Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2 — Ordem e Caos
A manhã chegou cedo demais. Sebastian não soube dizer exatamente se havia dormido ou apenas fechado os olhos por alguns minutos entre um choro e outro. O tempo parecia fragmentado, dividido em pequenos intervalos marcados pelo som do bebê. Nada naquele cenário seguia lógica. Nada obedecia a um padrão. E aquilo o incomodava mais do que ele estava disposto a admitir. Ele estava sentado na poltrona ao lado do berço, a camisa social ainda amassada do dia anterior, os primeiros botões abertos, as mangas dobradas de forma irregular. Uma imagem que contrastava completamente com o homem que sempre foi conhecido pela precisão — nos gestos, nas decisões, na aparência. O bebê voltou a se mexer. Pequenos sons, inquietos, precederam o choro que Sebastian já antecipava. Ele se inclinou levemente para frente, observando com atenção, como se pudesse prever o próximo movimento, como fazia em reuniões estratégicas, analisando cenários antes que se concretizassem. Mas ali não havia padrão. O choro veio. E com ele, a mesma sensação incômoda de falta de controle. Sebastian fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. — Certo… — murmurou, como se estivesse organizando um plano. Ele se levantou e pegou o bebê no colo com mais firmeza do que na noite anterior. Ainda havia rigidez, mas agora havia também tentativa de método. Ele havia pesquisado. Durante a madrugada, entre um intervalo e outro, pegou o celular e buscou respostas. “Como acalmar um recém-nascido”. “Rotina de sono”. “Intervalo de alimentação”. Informação. Estrutura. Controle. Era assim que ele funcionava. O bebê continuou chorando. Sebastian caminhou até a bancada ao lado do berço, onde havia deixado tudo organizado — mamadeira esterilizada, fórmula medida, água na temperatura exata. Cada item posicionado com precisão quase obsessiva. Ele preparou a mamadeira seguindo exatamente o que havia lido. Sem desvios. Sem improvisos. Levou o bico até a boca do bebê. Por um segundo, houve silêncio. Então o bebê virou o rosto. E chorou mais alto. Sebastian travou o maxilar. — Não — disse, firme, como se aquilo fosse uma negociação. — Isso não faz sentido. Ele ajustou a posição, tentou novamente. O resultado foi o mesmo. Rejeição. Choro. Descontrole. Uma sensação de frustração subiu rápida, quente, pressionando o peito de dentro para fora. Ele estava fazendo tudo certo. Seguindo cada passo. Cada orientação. Mas nada funcionava. Porque ali não havia lógica. A constatação veio como um golpe seco. Sebastian colocou a mamadeira de lado com cuidado contido, respirando fundo novamente, tentando impedir que a irritação assumisse o controle — ironicamente, a única coisa que ainda tentava controlar. Ele voltou a andar pelo quarto, agora com passos mais longos, mais tensos. — Você precisa parar — murmurou, baixo, mais para si do que para o bebê. Mas o choro continuava. Persistente. Implacável. O som começou a ecoar dentro da cabeça dele, quebrando qualquer tentativa de raciocínio linear. Não havia reunião que exigisse aquilo. Nenhuma decisão de negócios era tão… imprevisível. Sebastian parou abruptamente no meio do quarto. Fechou os olhos. Respirou fundo. E, pela primeira vez, considerou algo que não queria admitir. Ele não conseguiria fazer aquilo sozinho. A ideia não veio com facilidade. Veio com resistência. Orgulho. Mas também com uma dose inevitável de realidade. Ele abriu os olhos, o olhar mais frio agora, mais focado — não na tentativa de resolver o problema sozinho, mas em tomar uma decisão. Controle não significava fazer tudo. Significava garantir que tudo funcionasse. E, naquele momento, não estava funcionando. Sebastian desceu as escadas com o bebê ainda nos braços, já mais calmo, embora ainda inquieto. O silêncio da casa voltou a incomodá-lo, mas de uma forma diferente. Agora parecia… vazio demais. Ele entrou no escritório. O ambiente contrastava completamente com o caos da noite anterior. Tudo estava no lugar. Organizado. Intacto. Ali, ele ainda tinha controle. Sebastian colocou o bebê no carrinho ao lado da mesa e pegou o telefone. Discou sem hesitar. — Preciso de alguém — disse assim que a ligação foi atendida. — Hoje. Fez uma pausa, ouvindo a resposta do outro lado. — Não me interessa o processo padrão. Quero alguém qualificado, discreto e… eficiente. Seu olhar deslizou rapidamente até o bebê, que começava a se mexer novamente. — E rápido. Ele encerrou a ligação sem prolongar a conversa. Objetivo. Direto. Como sempre. Mas havia algo diferente agora. Uma urgência que ele não costumava demonstrar. Sebastian apoiou as mãos na mesa por um instante, inclinando levemente o corpo para frente. O peso da noite sem dormir começava a se manifestar, mas ele ignorou. Cansaço era irrelevante. Resultados eram o que importavam. Ele olhou novamente para o bebê. Pequeno. Dependente. Incontrolável. A mandíbula dele se contraiu levemente. — Isso vai funcionar — afirmou em voz baixa. Não era uma esperança. Era uma decisão. Horas depois, a casa já não parecia completamente vazia. Funcionários voltaram a circular discretamente, restaurando uma rotina mínima. O som de passos, portas abrindo e fechando, vozes baixas — tudo contribuía para reconstruir uma sensação de ordem. Sebastian estava na sala principal quando ouviu a campainha. Pontual. Ele olhou para o relógio. Exatamente no horário que havia sido informado. Isso já era um bom sinal. Caminhou até a entrada com passos firmes, o semblante novamente controlado, a postura impecável apesar do desgaste. Quando abriu a porta, seus olhos encontraram imediatamente a figura do outro lado. Cecília. Ela estava parada ali, com postura ereta, as mãos levemente entrelaçadas à frente do corpo. Vestia-se de forma simples, mas cuidadosamente alinhada. Nada chamativo. Nada fora do lugar. Mas não era isso que chamava atenção. Era a forma como ela sustentava o olhar. Direto. Firme. Sem submissão excessiva. Sem arrogância. Apenas… presença. Sebastian observou em silêncio por um segundo a mais do que o necessário. Analisando. Avaliando. Como fazia com tudo. — Cecília? — perguntou, embora já soubesse a resposta. — Sim. A voz dela era calma. Controlada. Aquilo o fez estreitar levemente os olhos. Interessante. Ele deu um passo para o lado, abrindo espaço. — Entre. Cecília entrou sem hesitar, mas também sem invadir o espaço. Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente, absorvendo detalhes, entendendo o lugar em que estava. Observadora. Outro ponto anotado. Sebastian fechou a porta atrás dela. — Vou ser direto — começou, sem rodeios. — Preciso de alguém que cuide do meu filho. Alguém competente. Discreto. E que entenda limites. Cecília assentiu levemente. — Entendo. — Rotina é essencial — continuou ele. — Horários, alimentação, sono. Tudo precisa seguir um padrão. Ela o observou por um instante antes de responder. — Bebês nem sempre seguem padrões. A frase foi dita com naturalidade. Sem confronto. Mas também sem concordância cega. E aquilo… aquilo chamou a atenção dele de forma imediata. Sebastian manteve o olhar fixo nela por alguns segundos. Silêncio. Avaliação. — Aqui seguem — respondeu, por fim, com firmeza. Cecília não desviou o olhar. — Podemos tentar — disse, no mesmo tom calmo. — Mas o mais importante é entender o que ele precisa. Outro silêncio. Mais curto dessa vez. Mas mais carregado. Sebastian sentiu algo que não era comum. Contradição. Ela não estava errada. Mas também não estava seguindo exatamente o que ele esperava. E isso… era um problema. Ou talvez não. Ele ainda não tinha decidido. Um choro ecoou pela casa. Ambos olharam na direção do som. Sebastian voltou o olhar para ela. — Esse é o trabalho. Cecília apenas assentiu. — Posso? Ela indicou levemente a direção do som. Sebastian hesitou por uma fração de segundo. Controle. Sempre controle. Mas então deu um passo para o lado. — Vá. Cecília seguiu pelo corredor com passos seguros, sem pressa, mas também sem hesitação. Sebastian ficou parado por um instante antes de segui-la. Observando. Sempre observando. Ela entrou no quarto do bebê e se aproximou do berço com naturalidade, como se aquele ambiente não fosse estranho. Como se o caos não a intimidasse. Pegou o bebê no colo com facilidade. E algo mudou. O choro não cessou imediatamente. Mas suavizou. O corpo do bebê relaxou de forma visível. Sebastian percebeu. E aquilo não passou despercebido. Cecília ajustou a posição, apoiando o bebê com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo. Seus movimentos não eram calculados. Eram intuitivos. E funcionavam. O silêncio começou a retornar ao quarto. Sebastian permaneceu na porta, imóvel. Observando a cena com atenção incomum. Algo dentro dele… cedeu. Pouco. Quase imperceptível. Mas suficiente. Ele não gostava de variáveis. Não gostava de imprevisibilidade. E, definitivamente, não gostava de pessoas que não seguiam exatamente suas diretrizes. Mas naquele momento… Ele não podia negar o resultado. Seu olhar permaneceu fixo nela. E pela primeira vez desde que ela entrou… Ele não estava avaliando apenas competência. Estava reconhecendo algo que não conseguia controlar. E isso… Era apenas o começo.






