Capítulo 05

༺ Dafne Aslan ༻

A dor de cabeça ainda martelava com força quando abri os olhos na manhã seguinte. O teto alto, com detalhes esculpidos em gesso, me lembrou imediatamente de onde eu estava. Eu não estava no meu quarto miserável e nem sob as garras do meu pai. Mas na mansão dos De la Vega.

Meu corpo inteiro protestou quando me sentei na beira da cama, mas ergui o queixo. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar agora. Sentar e chorar não ia resolver nada, e eu me recusava terminantemente a virar refém nesse lugar desses homens. Se eles pensavam que me trancar em um quarto luxuoso me faria baixar a guarda, estavam muito enganados.

Caminhei até a janela e puxei a cortina pesada. O sol matinal iluminava a imensidão da propriedade, mas o belo visual logo perdeu a graça. Espalhados pelos gramados, perto dos portões e ao longo do muro alto, homens de terno escuro e postura rígida rondavam sem parar. A segurança desse lugar era uma fortaleza impenetrável.

— Merda… Como vou sair daqui? — murmurei, soltando o tecido da cortina.

Virei-me e vi minha mochila descansando sobre a mesa de cabeceira. Peguei a alça, ajustei no ombro e me aproximei da porta. Girei a maçaneta bem devagar, rezando para não fazer barulho, e pisei no corredor silencioso.

Caminhei rente à parede, meus pés descalços afundando no tapete felpudo. A mansão parecia um labirinto, mas um aroma delicioso de café fresco e pão assado começou a flutuar pelo ar, guiando meus passos. Se eu quisesse encontrar uma saída discreta, a área de serviço ou a cozinha eram minhas melhores apostas.

Desci a escadaria secundária e segui o cheiro até encontrar uma porta dupla de madeira clara. Empurrei uma das frestas e me esgueirei para dentro, procurando uma porta de saída para os fundos.

— Tentando fugir antes do café da manhã?

O susto fez meu coração saltar na garganta. Dei dois passos para trás, encostando as costas no balcão de mármore.

Era aquele homem alto que foi gentil ao me dar o copo de água ontem. Ele tinha ombros largos e braços cobertos por tatuagens que sumiam sob as mangas dobradas da camisa; estava parado perto do fogão industrial. Ele usava um avental escuro e segurava uma colher de pau.

Seu semblante era calmo, mas seus olhos me mediam da cabeça aos pés com uma atenção perturbadora. Era Dante.

— Eu não estou fugindo — menti, apertando a alça da mochila no peito. — Só estava procurando a saída.

— O que dá no mesmo — ele rebateu, esboçando um canto de sorriso sem nenhuma ironia. Ele virou de costas, pegando um prato fundo sobre a bancada. — Senta aí. Você precisa comer.

— Eu não quero comer. Quero ir embora.

Dante colocou o prato na bancada alta e puxou uma das banquetas de madeira, indicando o assento com a cabeça.

— Você passou por um estresse absurdo ontem, passou mal e quase desmaiou de fraqueza. Se tentar cruzar aquele portão agora, não chega nem à metade do caminho antes de cair no chão.

— Isso é problema meu — rebati, mantendo a postura ereta. — Agradeço por terem me tirado daquela estrada, mas não posso ficar aqui. Vocês não têm o direito de me segurar.

Ele não se alterou. Serviu uma porção generosa de ovos mexidos, acompanhada de fatias de pão artesanal e um copo de suco de laranja natural, empurrando tudo na minha direção com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho.

— Come primeiro. Depois a gente conversa.

Encarei o prato e meu estômago roncou, traindo minha tentativa de manter a pose. Odiei o fato de ele estar certo sobre a minha fraqueza. Com relutância, me aproximei e me sentei na ponta da banqueta, deixando a mochila no colo. Peguei o talher e dei a primeira garfada. A comida estava divina, o que me irritou ainda mais.

Dante encostou o quadril na bancada da frente, cruzando os braços musculosos. Ele me observava mastigar, seu semblante calmo transmitindo uma estranha sensação de controle. Não havia violência no seu tom, mas cada palavra carregava um peso esmagador.

— O seu pai quase te destruiu, garota. Ele te vendeu como se você fosse um objeto qualquer para cobrir o fracasso dele.

Tossi, quase engasgando com o alimento. Pousei o garfo, sentindo uma pontada no peito.

— Você não sabe nada da minha vida.

— Sei o suficiente — ele interrompeu suavemente, dando um passo curto na minha direção. Apoiou as mãos no mármore, inclinando o corpo para ficar na altura do meu rosto. — Percebo que você está assustada e acha que todo mundo quer te usar. Mas precisa entender uma coisa muito importante.

— Eu não sou prisioneira de vocês! — exclamei, erguendo a cabeça para sustentá-lo. — Não saí da gaiola do meu pai para entrar na de vocês.

Dante me encarou com uma paciência quase paternal, mas notei que uma obsessão brilhava no fundo das suas íris. Ele estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre a minha testa. O toque foi tão sutil que meu corpo congelou.

— Ninguém disse que você é prisioneira — ele murmurou, mantendo o tom suave e acolhedor. — Mas daqui ninguém te tira. Nem o seu pai, nem esses homens que acham que podem te comprar… e nem você mesma. Você está sob a nossa proteção agora, Dafne. E nós cuidamos do que nos pertence.

A palavra “pertence” ecoou no ambiente como uma sentença. A forma como ele usava a comida, o cuidado e a calma para me cercar era assustadora. Ele não precisava erguer a voz ou usar a força bruta; a posse dele estava disfarçada de abrigo.

Afastei o rosto do toque dele, segurando o copo de suco com as mãos trêmulas.

— Vocês são loucos. Todos vocês.

— Somos realistas — ele corrigiu, voltando para o fogão para desligar a chama. — E, enquanto você estiver sob este teto, vai se alimentar direito, descansar e ficar viva. Quer você goste, quer não.

Antes que eu pudesse formular uma resposta para rebater aquela loucura, a porta da cozinha se abriu bruscamente. Um dos homens de terno preto colocou a cabeça para dentro, o semblante tenso.

— Sr. Dante. O Alejandro está chamando todo mundo. Reunião de emergência na biblioteca agora.

Dante somente assentiu com a cabeça, tirando o avental de pano e jogando-o sobre o balcão. A aura calma de cozinheiro pareceu evaporar no mesmo instante, dando lugar à postura fria e perigosa de um homem daquela família. Ele me encarou uma última vez.

— Termine de comer tudo. Se eu voltar e ver esse prato cheio, você vai me deixar chateado.

Ele saiu da cozinha sem olhar para trás, deixando a porta balançando suavemente. Fiquei sozinha na imensidão desse ambiente. As mãos ainda tremiam sobre a mesa. As ameaças do meu pai eram fáceis de entender, mas aquilo… Esse tipo de domínio vestido de zelo era muito mais perigoso.

Puxei a mochila para os ombros de novo e me levantei devagar. Se Alejandro estava reunindo todos os irmãos na biblioteca, a atenção da casa estaria voltada para lá. Era a minha única chance. Se eu quisesse descobrir o que eles planejavam fazer comigo ou encontrar uma falha naquela segurança.

Eu precisava ouvir a conversa dessa reunião. Caminhei até a porta e dei uma espiada no corredor. Estava vazio. Respirei fundo, engolindo o medo que tentava me paralisar, e segui em silêncio na direção do centro da mansão.

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