O corredor do prédio do Grupo Moretti parecia mais longo naquele dia.
Aurora mantinha o queixo erguido, a postura impecável e os passos calculados. Aprendeu cedo que, em ambientes dominados por sobrenomes poderosos, a segurança é uma armadura.
Mas armaduras pesam.
E a dela estava começando a rachar.
Desde o reencontro com Lorenzo, algo havia mudado. Não apenas na dinâmica profissional. Mudou nela.
Ela estava alerta demais. Tensa demais. Atenta a cada detalhe.
Principalmente quando se tratava de Helena.
— Senhora Aurora? — a assistente chamou discretamente. — O senhor Moretti pediu que a senhora aguardasse na sala de reuniões.
Ela assentiu.
Claro que pediu.
Lorenzo nunca fazia nada por acaso.
Entrou na sala envidraçada e sentou-se. Colocou a pasta sobre a mesa, alinhou os papéis, respirou fundo.
Controle.
Era só disso que ela precisava.
Controle.
A porta se abriu alguns minutos depois.
Ele entrou.
Sem pressa.
Sem anúncio.
Sem precisar.
Lorenzo Moretti ocupava qualquer espaço apenas existindo.
O terno escuro realçava a imponência. O olhar, antes jovem e apaixonado, agora era o de um homem que aprendeu a esconder tudo atrás de decisões estratégicas.
Ele fechou a porta.
O clique ecoou.
— Precisamos conversar — ele disse.
De novo essas palavras.
Aurora manteve a expressão neutra.
— Sobre o contrato?
Ele a encarou por alguns segundos.
Longos.
— Sobre você.
O coração dela deu um golpe seco contra as costelas.
Mas o rosto não demonstrou nada.
— Não vejo como minha vida pessoal interfere nos termos da parceria.
Ele caminhou até a ponta da mesa.
Não sentou.
Ficou de pé.
Dominante.
— Aquela menina.
A respiração dela falhou por meio segundo.
Só meio.
Mas Lorenzo percebeu.
Ele sempre percebeu.
— Que menina? — perguntou, cuidadosamente.
— A que estava com você ontem.
Aurora cruzou as pernas devagar.
— Minha filha.
O silêncio que se instalou foi diferente.
Denso.
Carregado.
Ele piscou.
Uma vez.
Como se reorganizasse algo dentro da mente.
— Você nunca mencionou.
— Não achei necessário.
A mandíbula dele se contraiu.
— Eu acho.
A tensão se espalhou como eletricidade.
Aurora sentiu o instinto materno se erguer dentro dela como um escudo invisível.
Ele estava chegando perto demais.
— Minha vida pessoal não é assunto corporativo, senhor Moretti.
Ele ignorou o formalismo.
— Quantos anos ela tem?
Ela hesitou.
Erro mínimo.
Mas ele percebeu.
— Três.
A resposta saiu firme.
Mas o número ecoou entre eles.
Três anos.
O mesmo tempo.
Exatamente o mesmo tempo desde que ela foi embora.
O olhar dele escureceu quase imperceptivelmente.
— Interessante.
A palavra foi dita como cálculo.
Como soma.
Como equação.
Aurora sentiu o estômago apertar.
Ele estava fazendo contas.
— Não vejo o que há de interessante em uma criança de três anos.
Ele finalmente se sentou.
Mas não relaxou.
— Você saiu da cidade três anos atrás.
Ela não respondeu.
— Sem dizer nada.
— Você deixou claro que não havia mais nada a dizer.
Os olhos dele a atravessaram.
— Eu deixei claro que não existia mais nós.
— Exatamente.
O ar entre eles parecia pesado demais para respirar.
Ele inclinou-se levemente sobre a mesa.
— Quem é o pai?
A pergunta foi direta.
Sem rodeios.
Sem preparo.
Aurora sentiu como se alguém tivesse apertado sua garganta.
Mas sua resposta veio no mesmo segundo.
— Isso não diz respeito a você.
— Diz, se houver qualquer possibilidade de que—
Ele parou.
Não completou a frase.
Mas o silêncio terminou por ele.
Aurora levantou-se.
— Cuidado com o que está insinuando.
— Eu não estou insinuando nada.
— Está sim.
O controle estava escapando.
E ela não podia permitir.
— Você realmente acha que eu teria feito isso? — ele perguntou, agora com algo diferente na voz. Não era frieza. Era tensão.
Ela sustentou o olhar.
— Eu acho que você escolheu o poder acima de tudo. Inclusive de mim.
Ele ficou em silêncio.
E isso respondeu muita coisa.
Aurora pegou a pasta.
— Se o senhor não tem mais questões profissionais, eu preciso sair.
— Aurora.
Ela parou.
Mas não virou.
— Se houver qualquer chance de aquela criança ser minha filha… eu preciso saber.
Ali.
Ali foi o momento em que algo dentro dela quase cedeu.
Porque ele não parecia arrogante.
Parecia… inquieto.
Mas medo não era prova.
Ambição não se desfaz em três anos.
Ela virou lentamente.
— Não há chance.
Mentira.
A primeira grande mentira entre eles.
Ele percebeu algo.
Não a mentira exata.
Mas o desconforto.
O leve tremor que ela tentou esconder ao ajustar a bolsa.
— Você está escondendo alguma coisa.
Ela não respondeu.
Saiu da sala.
Mas sentiu o olhar dele queimando em suas costas.
—
Na escola, Helena estava sentada no chão, cercada por lápis de cor.
Desenhava concentrada.
Cabelos castanhos caindo sobre o rosto.
Olhos atentos.
Olhos que herdaram mais do que Aurora gostaria.
— O que você está desenhando, Helena? — a professora perguntou.
— Meu papai.
A mulher sorriu.
— Ele vem te buscar hoje?
Helena balançou a cabeça.
— Não… mas mamãe disse que ele é importante.
Importante.
Não presente.
—
No escritório, Lorenzo não conseguiu se concentrar no restante do dia.
Três anos.
Ele abriu a agenda mentalmente.
Calculou datas.
A noite do rompimento.
As semanas anteriores.
Ela estava diferente naquele período.
Mais sensível.
Mais silenciosa.
Ele lembrava.
Lembrava das vezes em que ela parecia querer dizer algo.
E ele estava ocupado demais.
Pressionado demais.
Cego demais.
O telefone tocou.
Valentina.
Ele atendeu.
— Está estranho hoje — ela comentou. — Aconteceu algo?
— Nada relevante.
— Tem certeza?
Ele olhou pela janela.
A cidade abaixo.
O império que conquistou.
E, pela primeira vez, algo pareceu incompleto.
— Você conhece Aurora?
Silêncio do outro lado.
— O suficiente.
— O que sabe sobre o tempo em que ela deixou a cidade?
Valentina demorou um segundo.
Só um.
— Por quê?
— Responda.
A voz dele saiu firme.
Fria.
Ela respirou fundo.
— Sei que ela saiu rápido demais. Sei que não avisou ninguém. E sei que… houve comentários.
— Que comentários?
— Que ela estava grávida.
O mundo pareceu inclinar levemente.
Ele não respondeu.
Não podia.
Valentina continuou:
— Claro, nunca houve confirmação. Ela nunca apareceu com ninguém. Nem assumiu nada. Foi tudo muito… silencioso.
Silencioso.
Como tudo o que realmente importa.
— Envie tudo o que descobrir — ele disse.
E desligou.
—
Aurora estava em casa quando sentiu o telefone vibrar.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
— Senhora Aurora? Aqui é do cartório central. Estamos confirmando dados da certidão de nascimento de Helena.
O coração dela parou.
— Que tipo de confirmação?
— Houve uma solicitação recente de acesso aos registros.
O sangue fugiu do rosto dela.
— Quem solicitou?
— O pedido foi feito por um advogado do Grupo Moretti.
O mundo começou a se mover rápido demais.
Ele não estava apenas desconfiando.
Ele estava investigando.
Aurora sentou-se devagar.
Helena entrou na sala naquele momento.
— Mamãe?
Ela forçou um sorriso.
— Sim, meu amor.
Helena se aproximou.
— Você está triste?
Aurora puxou a filha para o colo.
Enterrou o rosto nos cabelos dela.
Respirou.
— Não. Só estou pensando.
— No papai?
O coração dela falhou outra vez.
— Por que você pergunta isso?
Helena deu de ombros.
— Porque você pensa nele quando fica assim.
Aurora fechou os olhos.
Crianças sempre sabem.
—
Naquela noite, Lorenzo abriu o envelope digital enviado pelo advogado.
Certidão.
Nome da mãe: Aurora.
Campo do pai:
Em branco.
Mas a data de nascimento estava ali.
Exatamente nove meses depois da última vez que ele a tocou.
Ele sentiu algo que não sentia havia anos.
Medo.
E esperança.
Ao mesmo tempo.
Ele pegou o telefone.
Digitou o número dela.
Parou.
Se ela mentiu…
Por quê?
Para protegê-lo?
Ou para protegê-la?
Ele fechou os olhos.
E pela primeira vez desde que assumiu a presidência, Lorenzo Moretti percebeu que existia algo maior que poder.
Possibilidade.
Do outro lado da cidade, Aurora observava Helena dormir.
Sabia.
Sabia que aquele segredo não ficaria enterrado por muito tempo.
E quando viesse à tona…
Nada permaneceria igual.
Ela passou a mão pelos cabelos da filha.
E sussurrou:
— Eu vou proteger você.
Mesmo que precise enfrentar o império inteiro.
Do outro lado da cidade, Lorenzo olhava para a certidão aberta na tela.
E murmurou:
— Se ela for minha filha…
Dessa vez, eu não vou embora.
O problema?
Ele já tinha ido.
E agora o destino estava voltando.