Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV: Aurora
O relógio da cozinha marcava onze e quarenta e sete quando Aurora Valente entendeu que o silêncio do pai não era distração nem atraso. Rafael podia esquecer aniversários, promessas e até o nome de um homem a quem devia dinheiro, mas nunca deixava o café esfriar na xícara de porcelana azul. Naquela noite, a xícara permanecia cheia sobre a mesa, o telefone dele estava desligado e a porta do escritório tinha sido arrombada por dentro.
Aurora caminhou entre papéis espalhados e gavetas vazias, tentando conter a respiração. Havia uma mancha escura no tapete, mas era vinho, não sangue. O cofre atrás do quadro estava aberto. Dentro dele, restavam um passaporte vencido, uma fotografia de sua mãe e um envelope com o nome dela.
O bilhete tinha apenas duas linhas: “Não confie em ninguém que use o corvo. Se Ghost vier, diga que eu tentei impedir.”
Ela releu até ouvir os motores.
Não foi o ruído disperso de motos cruzando a avenida. Era um trovão organizado, grave e crescente, que fez os vidros vibrarem. Aurora guardou o bilhete no bolso da calça, pegou o pequeno revólver que Rafael mantinha sob a escrivaninha e voltou para a sala.
Cinco motocicletas pararam diante da casa. Os homens desmontaram sem pressa. Usavam coletes pretos com um crânio coroado por chamas e, acima dele, as palavras Renegados MC. O primeiro homem era grande, de barba escura e olhar atento. O segundo tinha o sorriso perigoso de quem apreciava confusão. O terceiro, porém, apagou todos os outros.
Dante Moretti entrou quando ela abriu a porta, como se já soubesse que seria recebido. Tinha cabelos quase negros, fios prateados nas têmporas, uma cicatriz curta junto à sobrancelha e o colete marcado com a faixa “Presidente”. Os olhos cinzentos pousaram no revólver em sua mão e depois subiram para o rosto dela.
— Se pretende atirar, senhorita Valente, tire o dedo do guarda-mato apenas quando decidir — disse Ghost. A voz era baixa e controlada. — Caso contrário, pode matar alguém por medo, e o medo é um péssimo atirador.
— Entrar na minha casa sem convite também parece uma decisão ruim — respondeu Aurora. — Dê meia-volta e leve seus homens.
O homem barbudo soltou uma respiração que poderia ser riso. Ghost não desviou os olhos.
— Meu nome é Dante Moretti. Alguns me chamam de Ghost. Este é Marco, meu vice-presidente, e o sujeito com pouca paciência atrás dele é Caio, nosso sargento de armas. Seu pai desapareceu com oito milhões e quatrocentos mil reais que pertencem ao meu clube. Portanto, a cortesia desta conversa depende da sua capacidade de me dizer onde ele está.
— Se eu soubesse, não estaria apontando uma arma para cinco desconhecidos à meia-noite.
A resposta de Ghost veio controlada:
— Poderia estar encenando. Rafael vivia de encenações.
Aurora ergueu o queixo.
— Meu pai emprestava dinheiro para homens que não conseguiam entrar em bancos. Isso não o tornava bom, mas também não transforma vocês em juízes.
— Não somos juízes. Juízes chegam depois do crime e fingem que a lei estava presente. Nós somos os homens que ficaram com quarenta famílias sem pagamento porque Rafael esvaziou o caixa de uma operação do clube.
A afirmação a atingiu de modo diferente. Aurora esperava ouvir sobre armas ou drogas, não salários.
— Que operação?
Marco respondeu, com a voz mais branda:
— Oficinas, transportadoras e segurança de carga. Negócios legais também têm folha de pagamento. O dinheiro sumiu três horas antes de seu pai abandonar o carro no aeroporto.
Ghost observou a surpresa dela como quem catalogava uma prova.
— O escritório está revirado? — perguntou Ghost.
— Isso não é da sua conta.
Ghost mediu as palavras antes de responder:
— A partir do momento em que alguém roubou o meu clube e deixou você aqui como a única ponta solta, passou a ser.
Ele avançou um passo. Aurora manteve a arma levantada, mas percebeu que Ghost não a temia. Não havia imprudência nele; havia cálculo. Ele notava o tremor mínimo no pulso dela, a posição dos móveis, a janela aberta atrás da cortina.
— Você não veio apenas cobrar — disse Aurora. — Acredita que alguém possa voltar para me procurar.
— Finalmente chegamos a uma pergunta útil.
Um estampido cortou a rua. O vidro da sala explodiu. Ghost atingiu Aurora antes que ela entendesse, envolvendo-a com o corpo e derrubando-a atrás do sofá. Marco e Caio sacaram armas. Mais dois disparos atingiram a parede.
— Fundos! — gritou Caio. — Carro escuro seguindo para o leste.
Ghost permaneceu sobre Aurora por um segundo, o antebraço apoiado ao lado da cabeça dela. O cheiro de couro, chuva e fumaça a envolveu. Não havia pânico em seu rosto, apenas uma fúria glacial.
— Ainda acha que somos o maior perigo nesta casa? — perguntou Ghost.
— Ainda não decidi.
O canto da boca dele se moveu, sem chegar a ser sorriso.
Ghost se levantou e ofereceu a mão. Aurora ignorou-a e ficou de pé sozinha.
— Você vem conosco — declarou Ghost. — Até eu descobrir quem atirou e onde está Rafael.
— Isso se chama sequestro.
Ghost mediu as palavras antes de responder:
— Chame de custódia hostil, se preferir precisão. Marco vai lacrar a casa. Você pode levar uma mala, seu telefone e qualquer remédio de que precise.
— E se eu recusar?
Ghost deixou a voz endurecer:
— Então Caio ficará na varanda discutindo maneiras criativas de convencê-la, enquanto o atirador dá a volta no quarteirão. Eu não recomendo nenhuma das duas experiências.
Aurora olhou a janela destruída, depois os homens. O bilhete pesava no bolso. “Se Ghost vier, diga que eu tentei impedir.” Rafael sabia que aquilo aconteceria e a deixara no centro da explosão.
— Eu vou — disse Aurora. — Mas não como prisioneira. Quero respostas, acesso ao que vocês têm contra meu pai e liberdade para falar com minha advogada.
Ghost aproximou-se o bastante para que só ela o ouvisse.
— Você pode negociar os detalhes quando estivermos vivos ao amanhecer. Por enquanto, Aurora, a única promessa que faço é que ninguém toca em você sem passar por mim.
Era uma proteção e uma ameaça na mesma frase. Ela odiou o arrepio que sentiu.
Quando saiu de casa entre os Renegados, Aurora viu um pequeno desenho pintado no poste diante do portão: um corvo preto de asas abertas. O símbolo do bilhete de Rafael.
Alguém estivera esperando por eles.







