em casa, fiquei na empresa um pouco mais para revisar as planilhas. Coloco-o com cuidado na cadeirinha no banco de trás do carro, ajustando os cintos com a precisão de quem tem essa rotina todos os dias, e coloco a sua mochila no banco do passageiro. — Quando nós chegarmos em casa, a mamãe vai fazer o seu jantar favorito, o que você acha? Os olhinhos escuros dele, tão parecidos com os do pai, brilham em pura empolgação. — Eba! — Você vai comer tudinho, depois vou te dar um banho bem quentinho, com muita espuma, a mamãe vai contar uma historinha daquelas bem longas… e você vai dormir bem cedo hoje, tudo bem? Mamãe quer ficar sozinha hoje com o papai. O sorriso dele diminui um pouquinho, e ele inclina a cabeça, confuso. — Pur quê, você quer ficar só com o papá? Dou partida no carro, o motor roncando suavemente sob o capô, e solto um sorriso contido, quase um segredo só meu. — Porque a mamãe precisa conversar com o papai, um assunto de adulto, somente os adultos podem conversar assim. Ele pondera por um segundo, seus pequenos dedinhos brincando com a fivela do cinto, antes de seus olhos brilharem novamente com uma lembrança muito mais importante para um garotinho da sua idade. — É torta de maçã, mamã? Rio baixinho, manobrando o carro para fora do estacionamento e entrando no fluxo contínuo do trânsito do início da noite. — Você quer torta de maçã? — Sim! Muita assim! — Tudo bem, seu espertinho, a mamãe vai deixar você comer um pedacinho da torta que está na geladeira. Mas só um pedacinho, ouviu bem? Nada de dor de barriga antes de dormir. — Tá bom. Coloco uma música suave, um jazz instrumental de notas calmas, para tocar no rádio enquanto dirigimos pelas ruas cada vez mais iluminadas da cidade. Os postes de luz começam a acender, lançando flashes dourados e sombras passageiras dentro do carro. Pelo espelho retrovisor, vejo que robert fica rapidamente distraído olhando pela janela, fascinado pelas luzes dos faróis e pelos letreiros brilhantes das vitrines, balançando os pezinhos curtos no ar. Eu aproveito esse silêncio confortável para pensar e planejar essa noite romântica que quase não temos tempo de ter. Não gosto de babás ou empregadas, tenho uma diarista que vem três vezes na semana; eu e donovan gostamos de nossa privacidade. E por esse motivo não temos muito tempo para nós. Minha sogra sempre vem buscar o robert, mas nós sentimos saudades e vamos buscar. Um momento de verdade, longe de tudo, antes mesmo de dizermos "boa noite". Acabei esquecendo de nós dois. donovan sempre esteve tão focado em manter o império da família stewart de pé, viajando, participando de jantares de negócios, e eu fiquei com a parte silenciosa da vida: a casa, o filho, a estabilidade. Aos poucos, a distância se infiltrou de forma silenciosa e letal, construindo um muro de gelo entre nós. Mas hoje será totalmente diferente, já prometi a mim mesma. No banco do passageiro, escondida no fundo da minha bolsa de couro, repousava uma pequena sacola de uma boutique exclusiva. Dentro dela, uma caixa preta com um laço de fita de cetim; comprei uma lingerie nova durante o meu horário de almoço. Linda e perfeita, feita de seda pura e renda francesa, num tom de vermelho profundo. É uma peça que não serve apenas para cobrir o corpo, mas para fazer uma mulher se sentir poderosa, viva e, acima de tudo, desejada outra vez. — Shhh… silêncio, meu amor — sussurro, colocando um dedo sobre os lábios em um gesto cúmplice. — Vamos fazer uma surpresa para o papai hoje, meu amor? O rosto de robert se ilumina com a adoração pura e incondicional que apenas um filho tem por seu herói. — Papai! — Shhiiiii meu amor, papai não pode ouvir! É surpresa — sorrio, ajeitando o casaco dele. Seguro firmemente sua mãozinha gordinha; com a outra mão, pego minha bolsa, sentindo o volume da caixa de lingerie contra a lateral, e caminho a passos leves em direção à imponente porta de carvalho duplo da entrada principal. Giro a maçaneta devagar e entramos no grande hall de entrada. Tudo parece em ordem: o cheiro de limpeza, o arranjo de flores frescas sobre a mesa de centro. E ouço vozes. donovan está com visitas? Vou caminhando e paro, em choque, com a cena que vejo na minha frente. Meus pés congelam no chão, o ar abandona os meus pulmões de uma única vez, como se eu tivesse levado um soco brutal na boca do estômago. Meu coração não apenas acelera; ele para. A dor é lancinante. Meu marido está aos beijos com vanessa. Ele está no centro do nosso tapete persa, aos beijos, e essa pessoa não é ninguém menos do que a ex-esposa de damien, o tio dele. Eu dou um suspiro forte e eles me ouvem. donovan me olha assustado. — Amor, não é o que você está pensando! A vanessa veio aqui conversar. A bile sobe pela minha garganta, queimando; meu estômago revira violentamente e, por um segundo, não aguento e começo a vomitar, sem controle, sobre o piso de mármore. O chão parece desaparecer debaixo dos meus sapatos. A realidade se distorce, estilhaçando a imagem da vida perfeita que pensei ter em milhões de fragmentos pontiagudos que cortam a minha alma. — Meu Deus, o que vocês estão fazendo, donovan? Você e vanessa? A minha voz sai rasgada, um sussurro engasgado, mas no silêncio mortal da casa, soa como um trovão. donovan empurra vanessa, afastando-se bruscamente, como se tivessem sido atingidos por um choque elétrico. Ele se vira, perde o controle e sua cor desaparece instantaneamente, passando para um branco cadavérico. Seus olhos se arregalam de uma forma patética, até parecem os olhos de alguém que bebeu muito. vanessa se vira parcialmente para a luz, seu rosto com um sorriso cínico de triunfo. Os traços daquele rosto arrogante e perfeitamente esculpido. O arrepio que sobe pela minha espinha não é apenas de dor; é de asco. Sinto nojo puro e absoluto. — Vocês dois enlouqueceram, donovan? Dentro da nossa casa? O choque começa a ceder lugar a um tremor incontrolável que domina minhas mãos e minhas pernas. robert começou a chorar com o som da minha voz alta. Minha voz sobe uma oitava, trêmula, carregada de pânico e descrença. — Amor… sofia, por favor, não é o que você está pensando, me escuta, posso te explicar — donovan começa a dizer, a voz falhando miseravelmente. Ele dá um passo patético na minha direção, erguendo as mãos como se tentasse acalmar um animal assustado. A hipocrisia dele me dá náuseas. — Sai da minha casa, vanessa! — dou um grito de ódio, só não avanço nos dois por causa do robert. — Não é o que eu estou pensando, estou vendo?! — falo controlando minha voz. O som agudo e cortante do meu desespero estilhaça a bolha de inocência que ainda restava ali. robert, sentindo a energia pesada, o pânico e o tom irreconhecível da minha voz, se encolhe. O sorriso dele morre instantaneamente, dando lugar ao terror. Ele chora mais alto, em desespero e confusão de uma criança que não entende por que o seu mundo seguro de repente se transformou em um pesadelo. — Mamãe, não chola… O choro dele é como uma facada no meu coração; é o gatilho que me puxa do abismo da histeria de volta para a realidade cruel. Imediatamente, largo a minha bolsa no chão — a bolsa com a lingerie inútil — me abaixo e o pego no colo. Aperto o corpinho dele contra o meu peito, enterrando meu rosto em seus cabelos com cheiro de shampoo. — Shhi… não chora, meu amor… a mamãe tá aqui, não chora, mamãe não está chorando — murmuro freneticamente, balançando-o de um lado para o outro. — Tá tudo bem… tá tudo bem… Mas não estava, e nada nunca mais estará bem. donovan engole em seco, os olhos cheios de um pânico covarde. — sofia, por favor, me escute, eu posso explicar, não é o que você está pensando, amor, vanessa veio aqui falar comigo. Antes que ele termine a frase patética, um som corta a sala. Curta, seca e com deboche, que me deixou em choque. vanessa não demonstra remorso, mas mostra um prazer, absolutamente debochada, fazendo pouco de mim. Eu levanto o olhar, meus olhos ardendo por trás das lágrimas, e encaro a outra mulher, vanessa. Ela não olha para donovan e fixa os olhos diretamente para mim, de cima a baixo, mal disfarçando a maldade e a repulsa por mim. Ela não demonstra um pingo de vergonha. Antes de sair, fala: "Agora o assunto é com vocês", e vai embora. E eu… sinto uma vontade incontrolável e primitiva de gritar até rasgar as minhas cordas vocais, de pegar o abajur, os vasos e porta-retratos e quebrar tudo em cima dele. Minha vontade é de avançar no pescoço de donovan e destruir aquele rosto bonito que ele usou para destruir a minha vida. Mas eu não posso. As mãos pequenas de robert apertam a minha blusa; o meu filho está me olhando. Então, com um esforço sobre-humano, eu engulo a dor cortante e o ódio fervente que quer corroer o meu peito, o choro e as lágrimas ácidas que ameaçam transbordar. Puxo o ar para os pulmões, erguendo escudos de aço ao redor do meu próprio coração em estilhaços. O choque cede e, em seu lugar, nasce uma frieza que eu não sabia que possuía. Ajeito robert nos meus braços de forma protetora. A voz que sai da minha boca não parece a minha, é monótona, a mais fria que já ousei pronunciar em toda a minha vida. Ele tenta dar um passo vacilante, a mão estendida em um pedido de socorro mudo, os olhos cheios de um arrependimento inútil. — sofia, por favor, me escuta, eu ia te contar tudo hoje, eu juro, a vanessa veio aqui para se despedir. — Claro, depois nós conversamos, amanhã; amanhã é o ideal. O rosto dele perdeu completamente qualquer cor que ainda tentava voltar, como se eu o tivesse esbofeteado com força máxima. Ele entende, naquele exato segundo, que a mulher doce e compreensiva que ele enganou por anos acabou de morrer ali, naquele tapete. Dou as costas para ele, caminhando em direção à cozinha com meu filho protegido no colo, sem olhar para trás nem uma única vez. — Amanhã… nós conversamos, e decidiremos nosso futuro.






