De repente, a voz azeda da minha madrasta quebrou o silêncio.
— Esse arroz está horrível. O que você fez?
No mesmo segundo, todos os olhos da mesa se voltaram para a minha cara. Eu experimentei um pouco, sentindo o nó na minha garganta.
— Acho que deixei cozinhar demais... — murmurei.
Tamasi sorriu de raiva, um sorriso falso que não chegava aos olhos, e me encarou diretamente com um ódio mortal. Eu sabia o motivo de tanto ranço: ela me olhava e via o reflexo da minha mãe.
Antes que Tamasi começasse a me esculachar, o som do lado de fora nos interrompeu. Era a Asha. Ela estava ali e queria falar comigo desesperadamente. Ao ouvir a movimentação, meu pai, Patel, gritou com a voz grossa:
— Estamos almoçando! Não importune!
Tamasi voltou a sua atenção para mim, batendo com força na mesa.
— Você não sabe fazer uma comida direito!
Ela jogou a colher com tudo na mesa, estraçalhando o clima por cima dos pratos, e abriu um sorriso vitorioso e cruel.
— Mas eu tenho uma boa notícia para você... Arrumei um casamento para você.
— Casamento? — questionei, sentindo minha voz falhar.
Tamasi levantou o olhar para mim e abriu um sorriso vitorioso.
— Sim. Com o senhor Girish Chandra.
No mesmo instante, o silêncio caiu sobre a mesa. Todos ali já sabiam. A Asha veio até aqui para me avisar isso. Kiara olhou para mim com tristeza.
Girish Chandra... Ele tinha 65 anos. Era um dos homens mais respeitados da cidade, mas também era o ser humano mais arrogante e violento que eu já conheci, alguém que nadava em uma fortuna que parecia comprar tudo — menos a decência.
Eu fiquei paralisada na cadeira, sentindo o sangue fugir do meu rosto. O mundo parecia girar enquanto o horror daquelas palavras se instalava em cada parte do meu corpo.
Ravan, meu meio-irmão, quebrou o meu transe com um comentário que me fez sentir náuseas.
— Ele já deu a metade do valor — ele disse, com uma naturalidade cruel. — Ele procura uma moça bonita e virgem, e essa é você, Alya.
He terminou a frase me lançando um sorriso seco e maldoso, como se eu fosse apenas uma mercadoria sendo entregue.
Tamasi sorriu.
— Eu não podia casar você com um fracassado, né?
Todos riram na sala, menos a Kiara.
— Ele é um homem rico, vai te dar uma boa vida. O dote é um valor bom.
Ela bebeu um pouco de suco, com uma tranquilidade assustadora, agindo como se estivesse apenas negociando uma mercadoria qualquer.
Sentindo o estômago revirar, eu me levantei da mesa de supetão.
— Eu não quero me casar com ele!
No mesmo segundo, o clima azedou. Meu pai e meu irmão se levantaram da mesa num pulo. Ravan deu um passo à minha frente, com o corpo tenso e uma postura totalmente violenta.
— E quem é você para recusar, hein?
Eu olhei para todos naquela sala. Olhei para cada rosto congelado em escárnio e indiferença. Senti um medo profundo e paralisante tomar conta de mim, porque percebi, da forma mais dolorosa possível, que eu não tinha ninguém ali para me defender. Sem dizer mais nada, virei as costas e fui direto para o meu quarto.
Passei o dia todo trancada no meu quarto. O tempo parecia arrastar as horas com as piores lembranças e medos, até que a noite finalmente caiu. De repente, batidas leves ecoaram na porta.
— Alya, sou eu. Abre aqui.
Reconheci a voz da Asha. Corri em direção a ela, destranquei a fechadura e a puxei para dentro, desabando em um abraço apertado.
— Eu sinto muito... — Asha sussurrou, me abraçando com força. Ela se afastou um pouco e me olhou bem nos olhos. — Vamos à cidade de Pune.
Eu balancei a cabeça negando. O medo e o desânimo pesavam tanto que eu nem sequer queria sair daquele quarto.
— Eles deixaram eu vir ver você — Asha insistentemente tentou me dar forças. — A sua irmã está lá fora esperando. Vamos à cidade de Pune, conversar um pouco... Eu quero te mostrar umas coisas lá. Se troque rápido!
Antes que eu pudesse protestar de novo, ela saiu do quarto, me deixando sozinha com os meus próprios pensamentos.
Resignada, tomei um banho e me vesti. No fundo, eu não estava tão preocupada com alguma bronca, porque afinal eles tinham autorizado a minha saída. Quando desci, as duas estavam lá embaixo me esperando.
Quando cheguei com o rosto triste, Asha abriu um sorriso acolhedor e pegou no meu braço, me puxando de leve.
— Não vou deixar você ficar lá naquela solidão.
Kiara deu um sorriso doce para mim, e finalmente saímos daquela casa. Pegamos uma condução local e viajamos por cerca de 45 minutos até Pune
Pune era uma cidade central, totalmente diferente de Talegaon Dabhade. Enquanto a nossa vila era silenciosa e coberta de poeira, Pune pulsava com letreiros luminosos, ruas movimentadas cheias de carros e jovens, o aroma de comida de rua misturado ao café moderno, e grandes prédios espelhados que pareciam tocar o céu. Era como entrar em outro mundo.
Kiara e Asha eram acostumadas a sair juntas à noite, enquanto eu ficava em casa trabalhando duro. Eu olhava para os letreiros luminosos, maravilhada. Aquela era a minha primeira vez em Pune durante a noite. Geralmente, eu só ia até lá bem cedo, acompanhando a minha madrasta para comprar biscoitos amanteigados originais, porque em Talegaon não tinha. Ver a cidade acesa daquele jeito era uma realidade totalmente nova para mim.
De repente, a gente parou em frente a uma casa gigante, toda luminosa. Kiara entrou primeiro, sem hesitar.
Eu olhei para a Asha, sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Que lugar era aquele? Asha apenas sorriu, pegou a minha mão com firmeza e entramos juntas.
A pergunta que não queria calar: que lugar luxuoso e luminoso é esse?
Eu pisquei várias vezes, achando que o meu cérebro estava me pregando uma peça por causa do cansaço. Mas não era um delírio. Aquilo era uma casa noturna, e o lugar estava lotado de homens, com mulheres servindo bebidas. Olhei para o rosto delas, sentindo minhas bochechas queimarem de vergonha.