Mundo de ficçãoIniciar sessãoFIM DO DEPOIMENTO E O INÍCIO DO LUTO
Respiro fundo, como se estivesse emergindo de um afogamento profundo, tentando desesperadamente recuperar o ar que foi arrancado dos meus pulmões. — O oxigênio gelado entra queimando o meu peito, um lembrete amargo e contínuo da perda que me consome por dentro. Sinto meus olhos queimarem com um brilho cego — uma mistura de lágrimas reprimidas e o peso da realidade opressora que nenhum homem deveria ter que enfrentar. — As paredes daquela sala parecem se fechar sobre mim, me esmagando contra o chão, pressionando cada pedaço do meu luto e testando o último fio da minha sanidade. — Eu não tenho mais nada para dizer a vocês — declaro. A minha voz sai baixa, pausada, completamente devastada. — Cada palavra luta para escapar da minha garganta, como se tentasse se libertar de uma prisão construída pelas memórias de momentos felizes e pela dor de uma brutalidade sem fim. Olho nos olhos de cada um dos investigadores presentes. — Fui claro desde o primeiro segundo. Fiz tudo o que podia. Vocês sabiam de tudo, vocês têm todas as provas nas mãos. Agora, eu quero que vocês façam a parte de vocês: tragam de volta aquilo que foi arrancado de mim. —'É a única solicitação que me resta nesta existência dilacerada. — Tento ajeitar o meu paletó, mas o meu corpo tenso e as minhas mãos trêmulas denunciam o desespero crescente. Sou como um barco à deriva em um mar tempestuoso, lutando contra ondas implacáveis que ameaçam me afundar a qualquer instante. —' O tecido do paletó, que antes representava prosperidade e sucesso, agora pende sobre o meu corpo como uma capa pesada de culpa, luto e frustração. — A minha esposa está morta — continuo, a voz trincando. — Ela era a luz da minha vida… e a minha filha… a minha filhinha está desaparecida lá fora! —Não me peçam mais palavras para me enredar em uma dor insuportável. Peçam desculpas pela incompetência de vocês ou tragam a minha filha de volta! — São as únicas opções que me restam, e eu não vou desistir! — Os policiais, com semblantes pálidos e pesados, dão um passo para trás. Eles percebem que este dia fatídico exauriu qualquer pergunta possível. —Não há mais nada a extrair de mim; resta apenas a desesperança de um homem que já perdeu tudo. — Viro-me de costas e começo a caminhar pelo corredor gélido do IML. Cada passo adiciona um peso invisível sobre meus ombros, como se eu estivesse carregando o fardo impossível de toda essa tragédia. —O meu coração bateu em um ritmo irregular contra o peito, um tambor de luto marcando o tempo que me foi roubado. — Paro diante da porta metálica da sala de autópsia. Respiro fundo mais uma vez, enchendo os pulmões com aquele ar pesado e saturado de morte, antes de entrar e encarar novamente o corpo da minha esposa. — Sei que, ao cruzar essa porta, estou deixando para trás uma parte de mim que nunca mais poderá ser recuperada. O vidro da janela — um divisor cruel entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos — reflete a minha imagem. — Encaro um retrato destruído, cinzento, vazio; um eco apagado da vida que eu conhecia até três dias atrás. Cada linha de preocupação marcada no meu rosto conta a história de um amor avassalador que agora se transformou em ruínas. —Me vejo preso nesse limbo emocional onde a dor e a memória dançam um balé trágico e impiedoso. Aproximo-me da maca, minhas mãos avançam e seguram a borda de metal frio com fervor, como se a minha própria existência dependesse daquele toque. — Eu prometo… — sussurro, me inclinando sobre o corpo inerte de Lise. A voz sai rasgada, uma mistura de desespero e determinação absoluta, uma âncora que me prende à realidade. — Eu prometo que vou encontrar a nossa filha, Lise… mesmo que isso custe a minha própria vida. A ideia de falhar nessa busca é um pensamento que minha mente se recusa a processar. Carrego não apenas o peso da minha dor, mas o rastro de uma garotinha de três anos que desapareceu no mundo, deixando um vazio que nada nem ninguém poderá preencher. Ali, ao lado do corpo da minha esposa, dá-se início ao recomeço mais doloroso da minha vida. —'Uma jornada marcada pela determinação cega e pelo desespero, como uma flor que tenta desabrochar em solo árido em busca de uma réstia de luz. Caminhos tortuosos e sombrios se desdobram diante de mim, repletos de perigos e incertezas. —'Mas a promessa que fiz a Lise é a chama que vai me guiar na escuridão. Com cada obstáculo que eu tiver que arrancar do meu caminho, me tornarei mais frio, mais forte e mais decidido. — A dor será minha companheira constante, mas a busca por Rose é a única coisa que me mantém respirando.






