Mundo ficciónIniciar sesiónA praça central de Vorden nunca parecia tão pequena quanto nas noites de cerimônia. Éramos dezenas, talvez centenas, apertados entre as casas de madeira escura, e ainda assim eu sentia como se todos os olhos coubessem exatamente em mim.
No centro, separadas do resto pela tradição, estávamos nós — as moças em idade de vínculo, dispostas em semicírculo diante dos dois tronos de pedra erguidos na base do salão comunal. Ao redor, a alcateia inteira, silenciosa como só consegue ser quando a expectativa pesa mais que qualquer palavra.
Kael estava sentado no trono maior, e ao lado dele, o irmão mais novo — Theo, o Beta, com aquele jeito de quem observa tudo com um sorriso guardado, como se soubesse de algo que os outros não sabiam. Os dois pareciam reis de um reino pequeno demais para tanto peso, as costas eretas, o queixo erguido, treinados desde crianças para aquele momento.
Eu tentei não olhar para Kael. Falhei, como sempre falhava.
Ele não estava olhando para mim.
Segui a linha do olhar dele e encontrei Lucy, parada bem à minha frente, um passo à esquerda, os cabelos dourados pegando a última luz do sol como se tivessem sido feitos exatamente para aquele instante. Ela sorria de canto, um sorriso pequeno, quase escondido, e por um segundo me perguntei se estava imaginando coisas — até perceber que os olhos dela também se moviam, rápidos, discretos, checando se alguém mais tinha notado a troca de olhares entre ela e o Alfa.
Alguém tinha notado. Eu.
Senti algo apertar no peito, um misto de vergonha e uma dor que eu não tinha nome pra dar ainda. Vergonha por continuar sentindo aquilo — anos inteiros amando um homem que nunca soube que eu existia daquele jeito — e uma dor nova, fresca, de ver com clareza pela primeira vez que talvez eu sempre tivesse sabido, no fundo, que o coração dele já pertencia a outra.
Nora estava ao meu lado, a mão fria buscando a minha por baixo do tecido do vestido, um gesto pequeno de apoio que ninguém mais percebeu. Ela também tinha visto.
— Respira — sussurrou, tão baixo que quase se perdeu no som dos tambores que agora cessavam, dando lugar ao silêncio pesado que antecedia a leitura.
O Ancião do vilarejo, um homem curvado pelos anos mas com voz que ainda cortava o ar sem esforço, ergueu o pergaminho selado com o símbolo da alcateia — a marca que só se rompia na noite certa, diante de todos, para que ninguém pudesse duvidar da escolha.
Olhei para Kael mais uma vez. Ele não olhava mais para Lucy. Olhava para o pergaminho nas mãos do Ancião com uma expressão que eu não sabia decifrar — algo entre resignação e uma esperança contida, como um homem que já fez as pazes com um resultado, mas ainda reza baixinho por outro.
Eu sabia o que ele esperava. Não precisava de vínculo nenhum pra ler aquilo no rosto dele. Ele esperava que o pergaminho errasse — ou acertasse, dependendo de que lado da história alguém quisesse contar. Esperava um nome que não fosse o meu.
O selo se rompeu com um som seco, quase cerimonial demais para algo tão pequeno.
O Ancião desdobrou o papel devagar, e por um segundo — só um segundo, mas que pareceu se esticar por toda a praça — ninguém respirou.
— Eliz — disse ele, a voz ecoando entre as casas silenciosas. — Filha de Aldric. A escolhida do Alfa Kael.
O mundo não parou, como eu sempre imaginei que pararia se aquele nome fosse o meu. Ao contrário: pareceu acelerar, todos os sons de repente altos demais — murmúrios se espalhando pela multidão, alguém atrás de mim soltando um suspiro que podia ser surpresa ou pena, Nora apertando minha mão com força suficiente para doer.
Eu devia estar feliz. Anos inteiros, aquele nome — meu nome — ao lado do dele era tudo que eu tinha permitido a mim mesma sonhar, em segredo, nunca em voz alta, nunca de um jeito que alguém pudesse notar e rir.
Mas olhei para Kael, e o que vi ali não foi alívio, nem a alegria contida que eu tinha imaginado tantas vezes em fantasias bobas de adolescente.
Foi choque.
Foi algo mais próximo de horror do que qualquer outra coisa — os olhos dele indo de mim para Lucy, e de Lucy de volta pra mim, como se buscasse desesperadamente algum erro no pergaminho, alguma brecha, algum jeito de desfazer o que acabara de ser dito diante de toda a alcateia.
Ao lado dele, Theo também não sorria mais. Trocou um olhar rápido com o irmão, um olhar que eu reconheceria depois, semanas mais tarde, como o primeiro sinal de tudo que ainda estava por vir.
Lucy, à minha frente, não se virou. Mas eu vi os ombros dela se enrijecerem, a postura ereta ficando ainda mais rígida, como se estivesse se obrigando a não reagir diante de tantos olhos.
Eu devia ter sentido vitória. Em vez disso, sentia meu estômago revirar, um frio subindo devagar pela espinha, porque em algum lugar, sob a euforia contida da multidão ao meu redor, eu já sabia — antes mesmo de qualquer palavra ser dita, antes de qualquer cerimônia de aceitação começar — que aquele não era o rosto de um homem prestes a aceitar o que o destino tinha escolhido para ele.
Era o rosto de um homem prestes a lutar contra isso com todas as forças que tivesse.







