capitulo 4

Ela ficou uma fera, ao esbarrar em seu noivo. Não bastasse ter que casar com um estranho, ele também era arrogante e prepotente. A mulher só faltou o empurrar de verdade, para que o babaca tivesse razão ao tratá-la daquela forma. Sophia tinha acabado de chegar, não foi conduzida para aquele lugar e não havia ninguém que a ajudasse a levar para o salão onde seria recepcionada. O palácio moderno, era enorme, com muitos quartos, salas, corredores, e a princesa não fazia ideia de onde estava. Ela trouxe consigo uma acompanhante que também era sua amiga, contudo, ela mesma havia pedido um momento a sós, para refletir sobre tudo o que aconteceria naquele lugar.

Se Soph soubesse que daria de cara, sem querer, com seu futuro marido, e que ele seria tão rude, não teria saído do quarto.

O mais engraçado era que: ao mesmo tempo que odiou encontrar o homem e ter ouvido suas grosseiras, ela gostou de provocar Nikolai e de ver sua expressão surpresa e confusa, ao levar o troco. Soph sabia que seria um desafio muito grande. Nikolai era um estranho. Alguém que claramente ela teria trabalho. Contudo, foi criada para enfrentar seus desafios. Aquilo era o seu dever e faria de tudo para domar o rei.

— Ele acha mesmo que vai me dominar? – Bufou. – Acha que pode me tratar de qualquer forma?

Depois que ele passou por ela, furioso, Sophia se lembrou de que não fazia ideia da onde estava e como chegaria ao salão. Ela fez mal em pedir para que sua acompanhante a deixasse só. Aquele palácio era novo para a princesa. Ela andou pelos corredores, prestou atenção nas janelas, nos vasos, nas pinturas de figuras famosas. Por sorte encontrou um guarda.

— Caro senhor... — O homem, que mais parecia uma estátua, se curvou e não encarou seu rosto. — Estou perdida. Poderia me ajudar a chegar no salão da recepção de boas-vindas?

O guarda se endireitou e olhou para Sophia, seu olhar sério, mas educado.

— Claro, alteza. Por favor, siga-me.

Engraçado saber que os próprios soldados sabiam quem ela era, mas o homem com que, possivelmente, ou improvavelmente, se casaria, não.

Sophia seguiu o guarda pelos corredores imponentes do palácio, tentando não se distrair com os ornamentos e decorações opulentas em cada canto. Ela se sentiu aliviada por ter encontrado alguém que pudesse ajudá-la e a guiá-la em segurança pelo palácio desconhecido.

Finalmente, eles chegaram ao salão da recepção de boas-vindas, onde nobres e convidados importantes estavam reunidos para cumprimentá-la. Sophia agradeceu ao guarda com um sorriso grato e se dirigiu para o centro do salão, sentindo-se um pouco ansiosa com a atenção que receberia. No entanto, ela sabia que era sua responsabilidade como princesa cumprimentar a todos com graça e dignidade.

Em nenhum momento, desde que entrou naquele lugar, ela deixou de pensar no rei. Ele chamou sua atenção. Mesmo irritada, Sophia sabia que deveria ser gentil e entender que possivelmente aquele homem a ideia pelo fato de ter que casar com uma estranha, assim como ela. A morena também sentia receio. Mesmo sendo criado para isso, ter certeza de que no final seria obrigada a casar com aquele rei no qual ela pouco conhecia.

— Não pode ser tola e deixar que ele a trate dessa forma. — Ela disse a si mesma. — Posso até entender seus sentimentos. A raiva, mas não justifica sua arrogância. — Os nobres conversavam com seu pai, que a olhou da onde estava. Se perguntando o porquê a sua filha estava fazendo e pensando. — É, papai, eu estou em uma enrascada.

O burburinho na porta sinalizava que ele estava vindo. Apesar de já ter esbarrado nele, Soph sentiu-se como uma menina boba, com o coração na mão e o frio na barriga. Nikolai passou pela porta, apressado, seguido pelos guardas. Ele varreu o salão até a encontrar, no canto, o encarando.

A surpresa foi nítida. Ela deu um sorriso convencido e um comprimento silencioso. Seus olhos diziam: é, babaca, eu estou aqui.

Muitas coisas se passavam na cabeça de Nikolai, como: o que aquela maluca está fazendo aqui? E porque a comitiva espanhola está ao seu lado?

Ele não queria deduzir que, a mulher na qual esbarrou e lhe tratou com tanta petulância era, na verdade, a noiva que ele esperava. Nikolai sofria de um mal: ansiedade. E essa situação a despertou, o fazendo sentir seu coração acelerar, silenciando o barulho ao redor, focando apenas no olhar da moça.

Ela era bonita, isso ele tinha que admitir, contudo, Niko nutria uma rejeição que, mesmo com tal beleza, ele a renegaria. Não daria espaço para algum relacionamento, mesmo que, se isso acontecesse, seria mais fácil. Alice. Eu amo Alice.

— Meu Deus. — A dama de honra arregalou os olhos e pôs a mão na boca, com medo de que a ouvisse. As duas estavam distantes do grupinho de amigos, então ninguém as ouviriam. — Ele é mais bonito pessoalmente.

— Não se engane. — Soph não deixou de observar o noivo, por um segundo. Ele sabia disso. Ficou nervoso e desconfortável. — Sua beleza não faz a mínima diferença, pois a arrogância ofusca todo o resto.

— Pensei que vossa alteza nunca tinha o visto antes. — Ela expressou a surpresa.

— Não, até minutos atrás.

Arrogante e babaca. Ela pensou.

Elas se calaram ao ver o rei, sua mãe e o duque, pai de Sophia, se aproximando.

Os dois se entreolharam, sabendo o que se passava na mente de ambos. A dama reverenciou o rei, mas Sophia, continuou com sua dureza. Ela não se curvaria. Por dois motivos: o primeiro, o babaca não merecia, pela forma como a tratou. Segundo, não foi criada para se rebaixar a um homem.

— Essa é a minha filha, princesa e duquesa de Castilho. — Contra a sua vontade, ela o cumprimentou.

— É um prazer conhecê-la. — Niko sorriu, a contragosto, pegou em sua mão e a beijou com elegância.

Estavam em público, ninguém precisava notar a tenção ou desconforto. Os olhos verdes sabiam que era mentira, a sua gentileza. O sorriso convencido não saia dos lábios dela. Niko tinha que admitir que existia uma energia. Estranha e perigosa. Sua pele era macia, com fragrância de rosas silvestres, assim como a personalidade dela. Quando notou que segurava a sua mão a um bom tempo, soltou-a rapidamente.

***

Mesmo não se conhecendo, eles tinham uma cumplicidade particular. Sophia sabia que o rei era rude e estressado, e ele, sabia que ela não baixava a cabeça nem para ninguém, muito menos para ele.

Aquele encontro foi bem revelador. Nikolai conheceu seu lado provocador, desafiador. A língua solta. Não o desagradava totalmente. Era bom ter alguém que não se jogaria aos seus pés.

— Vamos os deixar se conhecerem. – Disse a rainha mãe, que pegou no braço do duque, se afastando do casal.

Lado a lado, Soph sorriu, encarando o rei. Existia uma mensagem subliminar que só ele entendia. Ela gostou do jogo de palavras, então, ousou fazer de novo, sussurrando.

— Não se preocupe. Não vou entrar na sua frente novamente, majestade. — Debochou.

Niko mordeu o maxilar, pensando que teria dor de cabeça com a menina de língua solta. Contudo, aquela ansiedade sumiu. Talvez fosse porque já tinha a visto antes. Bem, ele não sabia o que era, mas ficar perto dela diminuía a pressão nas suas costas.

— Já conheci muitas princesas, mas nenhuma delas era tão indelicada. – Jogou as palavras que a fizerem rir, pondo a mão na boca. – Você me trata como um qualquer.

— Perdão, Majestade – Ele reconheceu a ironia. – Mesmo sendo o rei soberano deste país, não lhe dá o direito de me tratar da forma como me tratou.

Niko ficou em silencio, pensando. Ela tinha razão. Sua raiva e rancor, não era da mulher, mas sim, do acordo. Ao respirar fundo, ele disse:

— Perdoe-me por isso. — Ele disse. Foi sincero. Odiava ser rude com as pessoas, contudo, as vezes saia sem que pudesse. Nikolai sabia que o raiva que tinha pela figura da sua noiva, contava para que o rei fosse tão duro. — Eu não devo tratá-la dessa forma.

— Pelo menos reconhece. — Ela disse, o encarando. — Perdoe-me a indelicadeza. Mas sobre isso: geralmente acontece sem que eu perceba. Não leve a sério. Só espere respostas a altura das suas grosseiras, caso volte a acontecer.

Nikolai encarou por alguns segundos. Ele via os detalhes do rosto, que antes, por conta da raiva, não notou. Ela tinha belos cabelos escuros, olhos verdes como esmeraldas, uma simetria quase perfeita. Lábios rosados, carnudos, pele pálida e macia, sem falar no perfume que refletia sua personalidade.

— Não pode me responder de forma tão irônica, na frente das pessoas. — reclamou.

— Não se preocupe, fui criada para ser uma lady, na presença de pessoas importantes. — respondeu. — Contudo, o senhor, mesmo sendo o soberano, se me tratar com arrogância, receberá o mesmo, então, lhe aconselho a não usa-la comigo. Quanto aos demais, serei uma pluma, estando ao seu lado.

Novamente ele se mordeu. Niko sentia uma mistura de emoções novas. Não podia dizer que odiava totalmente.

— Quer a verdade? – Virou-se para ela, que confirmou com a cabeça. – Esse acordo, ele é fadado ao fim.

— Tenho em mente que o senhor e eu, não escolhemos e que sim, podemos não gostar um do outro, agora.

— Não, Sophia – Era a primeira vez que ela o ouvia dizer seu nome. – É sincera e eu devo ser também. – O coração dela, deu uma acelerada. Ela sabia o que estava por vir. Sabia, também, que se voltasse para seu pais, sem um acordo selado, causaria um burburinho negativo. Os dois países votariam a se odiar. Brigas, sanções, pois sua tia, a rainha, não permitirá tão humilhação. – Sei das consequências, mas não tenho intensão alguma de casar com você.

Mesmo esperando essa reação, ouvir da boca dele, no primeiro dia em Galles, era difícil. Ser rejeitada dessa forma era uma humilhação imensa. Ela cresceu sabendo que seria a rainha daquele pais. Sua tia, nem lhe permitia estudar fora dos muros do castelo, ela não podia ter amigos, tinha que falar fluente a língua, ser a esposa perfeita, par agora, ser rejeitada dessa forma.

Contudo, Sophia não baixou a cabeça.

— Quando achar uma saída, me avise. – Desviou sua atenção dele, passando a observar as outras pessoas, no enorme salão. – Quem sabe eu não o ajude a convencer a minha tia.

— Deseja o mesmo que eu? – Nikolai se surpreendeu.

Soph se mordeu por dentro. Um sentimento ruim em seu peito. As consequências para ela seriam terríveis, mas o que poderia fazer? O forçar a casar-se?

Ela não tinha esse poder, e não se sujeitaria a planejar algo para o seduzir.

— Você é um adulto, não posso o forçar a nada. Já no meu caso, fui criada para ser sua esposa. Aprendi tudo, até mesmo a história da conquista de Galles – Ela lembrava dos detalhes, das noites que tinha que estudar e no outro dia, deveria descrever, com detalhes, o que aprendeu, para a rainha. – Não tive escolhas, mas quem sabe, com algo bem convincente, nós dois possamos ser livres. – Niko tinha que concordar estar surpreso. – Mas, por enquanto, devemos nos tratar com cordialidade e fingi que isso pode realmente acontecer.

— Concordo com a ideia. – Niko até pareceu mais feliz. – Foi um prazer, conhece-la, princesa. – Ele, novamente tomou a sua mão, a beijando, ao se curvar.

Os olhos se encontraram. Soph sentiu seu coração quase parar no peito com o gesto, que dessa vez foi verdadeiro. Ela deu um sorriso tímido, o vendo solta-la, saindo dali.

O rei queria ignorar a sua presença ali, mas não podia. Ela era a sua noiva, a mulher que estava em seu caminho e que podia destruir sua segurança. O acordo não era tão flexível, não era bobo. Caso dissesse não, ofenderia a rainha Margareth e isso seria um erro imperdoável para os parlamentares e todos que o respeitava.

Entretanto, assim como havia dito, tentaria achar uma saída, e era bom saber que tinha a aprovação de Sophia.

— Desculpe — A dama de honra se aproximou, com cautela e esperando que ninguém a ouvisse. — Mas ele não parece estar receptivo.

Sophia encontrou a figura do noivo, que, depois daquela conversa, ficou menos chateado com a sua presença ali, mais calmo e paciente. Era bobo achar que, de alguma forma, os dois se dariam bem e que ele esqueceria essa história de “Achar uma saída”?

Para Nikolai seria mais fácil. Ele não tinha uma tia, que, literalmente, a mataria, caso voltasse para casa sem o acordo firmado. Margareth não aceitaria. Até poderia deixar de lado o casamento, se Niko lhe desse uma saída e vantagens que fossem boas para Interfell, mas por dentro, ela se sentiria humilhada e rejeitada. E toda a culpa recairia nos ombros de Sophia.

— Não está. — ela respondeu, pensativa. — Também não estou feliz com isso. Sou a única que carrega esse sacrifício. Ele é o rei, o todo poderoso. Mas se voltar para casa, sabe o que ela fara.

— Não! – A dama tocou em seu ombro, fazendo com que Soph a encarasse. – Ela não pode machucar você.

A mulher estava temerosa.

— Se Nikolai encontrar uma forma de quebrar nosso acordo, preciso da sua ajuda.

Pegou nas mãos dela.

— Ajuda para que? – Franziu o cenho.

— Desaparecer do mapa.

— Sophia – Repreendeu Anna, a olhando feio. As duas conversavam quase sussurrando, para que ninguém soubesse o teor da conversa. – Isso não será preciso.

— Nikolai disse com todas as leras que não pretende se casar comigo. E se eu soltar sem uma aliança no dedo, ela me apagará da história.

— Peça para que fique – Deu a ideia. – Ele pode dar proteção.

— Seria humilhante, além disso, aposto que a nova rainha não vai gostar da ideia. Eu era a noiva do rei, acredita que amada dele irá aceitar tal coisa.

— O que pensa em fazer? – Franziu o cenho.

— Não sei ainda – Pensou. – Mas por enquanto, vamos nos concentrar no presente.

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