Mundo ficciónIniciar sesiónNa noite seguinte, esperei pela minha mãe. A expectativa pulsava dentro de mim. Hoje iríamos ao parque — eu finalmente iria naquela roda‑gigante que piscava ao longe todas as noites.
Andei de um lado para o outro, olhando o relógio. O tempo passou. E ela não chegou. Meia‑noite. Nada. Relâmpago subiu no meu colo, se aninhando como se nada estivesse errado. Passei a mão em sua cabeça, ouvindo o ronronar suave. Eu queria ter a paz dele. Mas não tinha. Virei a noite acordada, atenta a qualquer som. Nada. O silêncio gritava. Quando o relógio marcou cinco da manhã, suspirei, exausta. Foi então que tive uma ideia. Corri até o telefone e procurei o número do escritório onde ela trabalhava. Parei. Ninguém atenderia àquela hora. Teria que esperar. Assim que a manhã chegou, fechei as cortinas com cuidado. A luz ainda se infiltrava, queimando levemente a minha pele. Vesti um moletom preto, máscara de esqui e óculos escuros. Era incômodo. Mas suportável. Disquei. Um toque. Dois. Três. — Escritório do Dr. Wagner — disse uma voz feminina. Meu coração disparou. — Olá… poderia me informar se a Srta. Wanda está? Silêncio. — Quem deseja saber? Hesitei. Filha, eu queria dizer. Mas ninguém sabia que eu existia. — A irmã dela — respondi, torcendo para soar convincente. Houve uma pausa. Então uma nova voz surgiu — masculina, firme. — Você é irmã da Wanda? — Sim… Ele suspirou. — Hoje ela não veio ao escritório. Como estava usando o uniforme do trabalho, ligaram para nós. — Fez uma pausa, e meu coração pareceu parar. — Sua irmã foi gravemente ferida, aparentemente durante um assalto, mas não levaram nada. Ela está no hospital no centro da cidade. O mundo parou. O telefone escorregou da minha mão. Minha mãe estava ferida? As lágrimas vieram sem controle. Esperei a noite cair. Eu precisava vê‑la. Tive que esperar, pois não podia sair de dia. Quando finalmente pude sair, usei um mapa para me guiar. Fui até o hospital e perguntei por ela. A atendente digitou por alguns segundos e depois suspirou. — Ela está na ala privada. Não pode receber visitas. Meu coração afundou. Queria ver minha mãe, queria saber se estava bem… — O namorado dela está ali — acrescentou, apontando. Segui o olhar. Um homem alto, moreno, bem‑vestido. Elegante. Bonito. Então era verdade. Ela tinha algum envolvimento com ele. Me aproximei dele, nervosa. — Olá… O senhor é o namorado da minha ma… irmã? — corrigi a tempo. Ele me olhou com seus olhos castanhos; vi preocupação neles. — Hum… Não exatamente. Quer dizer, por mim sim, mas por Wanda ainda não — sorriu triste. Nesse instante, percebi: minha mãe talvez tivesse sido feliz com outra pessoa… Se não tivesse conhecido meu pai… Se eu não tivesse nascido. — Entendo — falei, tentando esconder a melancolia que me invadiu. Ele me observou por um instante. — Não sabia que Wanda tinha uma irmã tão jovem. Esfreguei o pescoço, nervosa. — Ah sim… — Está bem? — perguntou ele, preocupado. — Seu rosto está pálido… e esses olhos, são lentes? Me assustei e olhei para o reflexo na porta de vidro ao lado. Meus olhos estavam ficando vermelhos. Então ouvi. Tum...Tum... O coração dele. O coração dele batia forte. Forte demais. Senti as gengivas doerem. Sem pensar, saí correndo. Ele agarrou meu braço. — Ei… Está bem, moça? Me desvencilhei assustada. — Estou… por favor, me solta… Preciso de ar. Recuei e cobri a cabeça com o capuz. Saí do hospital apressada, ofegante. As lágrimas não paravam. A dor me rasgava por dentro. E o pior: a fome já começava a me torturar. Quando cheguei em casa, desci direto para o porão. Minhas gengivas latejavam. A fome crescia. Cruel. Insuportável. Se eu deixasse… ela me consumiria. E se eu morresse…? A ideia me aterrorizou. Eu era fraca demais… Tinha medo de morrer. Relâmpago se esfregou nas minhas pernas. Faminto. Coloquei ração para ele e observei enquanto comia. Tão simples. Tão fácil. Engoli em seco. Eu não tinha essa opção. Eu precisava de sangue. Depois de um tempo, tentei me acalmar, repetindo que minha mãe ficaria bem. Olhei para o relógio: uma hora da manhã. Oficialmente tinha dezessete anos, mas não estava em clima de festividades — estava muito triste, preocupada, e a garganta doía de sede. Não suportando mais, resolvi ir atrás de alimento. Andei por longos minutos. Nada Quando cheguei perto da floresta, meu estômago se revirou. Nunca tinha entrado ali sozinha. Não sabia o que encontraria… nem se conseguiria voltar. Mas engoli em seco — não podia fugir, não tinha saída. Respirei fundo e tentei usar meus sentidos. Foi então que senti: uma presa. O coração dela batia forte, rápido, vivo. Meu corpo reagiu antes da mente. Corri e vi a corça. Ela fugiu. Eu tropeçava, desequilibrada, fraca — não sabia caçar, nunca tinha feito isso. Mas precisava. Quando finalmente me aproximei, saltei — e errei. Caí direto na lama. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. Fiquei ali: imunda, fraca, faminta e completamente sozinha.






