A faxineira do bilionário
A faxineira do bilionário
Por: NatyO022
O último andar

O despertador tocou às cinco da manhã, como sempre.

Mariana abriu os olhos devagar, encarando por alguns segundos o teto simples do pequeno quarto antes de se levantar. O ar ainda estava frio naquela manhã no Rio de Janeiro, e a casa simples de alvenaria parecia guardar cada pedaço daquele frio.

Ela se sentou na beira da cama e respirou fundo. Mais um dia.

Do outro lado da parede fina, ouviu a tosse seca da mãe.

Mariana levantou imediatamente.

— Mãe? — chamou, abrindo a porta do pequeno quarto ao lado.

Dona Lúcia estava sentada na cama, apoiando uma das mãos no peito enquanto respirava com dificuldade.

— Já passou… — disse ela, tentando sorrir.

Mariana pegou o copo d’água na mesa e entregou para ela.

— Você precisa tomar o remédio no horário, mãe.

A mulher desviou o olhar.

— Você sabe que ele acabou ontem.

Mariana engoliu em seco.

Aquele remédio custava quase metade do seu salário. O médico já havia explicado que o SUS não fornecia aquela medicação específica, e sem ela as crises respiratórias da mãe só pioravam.

Ela não podia deixar aquilo acontecer.

— Eu vou dar um jeito — disse Mariana, tentando parecer confiante.

Dona Lúcia a olhou com preocupação.

— Você já trabalha demais, minha filha.

Mariana apenas sorriu.

— E trabalho feliz. Pelo menos tenho um emprego.

Ela sabia que aquilo era uma meia verdade. O salário era baixo, o cansaço era enorme, mas aquele emprego era a única coisa que mantinha a pequena casa de pé.

Depois de preparar um café simples e ajudar a mãe a tomar os outros medicamentos, Mariana saiu de casa pouco depois das seis.

A comunidade já estava acordando. O cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina misturava-se ao barulho de motos, conversas altas e rádios tocando funk em volume exagerado.

Ela caminhou até o ponto de ônibus, segurando firme a bolsa simples onde guardava seu uniforme.

Quase duas horas depois, Mariana finalmente chegou ao centro financeiro do Rio de Janeiro.

Arranha-céus de vidro refletiam o sol da manhã, e carros de luxo deslizavam pelas ruas como se pertencessem a outro mundo.

De certa forma, pertenciam mesmo.

Mariana entrou no prédio da Vasconcelos Capital, uma das maiores empresas de investimentos do país. Diziam que ela movimentava bilhões todos os anos.

Tudo ali parecia impecável.

O chão brilhava como espelho. O cheiro de café gourmet vinha da cafeteria do térreo. Executivos bem vestidos caminhavam apressados, falando em inglês ao telefone.

Mariana trocou de roupa no vestiário das funcionárias da limpeza e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo bem arrumado.

Ela vestiu o uniforme azul escuro com avental branco e respirou fundo.

Mais um dia.

— Mariana! — chamou Sandra, supervisora da equipe de limpeza.

— Oi, dona Sandra.

— Hoje você vai limpar o último andar.

Mariana arregalou levemente os olhos.

— O último?

— Isso. A equipe de lá faltou. Então você sobe.

O último andar.

Todos sabiam quem ficava lá.

O CEO.

Miguel Vasconcelos.

Diziam que ele tinha construído um império antes mesmo dos trinta anos. Investimentos internacionais, fundos bilionários, negócios em vários países.

Revistas de economia o chamavam de gênio do mercado financeiro.

Mas quem trabalhava ali também dizia outra coisa.

Ele era frio.

Rígido.

E extremamente exigente.

— Pode deixar — respondeu Mariana.

Ela pegou o carrinho de limpeza, o balde e o rodo, entrando no elevador de serviço.

Conforme o painel subia, seu coração também parecia acelerar.

40º andar.

As portas se abriram.

O silêncio daquele andar era quase intimidante.

O carpete era macio, as paredes decoradas com obras de arte modernas, e enormes janelas de vidro mostravam uma vista impressionante da cidade.

Mariana começou seu trabalho.

Passou pano nas superfícies, limpou as mesas da recepção executiva e organizou o ambiente com cuidado.

Quando terminou a área principal, pegou o balde com água e começou a limpar o corredor que levava às salas da diretoria.

Ela estava concentrada no trabalho quando ouviu passos firmes se aproximando.

Passos elegantes.

Caros.

Mariana ergueu o olhar.

E foi então que viu Miguel Vasconcelos pela primeira vez.

Ele era ainda mais impressionante pessoalmente do que nas fotos das revistas.

Alto, postura impecável, terno perfeitamente ajustado ao corpo atlético. O olhar era sério, penetrante, como se analisasse o mundo ao redor com precisão cirúrgica.

Ele vinha conversando com uma mulher deslumbrante ao lado.

Olívia.

Mariana reconheceu imediatamente. Era impossível não reconhecer a socialite famosa que vivia nas colunas de eventos da alta sociedade.

— O jantar com os investidores será amanhã — dizia Olívia.

Miguel respondeu com voz calma e firme.

— Já organizei tudo com a equipe.

Mariana se apressou para terminar de passar o pano antes que eles chegassem.

Mas naquele momento seu pé bateu sem querer no balde.

Tudo aconteceu em segundos.

O balde virou.

A água se espalhou pelo chão.

Diretamente nos sapatos caros de Miguel.

Mariana congelou.

O silêncio no corredor ficou pesado.

Ela sentiu o rosto queimar de vergonha.

— Meu Deus! — disse ela rapidamente, pegando o pano.

— Desculpa, senhor! Eu não vi o senhor chegando!

Olívia olhou para o chão molhado, depois para os sapatos de Miguel, como se aquilo fosse um crime imperdoável.

E então encarou Mariana com desprezo.

— Você está cega? — disse ela, fria.

Mariana abaixou a cabeça imediatamente.

— Foi um acidente, senhora…

Olívia soltou uma pequena risada amarga.

— Acidente? Você molhou um par de sapatos que custa mais do que seu salário inteiro.

Mariana sentiu o estômago apertar.

— Eu sinto muito…

Olívia cruzou os braços.

— Pessoas como você deveriam pelo menos saber fazer o trabalho direito.

Mariana sentiu os olhos arderem.

— Por favor… — disse, a voz tremendo — eu preciso muito desse emprego.

Ela não podia ser demitida.

Não agora.

Não com a mãe doente.

Olívia parecia prestes a continuar a humilhação.

Mas então Miguel falou.

Pela primeira vez.

— Chega.

A voz dele era baixa, mas firme.

Olívia virou-se para ele, surpresa.

— Miguel, ela acabou de—

— Foi um acidente.

Ele olhou rapidamente para os próprios sapatos molhados, como se aquilo fosse a coisa menos importante do mundo.

Depois voltou os olhos para Mariana.

Por um segundo.

E naquele segundo algo estranho aconteceu.

O olhar dele ficou preso nela.

Nos olhos castanhos grandes.

No rosto simples.

Na expressão sincera de desespero.

Algo que ele raramente via naquele prédio cheio de gente calculista.

— Não precisa se preocupar — disse ele.

Mariana piscou, surpresa.

— Senhor?

— Continue seu trabalho.

Olívia franziu a testa.

— Miguel, isso é ridículo. Essa garota—

Ele a interrompeu novamente.

— Não é nada.

O tom dele era definitivo.

Olívia ficou em silêncio, claramente irritada.

Miguel começou a caminhar novamente pelo corredor.

Mas antes de entrar em sua sala, ele olhou para trás uma última vez.

Mariana ainda estava ali, segurando o pano com as mãos trêmulas.

Ela parecia pequena naquele corredor enorme.

Mas havia algo nela.

Algo verdadeiro.

Algo que ele não via há muito tempo.

Miguel entrou em sua sala.

Do lado de fora, Mariana respirou fundo, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Ela voltou a limpar o chão rapidamente.

Mas enquanto esfregava o pano no carpete, um pensamento estranho passou por sua cabeça.

Aquele homem poderoso…

Não tinha olhado para ela como os outros olhavam.

Não com desprezo.

Mas como se, por um breve instante, ele realmente a tivesse visto.

E sem saber, naquele exato momento, no último andar daquele prédio gigantesco…

Uma história impossível começava a nascer.

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