Mundo de ficçãoIniciar sessãoGabriel
Nos dois anos seguintes à minha entrada oficial na Gonsalves Imóveis, trabalhei com uma voracidade quase obsessiva.
O resultado não demorou a aparecer fiz a empresa prosperar a níveis exorbitantes, multiplicando a receita e expandindo a atuação da marca para mercados até então inexplorados. Meu nome passou a figurar em capas de revistas de negócios, meu sucesso na administração se tornou referência no meio corporativo e o ápice desse reconhecimento veio quando fui premiado como o CEO do Ano.
Eu estava no topo. Mas o topo, descobri da pior maneira, é um lugar extremamente solitário e instável.
O sucesso fulgurante no ramo imobiliário e varejista acabou atraindo dores de cabeça que eu não previ.
A boa convivência que mantinha com meu sogro, Arthur, foi se desvaindo aos poucos, dando lugar a uma tensão diária no escritório. As desavenças se tornaram frequentes e acaloradas à medida que nossas visões de negócios colidiam.
Eu tinha os olhos no futuro. Enxergava com clareza a transformação digital e insistia em investir pesadamente no e-commerce, criando uma plataforma moderna para captar uma nova geração de clientes.
Arthur, por outro lado, com sua mentalidade arcaica e conservadora, via essa estratégia como algo desnecessariamente arriscado. Para ele, mudar a fórmula tradicional era uma afronta ao seu orgulho.
Cada reunião de diretoria virava um campo de batalha, onde a gratidão dele por eu ter salvo sua empresa dava lugar ao ressentimento por ver meu nome brilhar mais do que o dele.
Para piorar a situação, a tempestade profissional começou a transbordar para a minha vida pessoal. Meu relacionamento com Solange também começou a balançar perigosamente.
O que no início parecia apenas um ciúme bobo e inofensivo da parte dela, aos poucos foi se transformando em uma paranoia sufocante.
Solange não suportava dividir minha atenção com o trabalho, e muito menos tolerava a presença de qualquer mulher que orbitasse o meu círculo social ou profissional.
Certo dia, a tensão acumulada atingiu um novo patamar quando Solange insistiu em me acompanhar a um jantar de negócios em um dos restaurantes mais exclusivos da cidade.
Aquilo era algo completamente atípico. Ela quase nunca participava dos meus compromissos profissionais, sempre alegara que achava aquele ambiente monótono, repleto de conversas chatas sobre números, prazos e planilhas.
Mas, daquela vez, ela fez questão absoluta de ir. E o motivo não era me apoiar. Seu interesse repentino tinha nomes bem definidos, Luiz Alvarenga e Cristal da Silva.
Luiz Alvarenga era uma figura lendária e temida no mercado financeiro. Conhecido como um "tubarão", sua especialidade consistia em caçar e comprar empresas em sérias dificuldades financeiras para, em seguida, desmembrá-las impiedosamente e vender cada ativo no lucro.
Com essa tática agressiva e sem escrúpulos, ele construíra uma fortuna incalculável, consolidando-se como um dos homens mais ricos e influentes do país.
Eu já conhecia Luiz de outros eventos corporativos e sabia exatamente o tipo de homem frio e calculista que ele era. No entanto, a pessoa que caminhava ao seu lado naquela noite era uma completa novidade para mim.
Eu nunca tinha visto sua acompanhante antes, mas bastou um único segundo para perceber que ela não se parecia com nada nem ninguém naquele salão.
Cristal era um nome recente no ramo do varejo, mas que já causava um barulho considerável nos bastidores. Sua empresa, construída com uma visão inovadora e moderna, vinha despertando o interesse de vários investidores pesados.
No entanto, apesar de todos reconhecerem o potencial gigante do negócio dela, nenhum daqueles homens havia tido a coragem de assinar um cheque de investimento.
O motivo? O simples e cruel fato de ela ser mulher.
É triste, injusto e profundamente machista, mas era a realidade nua e crua daquele meio. O mundo dos grandes investidores e magnatas do varejo era dominado por uma elite masculina, ultrapassada e preconceituosa.
As poucas mulheres que administravam algum negócio de peso naquele circuito geralmente haviam herdado o patrimônio de seus pais ou maridos.
Nenhuma delas havia vindo do nada, nenhum tinha começado do zero absoluto, no chão de fábrica ou nas ruas, escalando cada degrau até alcançar o topo unicamente com a força do próprio trabalho e o suor do seu rosto.
A não ser Cristal da Silva.
Ela era a única exceção à regra. E justamente por ser uma força da natureza que não dependia de homem nenhum para existir, ela causava um incômodo visceral naquele salão repleto de ternos caros e mentes estreitas.
Mas, para além da sua inteligência afiada e da sua inegável competência nos negócios, preciso confessar que não foi apenas a sua postura firme que capturou minha atenção no primeiro instante.
Foi a presença avassaladora que ela exalava. Cristal tinha um sorriso sedutor que parecia iluminar todo o ambiente, lábios carnosos e marcantes, e um corpo escultural moldado em uma elegância hipnotizante.
Não havia um único homem naquele restaurante, por mais poderoso ou arrogante que se julgasse, que não virasse a cabeça para ver aquela mulher, linda e extremamente sexy passar.
À medida que ela cruzava o salão, o tempo pareceu desacelerar.
Ela caminhou a passos firmes e seguros exatamente na direção da mesa onde eu estava. Por um segundo suspenso no ar, o barulho do restaurante diminuiu, os garçons pareceram sumir e foi como se existisse apenas nós dois naquele lugar.
Cristal não diminuiu o passo e nem parou na minha mesa, mas ao passar bem ao meu lado, seu perfume marcante e envolvente me pegou em cheio, dominando meus sentidos. Involuntariamente, tomado por um impulso que não consegui controlar, virei a cabeça para acompanhar sua caminhada com o olhar.
Eu só não me dei conta, naquele instante de fascínio puro, de que Solange estava sentada bem na minha frente, observando cada milímetro da minha reação. E o brilho de ódio que surgiu nos olhos da minha noiva dizia que aquela noite estava muito longe de terminar em paz.







