Mundo de ficçãoIniciar sessãoO humano que me salvou naquela noite maldita cuidou dos meus ferimentos, me deu abrigo, comida e roupas limpas. Achei que ele poderia tentar se aproveitar de alguma forma, mas ele sempre manteve a distância e foi gentil. Ele não fez perguntas, nem mesmo quando tirou as pesadas correntes dos meus pulsos.
“Você pode ficar aqui o tempo que achar necessário.” Ele passou a mão no pescoço, seu cheiro mudando levemente, como se ele estivesse se sentindo desconfortável. “O meu nome é Mateo, Mateo Keller.” não respondi, fiquei em um canto do quarto, observando aquele humano estranho indo e voltando.
Na primeira noite, um grupo de lobos apareceu, rondando o prédio, mas logo foram embora. Nas noites que se seguiram, grupos cada vez menores apareceram, até que eles finalmente perderam o interesse e pararam de aparecer.
Uma noite de lua cheia, Shade ficou especialmente agitada, desejando sair pela floresta, ser livre novamente.
“Quer ser capturada? Faz ideia do que eles farão conosco? Por enquanto, vamos ficar aqui.” olhei pela fresta da porta, vendo o humano Mateo rindo e interagindo com outros humanos que tomavam bebidas com cheiros fortes. “Acho que podemos confiar nele, pelo menos, até certo ponto.”
Como todas as noites, Mateo apareceu após fechar o bar com um prato de comida e uma garrafa de água.
“Como está se sentindo hoje? Seus ferimentos ainda doem?” olhei para ele, nervoso e agitado. Não havia hostilidade em seus olhos e nem perigo em seu cheiro. “Uma amiga ficou de trazer algumas roupas dela, vocês têm a mesma altura, talvez você possa…”
“Lyra.” disse o interrompendo. “Meu nome é Lyra.” Mateo abriu um grande sorriso, seu rosto ficando corado no mesmo instante. “Será que essa amiga poderia arrumar algo para mudar a cor do meu cabelo?” Mateo me olhou confuso, seus olhos percorrendo meu longo cabelo prateado.
“Eu posso pedir que ela traga tintura. Tem alguma cor que você queira?” fiquei surpresa por ele aceitar meu pedido sem fazer perguntas, mas aquilo me fez confiar ainda mais em Mateo.
A partir daquele dia, eu adotei a vida humana, pintei meus cabelos de preto e passei a trabalhar no bar ajudando Mateo, como uma forma de agradecer por tudo o que ele estava fazendo por mim. Shade se calou, como se estivesse dormindo dentro de mim. Mesmo que eu a chamasse, não obtinha nenhuma resposta.
E assim, dois anos se passaram.
Dois anos de paz.
Dois anos sem sentir o cheiro de outro lobo, até aquela noite.
Ele era alto, com cabelos castanhos, seu corpo forte coberto por uma jaqueta de couro gasta, jeans desbotados e botas pesadas. Sua presença era sufocante, tornando difícil respirar naquele ambiente fechado. Por instinto, dei um passo para trás e segurei no balcão, meus joelhos vacilando quando o homem passou na minha frente.
Seus olhos eram de um azul-escuro e intenso, como o céu noturno. Quando ele me olhou, senti como se ele estivesse vendo dentro da minha alma e, pela primeira vez desde que havia chegado ao mundo humano, Shade se agitou dentro de mim.
Baixei meus olhos, sentindo aquele poder esmagador passar por mim, se dirigindo para uma das mesas mais afastadas da entrada.
“Lyra?” a mão de Mateo no meu ombro me assustou. Ele ergueu as mãos, me olhando com espanto. “Você está pálida. Está tudo bem?”
Engoli em seco, passando a mão pela testa e sentindo a umidade na minha pele. Acenei com a cabeça, tentando parecer tranquila. “Sim. Estou bem. Deve ser o clima mudando, nada de mais. Vou pegar os pedidos das mesas.”
Meu coração batia forte contra o meu peito, o cheiro da floresta parecia me envolver a cada segundo que se passava. Terra úmida, folhas secas, grama sob o sol. Cheiros que eu conhecia bem e que me faziam falta todos os dias nos últimos dois anos.
Sem poder evitar por mais tempo, me aproximei da mesa de onde o homem me observava com atenção. Tentei agir com naturalidade, sorrindo e fingindo não saber o que ele realmente era.
“Seja bem-vindo. O que vai beber?” puxei a caneta, mas por conta da minha mão estar tremendo, ela escorregou, caindo próximo ao pé do homem. Casualmente ele se inclinou e a pegou.
“O que você me recomenda, estrela?” sua voz era profunda, como um trovão explodindo no céu. Franzi as sobrancelhas, esquecendo completamente os alertas que brilhavam bem diante dos meus olhos com relação àquele homem.
Ele estendeu a caneta e eu a puxei de maneira brusca, soltando um leve rosnado em sua direção e sentindo Shace se encolher no meu peito.
“Agradeceria se não me desse apelidos inúteis, senhor.” ele sorriu, se inclinando na cadeira e cruzando os braços sobre o peito.
“Então como eu devo chamá-la, loba?” arregalei meus olhos, observando ao redor, com medo de que alguém o tivesse escutado.
“Não me chame de nada, porque você não vai mais voltar aqui.” ele sorriu, revelando covinhas em suas bochechas. Seus olhos brilharam, como se estrelas surgissem por trás de nuvens espeças.
“Infelizmente não poderei fazer isso, pois pretendo ficar por aqui por bastante tempo e esse é o único bar decente dessa cidade decadente.” Ele se levantou, deixando sua altura ainda mais evidente ao se inclinar sobre a mesa. A mão apoiada na madeira gasta, colocando seu rosto a centímetros do meu. “É melhor ir se acostumando com a minha presença. Lyra Cynthion, pois tenho um interesse especial em você.”
Meu corpo travou, a mão trêmula segurando a caneta com força enquanto o homem passava por mim, indo para a saída. O som da porta batendo deveria ser um alívio, mas só me causou aflição e medo. Shade uivava, desesperada. Como se quisesse ir atrás daquele homem.
“Algum problema, Lyra?” Mateo se aproximava, mas eu passei por ele correndo e indo para a porta da frente.
O vento frio cortava a minha pele, minha respiração se condensando na frente do meu rosto enquanto eu olhava para os lados, buscando algum sinal daquele homem até que o vi, virando a esquina. Corri tentando me conter para não chamar atenção e, quando virei a esquina, bati com força em algo duro. O cheiro da floresta me envolveu novamente, aquele homem estava diante de mim, seu braço ao redor da minha cintura, me segurando para que eu não caísse no chão.
“Estou surpreso. Não achei que você correria para os meus braços tão facilmente.” ele riu. Eu o empurrei, dando vários passos para trás e me colocando em posição de alerta.
“O que você quer? Diga de uma vez!” exigi, minha respiração acelerada, a pressão de estar diante daquele homem pesando em meu corpo. “Quem é você, lobo?”
Ele sorriu, suas longas presas se destacando. “Eu sou Dean Valerius, seu futuro alfa.”







