####CAPÍTULO 02

Desperto sobressaltado em minha própria cobertura, o silêncio que reinava até poucos segundos atrás foi estilhaçado, transformando o ambiente em um campo de batalha implacável.

Ainda tento processar o que está acontecendo. Olho de um lado para o outro, atônito, tentando encontrar um eixo de estabilidade. Lá estão as duas diante de mim, paradas no mesmo espaço: Ginevra, altiva e gélida, e Constanza, com o semblante desfigurado pela dor.

O meu peito aperta de uma forma dolorosa quando encontro os olhos de Constanza. Tenho certeza de que nunca vou conseguir esquecer aquele olhar. Não havia apenas decepção refletida naquelas íris marejadas; era a expressão desolada de quem acabara de perder toda a crença e a confiança no mundo.

Ela abre a boca para falar. Cada palavra que sai de seus lábios atinge o meu peito como um golpe físico, pesado e certeiro.

— Você mentiu para mim. Você me enganou. Nunca mais olhe para mim.

Quero dizer alguma coisa, tentar me defender, balbuciar qualquer justificativa ou pedido de desculpas, mas nenhuma palavra consegue romper a barreira da minha garganta. Fico completamente imóvel, paralisado pela força da minha própria covardia. E, diante do meu silêncio sepulcral, ela pega a bolsa com movimentos trêmulos e vai embora.

A porta se fecha com um baque seco. O barulho ecoa pela cobertura inteira, como o som de uma sentença sendo cumprida. Permaneço estático, olhando fixamente para a madeira fechada, em uma ilusão infantil de que ela vai abrir novamente e voltar para os meus braços. Mas ela não volta.

— Você realmente não aprende, não é, Amadeo? — a voz cortante de Ginevra me arranca brutalmente daquele torpor. — Sempre arranjando uma nova aventura pelos cantos.

Continuo sem responder, incapaz de digerir o estrago que acabo de causar.

Ela caminha lentamente pelo quarto, observando os detalhes ao redor com uma curiosidade fria. Então, seus passos cessam ao lado da cama. Seu semblante sofre uma transformação súbita, misturando desdém e uma ponta de surpresa genuína.

— Agora eu entendi... — murmura ela.

Franzo a testa, sentindo uma pontada de irritação e confusão.

— O quê, Ginevra? Do que você está falando?

Ela aponta discretamente para o tecido dos lençóis.

— Você nem percebeu, não é?

Olho para onde ela aponta, ainda sem entender absolutamente nada.

— Aquela garota era completamente inexperiente. Era virgem, Amadeo.

Baixo os olhos para a cama. Só então, com o impacto daquela revelação, noto os indícios que, na pressa da manhã e na confusão do flagra, haviam passado completamente despercebidos pela minha mente entorpecida. Meu estômago se revira em um nó de repulsa contra mim mesmo. Constanza... eu fui cego a esse ponto?

Ginevra suspira pesadamente, cruzando os braços com um descontentamento raro em sua postura sempre controlada.

— Pela primeira vez na vida, acho que consegui sentir pena de uma das suas namoradas eventuais.

Levanto o olhar, encarando-a com o cenho franzido. Ela continua, sem desviar os olhos dos meus:

— Ela me pediu desculpas, Amadeo. Desculpas, como se a culpa fosse inteiramente dela. Como se ela tivesse feito alguma coisa errada por ter confiado em um homem patético.

Ela passa a mão pelos cabelos, visivelmente incomodada com o próprio julgamento.

— Sinceramente... vi muito mais dignidade, classe e decência naquela menina do que em toda a sua postura de homem feito, Amadeo.

As palavras dela me atingem com força, incomodando-me muito mais do que deveriam.

— Quantos anos ela tem? — pergunta Ginevra, com uma curiosidade cortante.

— Vinte — respondo com a voz seca.

Ginevra fecha os olhos por um instante, absorvendo o número.

— Pois é... — diz ela, voltando a me encarar fixamente. — Você tem trinta e três anos nas costas. Ela era apenas uma moça simples, educada e cheia de princípios, algo que deu para perceber com clareza em poucos minutos de convivência.

Faço um gesto impaciente com a mão, querendo cortar aquele monólogo moralista.

— Não começa, Ginevra.

— Não estou começando nada — retruca ela, erguendo o queixo. — Estou apenas jogando a verdade na sua cara. Você brincou com o coração de alguém que realmente acreditou nas suas mentiras.

O silêncio denso e sufocante volta a dominar o espaço do quarto. Depois de alguns segundos de reflexão tensa, Ginevra muda completamente o rumo da conversa, trazendo à tona o fardo que arrastamos há anos.

— Seu pai não vai gostar nada disso quando souber.

Olho para ela, desconfiado.

— Do quê exatamente?

— De que você continua adiando o nosso casamento indefinidamente. Já são cinco anos de noivado, Amadeo. Seu pai quer um herdeiro casado, posicionado e pronto para assumir o comando de tudo ao lado dele.

Cruzo os braços, sentindo a raiva antiga ferver nas minhas veias.

— Eu nunca quis assumir esse lugar, Ginevra. Você sabe muito bem disso.

Ela sorri de canto, sem demonstrar o menor pingo de surpresa.

— Eu sei.

— Eu construí a minha empresa com o meu próprio esforço, de forma totalmente independente.

Nunca quis viver à sombra da máfia e dos negócios sujos da minha família. Eu nunca quis ser Don.

— Se o meu irmão caçula, Elia, aceitar esse destino maldito, ótimo para ele. Mas eu recuso esse fardo.

Ginevra permanece me observando por longos segundos, avaliando cada palavra minha com o seu olhar analítico. Depois, dá de ombros com um pequeno sorriso irônico nos lábios.

— Então é por isso que você nunca marcou a data oficial do nosso casamento, não é? Porque você foge de tudo o que representa essa vida.

Respiro fundo, buscando o pouco de paciência que me resta.

— Você sabe muito bem que nós nunca nos amamos, Ginevra.

— Sei perfeitamente.

— Você também tem a sua vida particular, os seus relacionamentos e as suas liberdades fora daqui, nunca interferi em nem um de seus casos.

Ela concorda com um leve aceno de cabeça.

— Nosso noivado nunca passou de um contrato frio e conveniente entre as nossas famílias. Nada além disso.

Dou alguns passos decididos pelo quarto, sentindo que finalmente chegou o momento de cortar o mal pela raiz.

— Então vamos acabar com esse acordo de uma vez por todas, chega!

Eu não vou me casar com você, Ginevra, está tudo terminado, essa farsa de noivado e casamento.

Ela permanece em silêncio por alguns instantes, digerindo a proposta.

Em seguida, apenas ergue as mãos em sinal de rendição e dá de ombros novamente.

— Por mim, tanto faz, Amadeo. Para falar a verdade, eu também nunca sonhei com esse casamento de fachada.

Ela se vira e começa a caminhar vagarosamente em direção à porta da suíte. Antes de cruzar o batente, ela para por um instante e olha para a direção da cozinha. Seus olhos repousam sobre a mesa posta com tanto esmero: as duas xícaras de cerâmica, as frutas frescas organizadas, as torradas douradas e o bule de café que ainda exala um aroma suave.

— Ela preparou tudo isso com tanto carinho para você... — a voz de Ginevra sai mais baixa, carregada de um peso inesperado. — Dá para perceber claramente que foi feito de coração.

Ela volta a me encarar uma última vez, com um brilho indecifrável no olhar.

— Sinceramente? Espero que um dia você perceba a imensidão do que acabou de perder por pura irresponsabilidade.

Sem esperar por nenhuma resposta da minha parte, Ginevra vira as costas e sai definitivamente da cobertura. A porta se fecha mais uma vez, selando o vazio ao meu redor.

Fico completamente sozinho no meio daquele quarto que agora parece gigantesco demais. Visto a primeira calça de moletom que encontro espalhada pelo chão e caminho a passos lentos até a cozinha.

A mesa continua impecável, exatamente como Constanza havia deixado antes de o pesadelo começar. Tudo está perfeitamente organizado, e a louça que ela usou para preparar o nosso café da manhã já está devidamente lavada e guardada, como se ela quisesse apagar qualquer vestígio de sua passagem por ali, como se nunca tivesse estado no meu mundo.

Passo os olhos por cada detalhe daquele cenário melancólico. Um aperto estranho, denso e desconhecido invade o meu peito de maneira avassaladora. Nunca tinha sentido nada parecido em toda a minha vida. Talvez seja culpa, talvez seja um arrependimento tardio, ou quem sabe apenas o eco persistente daquele olhar ferido de Constanza queimando na minha mente.

Respiro fundo, tentando colocar ordem nos meus pensamentos caóticos. Amanhã bem cedo ela estará no hotel. Vou pessoalmente até lá para procurá-la. Vou explicar com calma que o meu noivado com Ginevra finalmente chegou ao fim, que não existe mais nenhum compromisso me prendendo a outra pessoa, e que nós podemos continuar o nosso relacionamento de verdade, sem mentiras.

Naquele preciso momento, mergulhado em uma confiança cega e arrogante, eu ainda não fazia a menor ideia de que já era tarde demais para consertar o estrago.

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