Mundo de ficçãoIniciar sessão
***Yara Yuri***
Estou parada na porta do apartamento completamente travada, não acredito ainda, que precisei sair da casa da minha avó pela minha segurança, aqueles médicos que não devem estar muito bem da cabeça, eu apenas estou triste, custa respeitar isso?
Olho para a Chisai que apenas me encara de volta com aqueles olhos pidões dela, não nego que ter ela como o meu animal de assistência emocional foi uma ótima indicação, mesmo que alguns médicos estivessem relutantes com a Chisai que já foi devolvida três vezes. Eu já a amava antes, imagina depois que recebi essa informação, estamos em observação, isso mesmo as duas tanto eu, como a Chisai, o que me faz rir toda vez.
— Pronta para nossa nova vida? — pergunto respirando fundo olhando para Chisai que não lati, apenas abana o seu corpinho minúsculo em resposta.
A Chisai é um pinscher zero da cor preta com as patinhas caramelo, ela não é filhote, mas também não é idosa, tem os seus dois anos já e foi infelizmente devolvida três vezes pelo seu comportamento com os seus donos ou pacientes como preferir chamar, ela apesar de ser um animal de assistência emocional, é bem esquentada e protege o seu dono até dele mesmo se for necessário.
Entro naquele apartamento vazio, apenas com os móveis planejados e eletrodomésticos na cozinha, o apartamento não é pequeno, mas também não é grande e de acordo com o meu médico ele fica mais próximo caso precise me socorrer.
— Idiota… Acredita Chisai, ele realmente acha que vou tentar algo contra a minha vida — a Chisai morde o meu pé em resposta me fazendo rir — Eu só estava quieta, não ia fazer isso, ainda mais agora que tenho você — aperto ela contra o meu corpo, mesmo sabendo que ela não gosta e escuto o seu resmungo me fazendo rir — Vem vamos conhecer o nosso novo lar.
Vou abrindo as janelas e logo o vento está passeando por todo o apartamento, viemos mais cedo que a mudança que deve chegar amanhã bem cedo, não trouxe muita coisa afinal os móveis já têm aqui, mas ainda, sim, não dava para trazer tudo de carro.
A noite passou rápido e logo cedo já estava recebendo as minhas coisas em meu novo lar, não reformei e nem pretendo, mas quero deixá-lo mais com a minha cara e com a decoração consigo fazer isso, assim que todos vão embora, saio também afinal preciso abastecer os armários.
Estou ainda utilizando a herança que a minha avó me deixou, mas agora com essa mudança de cidade, casa e até mesmo vida retomarei a faculdade, afinal falta apenas 6 meses para terminar, estou de olho em uma grande empresa com filial aqui em Londrina e é nela que quero trabalhar.
Com tudo em seu lugar e nós duas devidamente alimentadas, começo a minha lição de casa que é conhecer a empresa, os seus fornecedores, os costumes e os funcionários. Já na faculdade foi mais tranquilo retornar, afinal ainda mais com a carta de recomendação dos médicos que estão me controlando de perto.
Hoje tenho consulta com um dos psicólogos, nunca vou animada e hoje não seria diferente, mas por incrível que parece até mesmo a Chisai não está animada para sair de casa, mas se tenho que ir ela vai junto.
— Yara Yuri — escuto a secretária me chamar e respirando fundo vou até ela sorrindo fraco para tentar ser mais simpática possível.
— Boa tarde, Yara, como está hoje? — o médico já começa a me perguntar assim que a sua secretária fecha a porta.
— Está apressado hoje, tem compromisso? — não ouso olhar nos seus olhos, mas sei que ele está me repreendendo.
— Achei que já tínhamos passado dessa sua fase ácida.
— Ela só retorna quando sou obrigada a falar, sentir e agir como os outros esperam.
— Yara — ele respira fundo para manter a calma e olha que este é o mais calmo — Você precisa entender que passou muita coisa e a maioria é traumática, no entanto, você não expressou nenhum sentimento com esse último acontecimento.
— A morte da minha avó? Você pode falar não é um assunto que evito.
— Mas evita sentir.
— Engano seu, doutor, eu senti, mas não vou ficar chorando pelos cantos, quando consegui demonstrar todo o meu amor e carinho por ela enquanto estava viva.
— A sua palavra final?
— Sim, a mesma que venho repetindo há três meses, vocês estão procurando ações que não tem, não vou cometer nenhuma loucura contra a minha vida ou até mesmo contra outras pessoas, não seria nada honroso com ela.
— Yara…
— Não, doutor, você queria que eu falasse, estou falando agora, vocês me pediram para me mudar para Londrina, eu me mudei, me pediram para ter um animal de assistência, eu arrumei, inclusive em um local da sua escolha.
— Yara, você escolheu um pinscher que por natureza já é mais enérgico e ainda por cima, você quis a Chisai — nessa hora ela sai de dentro da bolsa e começa a rosnar para o médico que a olha espantado — Ela não latiu ou avançou…
— Está vendo, o problema nunca foi ela, assim como eu também não sou um problema.
— Nunca disse isso.
— Você pode não ter dito, mas os demais sempre fazem questão de deixar isso claro.
— Isso lhe incomoda?
— Me incomoda você usar a minha fala contra mim — ele acaba rindo baixo enquanto nega com a cabeça.
— Como está a sua nova casa?
— Arrumada e habitável, se quiser conferir…
— Não preciso disso, confio em você — era a primeira vez que ele falava isso olhando em meus olhos, não nego que isso realmente mexeu comigo.
— Retornei com a faculdade, esse será o último semestre.
— Já tem algum emprego em vista? — nego com a cabeça.
— Apenas uma empresa, uma possibilidade, na verdade — ele me olha curioso e acabo sorrindo com isso, afinal ativei o seu lado fofoqueiro — Schutz Tecnologia.
— É uma ótima empresa, tem filial aqui em Londrina.
— Está escondendo algo.
— Está me analisando agora? — dou de ombros o fazendo rir — Mas está certa, sei que irá abrir uma vaga de assistente e se me permitir gostaria de te indicar para o cargo.
— Está realmente falando sério? — a minha empolgação o faz sorrir e Chisai se pôr em pé olhando ao redor.
— Sim, mas existe a possibilidade de se mudar novamente…
— Não tem problema, eu vou adorar que me indique.
— Então assim será feito.
Saio do consultório quase cantarolando de tanta alegria e ansiedade, mais do que nunca agora quero finalizar logo essa faculdade para não ter nenhum atraso ou barreira para a vaga.
A minha alegria é tanta que nem ligo para os olhares de todos tanto no consultório como quando chego no condomínio. Mas a minha alegria pelo jeito chamou a atenção do porteiro, ele sempre me olha sorrindo e aparenta ser um senhor muito gentil.
— A minha menina hoje está feliz.
— Estou, sim, pelo jeito as coisas vão mudar para melhor finalmente.
— Se a mudança é para melhor merece uma comemoração, se não se importar menina Yara posso pedir para a minha esposa preparar um bolo.
— Imagina, não precisa eu não quero incomodar.
— Não vai, eu posso lhe garantir, assim que estiver pronto interfono no seu apartamento.
Apenas sorri em resposta, não queria incomodar, mas ele também tem razão, as coisas boas devem ser comemoradas e... querendo ou não, agora preciso voltar a socializar, posso muito bem ir me acostumando com eles.
Não demorou mais que uma hora e o meu interfone já estava tocando, ainda bem que não me neguei, a Rosa é uma senhora muito fofa e carinhosa, sem esquecer do divertida.
Conversamos sobre tudo e todos até mesmo sobre as novas fofocas do condomínio, mesmo que eu não conheça ninguém, isso nos rendeu muitas risadas. Quando subi para o meu apartamento já estava bem tarde.
Tenho certeza que essa nova amizade e até mesmo esse encontro vai chegar aos ouvidos dos médicos, o que para mim é melhor, não, na verdade, não faz muita diferença. Chisai já estava dormindo quando entrei, mas mesmo assim veio me acompanhar até que eu deitasse na cama.
— Amanhã vamos ter muito o que fazer, Chisai, não quero deixar nada para a última hora.
A minha mente ainda fervia com a possibilidade de ser indicada, isso facilitaria muito a minha vida e claro a minha contratação, mas isso não quer dizer que não vou deixar de mostrar que posso ser muito capacitada.
Não sei ao certo em qual pensamento eu adormeci, mas sei que a noite foi tranquila tanto que passou mais rápido do que eu esperava, porém, no outro dia, quando acordei, estava animada e disposta para colocar tudo em ordem, mesmo que o barulho do apartamento da frente fosse alto.
Já chegando na portaria para a Chisai fazer as suas necessidades, sou informada que vou ter um novo vizinho de porta, por isso a reforma. Só espero que seja uma pessoa decente e que não me cause problemas.







