POV: HAPHEL
Caronte permaneceu imóvel à minha frente, apenas observando.
Seu olhar nebuloso parecia seguir cada emoção que me atingia, como se estivesse avaliando minha resistência.
E eu sabia que a verdadeira viagem só estava começando.
— Te disse que a morte não espera. — Caronte falou com naturalidade sombria, como se aquilo fosse apenas mais um passo do seu trabalho.
Ele bateu a bengala no chão, firme, e as portas se abriram ao seu comando. O ar ficou pesado. Diante de nós, um carro capotado ocupava o centro da via.
O metal retorcido ainda vibrava com o impacto.
Ao lado do veículo, a alma de uma mulher observava o próprio corpo preso entre as ferragens. Uma criança, perto dela, chorava sem conseguir respirar direito, agarrada aos ombros de quem já não podia respondê-la.
— Mamãe, não me deixe… — repetia entre soluços, tremendo.
Eu senti a pressão no peito, um aperto incômodo que subia como uma onda que eu não queria admitir que estava lá.
"Cheiro de desespero vivo… doloroso... tris