Mundo ficciónIniciar sesiónO Ancião ergueu a mão, pedindo silêncio, e a praça obedeceu devagar, como uma respiração longa sendo contida. Eu ainda não tinha me movido do lugar. Sentia as pernas presas ao chão, como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda se recusava a aceitar.
— Kael, Alfa de Vorden — disse o Ancião, a voz solene, treinada por décadas de cerimônias como aquela. — O pergaminho falou. Aceita você Eliz, filha de Aldric, como sua companheira perante a alcateia e perante a lua? Era só isso que ele precisava dizer. Uma palavra. *Aceito.* Duas sílabas que eu tinha imaginado tantas vezes, em tantas versões diferentes daquela noite, nenhuma delas parecida com o silêncio que se estendeu depois da pergunta. Kael não respondeu de imediato. Ele se levantou do trono devagar, como se o próprio movimento lhe custasse algo, e por um instante insano eu pensei que talvez fosse só o peso da cerimônia, o nervosismo esperado de qualquer Alfa diante de um vínculo formal. Mas os olhos dele não estavam em mim. Estavam em Lucy, um último olhar, rápido, quase suplicante, como se pedisse perdão por algo que ainda nem tinha acontecido. Então ele olhou para mim. — Eu não posso — disse, e a voz dele, que eu conhecia bem demais, de anos observando de longe, soou estranha, rachada de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Eu não posso aceitar isso. Os murmúrios voltaram, mais altos agora, um mar de vozes sobrepostas. Senti Nora se mover ao meu lado, um passo à frente, como se quisesse se colocar entre mim e o resto do mundo, mas não havia nada que ela pudesse fazer contra o que vinha a seguir. O Ancião franziu a testa, a voz perdendo um pouco da solenidade. — Kael. O pergaminho não erra. Você sabe o peso do que está dizendo. — Eu sei. — Ele desceu os degraus do estrado, devagar, cada passo parecendo custar mais que o anterior, até parar diante de mim, perto o bastante para que eu visse o quanto as mãos dele tremiam, escondidas mal atrás das costas. — Eu sei exatamente o peso disso. Eu queria dizer alguma coisa. Queria perguntar por quê, ou talvez implorar, ou talvez apenas gritar até que ele entendesse o que estava prestes a fazer comigo, diante de todos que eu conhecia, diante do meu pai, que eu sabia estar em algum lugar daquela multidão, imóvel, sem conseguir fazer nada além de assistir. Mas minha voz não saía. Nada saía. Kael respirou fundo. E então, com aquela voz que a alcateia inteira ouviria, que ecoaria nas paredes de madeira das casas por semanas, ele disse as palavras que nenhuma loba deveria ouvir em voz alta: — Eu, Kael, Alfa de Vorden, rejeito você, Eliz, filha de Aldric, como minha companheira. A dor chegou antes que eu entendesse o que estava acontecendo. Começou no peito, um aperto que não era metáfora, não era só o coração partido de que as pessoas falam — era físico, real, como se algo dentro de mim estivesse sendo arrancado pela raiz. As pernas cederam antes que eu conseguisse pensar em me manter em pé, e a última coisa que vi com clareza foi o chão de terra batida da praça se aproximando rápido demais, e Nora gritando meu nome de um jeito que parecia vir de muito longe. Não desmaiei por completo. Fiquei ali, entre a consciência e algo mais escuro, sentindo mãos me erguerem — a de Nora, talvez, ou de alguém mais — enquanto a dor pulsava em ondas, cada uma pior que a anterior, como se o vínculo estivesse sendo cortado devagar, fio por fio, em vez de num golpe só. Através da névoa, ouvi vozes. A do Ancião, tensa, tentando restaurar a ordem da cerimônia. A de Theo, baixa, algo que soava como uma repreensão dirigida ao irmão. E, por um segundo, antes que tudo escurecesse de vez, ouvi a voz do próprio Kael, tão baixa que talvez ninguém mais tivesse ouvido além de mim. — Me desculpa. Não foi suficiente. Não seria suficiente por muito tempo. Quando voltei a mim, já estava dentro de casa, deitada na minha própria cama, Nora sentada ao meu lado com o rosto molhado de lágrimas que não eram dela para chorar, mas que ela chorava assim mesmo. Meu pai estava na porta, uma mão apoiada no batente, o rosto mais velho do que eu tinha visto em anos. E Maya — minha pequena Maya — estava encolhida num canto do quarto, os joelhos junto ao peito, olhando para mim como se não soubesse se era seguro se aproximar. Ninguém disse nada por um longo tempo. Não havia nada para dizer que pudesse consertar o que tinha acabado de acontecer diante de toda a alcateia. Eu fechei os olhos, sentindo o vazio onde antes existia algo que eu nem sabia nomear direito, e pensei, com uma clareza fria que me surpreendeu até a mim mesma: *Eu não vou ficar aqui para ver o resto disso.* Não sabia ainda para onde iria. Não sabia como sobreviveria fora de Vorden, longe de tudo que sempre conheci. Mas sabia, com uma certeza que crescia junto com a dor no peito, que a menina que tinha entrado naquela praça horas antes — a que amava Kael em segredo havia anos, a que sonhava com um nome sendo lido em voz alta — não existia mais. E o que quer que restasse de mim precisava desaparecer antes que o sol nascesse.






