Mundo de ficçãoIniciar sessãoGabriel
Um beliscão forte e doloroso no meu braço me fez dar um sobressalto, cortando o transe. Virei o rosto rapidamente e dei de cara com Solange me encarando com o rosto vermelho e os olhos faiscando de uma raiva desmedida.
Ela nem tentou disfarçar a fúria. A partir daquele exato momento, o evento que já era cansativo se tornou completamente insuportável, a atmosfera na nossa mesa azedou de vez.
O clima pesou ainda mais quando, mais tarde na recepção do salão, fomos finalmente apresentados a Cristal e a Luiz Alvarenga.
Assim que as apresentações começaram, Solange não fez o menor esforço para ser agradável. Com um sorriso falso e o tom carregado de veneno, ela foi extremamente indelicada com a convidada de Luiz, disparando indiretas mal disfarçadas.
Cristal, no entanto, deu um show de classe e maturidade. Sem se rebater com baixarias, ela se comportou com uma educação impecável, mantendo a postura altiva e o queixo erguido, como se os insultos velados de Solange fossem mero barulho de fundo.
Foi durante esse cumprimento formal que notei um detalhe crucial.
Quando a conversa se prolongou, Luiz Alvarenga estendeu o braço e enlaçou a cintura de Cristal, a puxando com uma possessividade sutil para mais perto do seu corpo.
Não deixei passar a reação dela, por uma fração de segundo, o corpo de Cristal ficou visivelmente rígido e tenso ao toque dele. Foi um gesto rápido, quase imperceptível para os desatentos, mas que não escapou do meu olhar atento.
Aquela reação corporal estéril me fez ter uma certeza imediata, eles definitivamente não eram amantes. Havia algum tipo de acordo ou aliança de negócios ali, mas nenhum afeto verdadeiro.
Mais tarde, quando subi ao palco para receber o prêmio de CEO do Ano e fazer meu curto discurso de agradecimento, mal consegui aproveitar o aplauso da plateia.
Meus olhos buscavam a reação da mesa e o meu pensamento voltava para a tensão daquele salão.
Assim que a cerimônia oficial acabou, saí do local arrastando uma Solange que parecia espumar de raiva a cada passo até o carro. O trajeto até em casa e as horas seguintes foram um verdadeiro inferno.
Brigamos a noite toda, ou melhor, ela gritou, acusou e despejou sua insegurança sobre mim, enquanto eu permaneci em silêncio na maior parte do tempo, engolindo a raiva e assumindo o meu erro de ter deixado meus olhos vagarem.
Depois daquela noite fatídica, meu relacionamento com Solange nunca mais foi o mesmo.
O ciúme doentio, as cobranças diárias e a desconfiança constante transformaram nossa convivência em um ambiente tóxico e insustentável, a distância entre nós só aumentava, até que a máscara de perfeição caiu de forma brutal.
Apenas seis meses após o jantar de gala, ao voltar para casa mais cedo, peguei Solange na cama com o próprio Luiz Alvarenga.
O impacto da traição foi devastador.
No mesmo dia, terminei o noivado. A resposta da família Gonsalves veio com uma velocidade fria e calculada, desfeito o compromisso com sua filha, meu sogro me demitiu da Gonsalves Imóveis sem qualquer hesitação ou gratidão pelos anos em que ergui a empresa dele.
Rejeitei o papel de vítima e decidi jogar alto.
Peguei todas as minhas economias, minhas rescisões e reservas e investi tudo na bolsa de valores, apostando na minha capacidade de fazer o dinheiro multiplicar rápido.
Então, o imprevisível aconteceu. A crise sanitária e econômica da pandemia atingiu o mercado global como um tsunami, derretendo ações em questão de dias. Eu perdi tudo.
Ou quase tudo. De todo o meu império de conquistas, sobraram apenas este apartamento e meu carro na garagem, bens que já pretendo colocar à venda o quanto antes para levantar o capital inicial e recomeçar do zero com um novo negócio.
Pressiono as pálpebras, me forçando e a jogar todas essas lembranças amargas de volta para o fundo da minha mente. Chega de remoer o passado.
Com o cenho franzido e a respiração pesada, meus olhos voltam a fixar o maldito jornal caído no canto do quarto.
Caminho em direção a ele com passos lentos, inclino meu corpo e pego as folhas amassadas do chão, desdobro o papel e releio a manchete sobre a minha ruína.
Aliso as páginas amassadas contra a coxa e me forço a ler a matéria do jornal de ponta a ponta, sem ignorar uma única linha. Conforme meus olhos percorrem a coluna de finanças, descubro que Cristal é uma das fortes concorrentes ao prêmio de Melhor Empresária do Ano.
A reportagem detalhava como ela fez uma jogada extremamente inteligente ao apostar tudo no e-commerce pouco antes da crise estourar. Enquanto grandes redes de varejo afundavam e demitiam milhares, a empresa dela foi uma das poucas que registrou lucros exponenciais durante o auge da pandemia.
Ela fizera exatamente o que eu tentara convencer meu ex-sogro a fazer. A visão de mercado dela era impecável.
— Mas ela não tem a menor chance de ganhar... — murmuro para o apartamento vazio, jogando o jornal de lado sobre a mesa.
Eu conhecia os bastidores imundos daquele prêmio.
A banca de jurados, composta em sua maioria por empresários velhos, conservadores e aliados de homens como Luiz Alvarenga e Arthur Gonsalves, jamais entregaria o troféu principal nas mãos de uma mulher forte e independente sem que houvesse uma pressão gigantesca por trás.
O sistema jogava contra ela, mesmo que os números da sua empresa fossem brilhantes.
Ainda assim, a simples lembrança da imagem de Cristal me faz soltar um suspiro involuntário. Um sorriso preguiçoso e cheio de segundas intenções começa a brincar no canto dos meus lábios.
Se havia alguém naquele mercado com a coragem necessária para ousar, essa pessoa era ela. E, de repente, uma ideia audaciosa começa a tomar forma na minha cabeça.
— Tantos meses se passaram e eu ainda não esqueci o nosso único encontro... — murmuro, balançando a cabeça devagar.
Solto uma risada alta e rouca, ecoando pelas paredes nuas da sala, ao me lembrar de quantas vezes, nas noites solitárias após o término, me masturbei pensando naquela mulher.
A lembrança das curvas de Cristal, do seu perfume e do olhar altivo que ela lançou sobre aquele salão ainda tinha o poder de aquecer meu sangue com uma facilidade desconcertante.
O barulho do meu celular vibrando no bolso traseiro da calça me puxa abruptamente de volta à realidade.
Puxo o aparelho, e um bufo de impaciência escapa pelos meus lábios ao ler o nome no visor. É mais uma mensagem de um antigo concorrente da Gonsalves Imóveis me sondando para uma reunião.
Desde que a notícia da minha demissão vazou no mercado, venho recebendo dezenas de propostas de trabalho. CEOs de grandes redes querem que eu assuma a gestão de suas operações e faça por eles o mesmo milagre que fiz pelo meu ex-sogro.
Mas eu nunca mais irei cometer esse mesmo erro.
A dor de ver anos de dedicação serem arrancados de mim da noite para o dia me ensinou uma lição definitiva. Eu sei exatamente o meu valor, sei do meu potencial, da minha inteligência estratégica, e sei que eles também sabem disso, por isso estão desesperados querendo me contratar por uma fração do que eu valho.
De agora em diante, vou usar cada gota do meu conhecimento, da minha experiência e do meu suor em benefício do meu próprio negócio.
Eu não serei mais o funcionário de luxo de ninguém.







