CAPÍTULO 3

Um ano depois…

Estava na floresta escura. Olhei para mim: vestia um vestido branco, molhado e tão transparente que deixava tudo visível. Olhei para o céu, e as gotas da chuva caíam no meu rosto. Meu corpo tremia de frio, meus cabelos estavam ensopados.

E um uivo ao longe fez meu corpo inteiro arrepiar.

Não conseguia correr; minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Estava indefesa, enquanto ouvia o barulho dos galhos se quebrando e o chão tremendo sob os passos de algo que se movia na escuridão.

Tentei me mover, mas não conseguia — estava presa no lugar. Minhas pernas tremiam de medo.

E quando aquela fera enorme apareceu: um lobo preto, de olhos dourados.

Avançou na minha direção.

Gritei.

— NÃO! NÃO! NÃO!

Me arrastei trêmula na cama, ofegante, voltando à realidade. Chorava novamente; esse sonho se tornava cada vez mais frequente e assustador. Já fazia um mês que vivia esse tormento. Antes até conseguia correr no sonho, mas ultimamente ficava imóvel, como se não tivesse nenhum controle sobre o próprio corpo.

Passei a mão no rosto, limpando as lágrimas. Meus cabelos estavam molhados de suor. Nunca vira aquela criatura na vida real. Ainda assim, ela aparecia todas as noites nos meus sonhos.

Suspirei.

Depois de um tempo, consegui controlar os batimentos cardíacos. O canto dos pássaros do lado de fora avisava que o dia já havia começado.

Fui até o banheiro, mas como sempre não havia água, e a luz há muito deixara de funcionar.

Não podia abrir as janelas, pois o sol acabaria comigo. Estava na escuridão total, já que as cortinas blackout não deixavam a luz do lado de fora entrar.

Usava apenas uma vela para iluminar o ambiente. Mas chegaria o momento em que não teria mais dinheiro para comprar outras.

— Preciso arrumar um emprego — falei, exasperada.

Relâmpago se esfregou na minha perna, pouco se importando que sua dona estivesse em maus lençóis. Saiu miando atrás de mim, exigindo cuidado; peguei então o último pacote de ração, comprado com o dinheiro que restara da caixinha da minha mãe.

Olhei para o segundo andar da casa — o lugar onde minha mãe escolheu viver depois que conheceu meu pai. Após a morte dela, ele nunca mais apareceu. Estava literalmente sozinha.

Uma lembrança de um ano atrás me atingiu de golpe: no dia seguinte ao da internação, liguei novamente ao escritório e recebi a notícia pela secretaria de que minha mãe não resistira. Naquele instante, perdi o chão por completo. A dor me consumiu inteira.

Já fazia dois dias que não comia… e fiquei mais dois em luto absoluto, encolhida na cama escura do porão, chorando. Rezei para que a morte me levasse, mas ela não veio. No lugar dela, veio uma sede tão intensa que parecia rasgar minha garganta por dentro.

Quando a noite caiu, me esforcei para me levantar e fui até uma área de sítios. Ao ver as vacas, a ideia mais insana surgiu — e eu a segui.

No começo foi horrível: o gosto era estranho, e eu precisei lutar contra o instinto de rejeitar aquilo. Mas tive que me acostumar. E assim, todas as noites ia até a fazenda para me alimentar. Sem água em casa, encontrei um córrego perto da zona de sítios para tomar banho; pensei em morar ali, mas não podia abandonar a casa onde cresci.

Olhei mais uma vez para o segundo andar e, finalmente, subi as escadas. Ao entrar no quarto da minha mãe, uma saudade dolorosa me atingiu. Peguei um de seus perfumes e cheirei profundamente. Queria tanto tê‑la de volta… mas ali estava eu, só com meu gato.

Desci de novo para a sala e fiquei desenhando um pouco sob a luz fraca da vela. Enchi a vasilha de Relâmpago com a garrafa de água, e ele bebeu satisfeito.

Quando a noite chegou, me preparei: peguei a mochila, a garrafinha e um pote. Dessa vez seria mais ousada. A ração de Relâmpago estava acabando; talvez o fazendeiro nem percebesse se eu pegasse um pouco da ração dos cachorros. No início eles latiam para mim, mas depois sempre vinham lamber minha mão e brincar.

Relâmpago miou irritado, como se adivinhasse que eu queria dar‑lhe comida “de segunda categoria”.

— Calma, parceiro… É só até eu arrumar um emprego noturno — falei baixinho.

Mas ao chegar à fazenda, fiquei sem palavras. As vacas haviam sumido. Tudo havia sumido. Entrei no terreno e olhei pelas janelas: nada. Ninguém. O velho fazendeiro e sua esposa — para onde teriam ido?

Fiquei totalmente sem rumo. Já tinha me acostumado a esse lugar.

— Que maravilha! — bufei, sentando‑me tristemente. Estava com fome, mas ainda podia suportar.

Testei as maçanetas e, por incrível que pareça, uma estava aberta. Entrei e vasculhei tudo: encontrei pacotes de ração canina e peguei, enchendo a vasilha que tinha levado. No banheiro, para minha surpresa, havia água corrente — tomei um banho demorado e caprichado, sem precisar recorrer ao córrego.

Depois, continuei procurando: achei alguns enfeites bonitos e os guardei — se deixaram para trás, é porque não precisavam mais. Mas o melhor achado foi um caderno de desenhos novinho, com folhas brancas e limpas. Parecia um presente do universo.

Mesmo sem conseguir o que planejava, voltei satisfeita com o que encontrei.

Já em casa, olhei para o relógio e suspirei. Já eram cinco horas da manhã. Hora de dormir.

Deitei‑me na cama, mas meus olhos se recusavam a fechar. E, quando finalmente fechavam, eu via aquele lobo. Como se estivesse escondido na escuridão, apenas esperando o momento certo para me atacar.

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