A PERGUNTA PROIBIDA

O silêncio dentro da sala de Lorenzo era diferente de qualquer outro.

Não era o silêncio confortável de reuniões controladas.

Era pesado.

Denso.

Carregado de algo que ninguém ali queria nomear.

Aurora estava parada diante da mesa dele.

As mãos entrelaçadas para que ele não percebesse o tremor.

Lorenzo permanecia sentado.

Mas seus olhos não estavam nela.

Estavam na fotografia.

Na pequena fotografia que Helena havia deixado cair no chão quando correu pelo corredor.

Ele havia pego.

E agora observava.

Os traços.

Os olhos.

O sorriso.

O mesmo formato de sobrancelhas.

O mesmo olhar intenso.

E aquilo estava corroendo algo dentro dele.

— Quantos anos ela tem? — ele perguntou, sem levantar o olhar.

Aurora sentiu o ar desaparecer.

Essa pergunta.

Ela sabia que ela viria.

Sabia que um dia ele faria.

Mas ouvir aquilo…

Era diferente.

— Três — ela respondeu, tentando manter a voz firme.

Ele finalmente levantou os olhos.

E ali não havia frieza.

Havia cálculo.

E dúvida.

— Três anos e quanto?

Ela engoliu.

— Três anos e quatro meses.

O tempo parou.

O cérebro dele começou a fazer contas.

Três anos e quatro meses.

Exatamente o tempo desde a noite da rejeição pública.

Desde o noivado com Valentina.

Desde o dia em que ele assinou o contrato.

Desde o dia em que ele virou as costas para ela.

O olhar dele ficou mais escuro.

— Você estava grávida quando saiu da cidade?

A pergunta proibida.

Direta.

Sem espaço para fuga.

Aurora sentiu o coração bater tão forte que parecia audível.

Ela poderia mentir.

Poderia.

Seria mais fácil.

Mas Lorenzo sempre teve uma coisa: ele sabia ler quando alguém mentia.

— Não — ela respondeu.

E não era mentira.

Ela não sabia ainda.

Descobriu depois.

Sozinha.

No banheiro de um pequeno apartamento alugado.

Com um teste positivo nas mãos e ninguém ao lado.

Ele continuava observando.

— Quem é o pai?

A pergunta veio como um golpe.

Aurora respirou fundo.

— Isso não diz respeito à empresa.

Ele levantou lentamente.

A presença dele sempre foi imponente.

Mas agora era mais.

Era pessoal.

— Diz respeito quando minha funcionária aparece com uma criança que tem meus olhos.

Ela sentiu a garganta fechar.

— Helena não tem nada a ver com você.

Ele se aproximou.

Um passo.

Dois.

— Não minta para mim, Aurora.

O uso do nome dela daquele jeito foi quase íntimo.

Quase perigoso.

— Eu não estou mentindo.

— Então me diga quem é o pai.

Ela ficou em silêncio.

Porque o silêncio, naquele momento, era a única coisa que ainda estava sob o controle dela.

E Lorenzo percebeu.

E isso o deixou furioso.

Não porque ela estava desafiando.

Mas porque ele não tinha certeza.

E a dúvida o estava destruindo.

— Se você estava grávida quando saiu…

— Eu não estava! — ela interrompeu, finalmente.

Os olhos dela brilharam.

Não de fragilidade.

Mas de dor antiga.

— Eu descobri depois.

Ele ficou imóvel.

O coração dele deu um soco contra o peito.

— Descobriu o quê?

Ela percebeu que tinha falado demais.

Droga.

Droga.

— Nada.

— Descobriu o quê, Aurora?

A voz dele estava mais baixa.

Mais perigosa.

— Eu descobri que estava grávida depois que fui embora.

O silêncio que se seguiu foi devastador.

Ele ficou parado.

Absorvendo cada palavra.

Depois que fui embora.

Grávida.

A mente dele voltou àquela noite.

Ao rosto dela.

À humilhação pública.

À assinatura.

À escolha.

E algo dentro dele começou a quebrar.

— E você nunca achou importante me contar?

Ela riu.

Mas foi uma risada amarga.

— Contar o quê, Lorenzo? Que eu estava grávida enquanto você anunciava seu noivado com outra mulher?

O nome de Valentina pairou no ar sem ser dito.

Ele cerrou os dentes.

— Se fosse meu filho…

— Não é.

Ela disse rápido demais.

E ele percebeu.

— Você acabou de dizer que descobriu depois de ir embora.

— Isso não significa que é seu.

Ele se aproximou mais.

Agora estavam perto demais.

— Então de quem é?

Ela sustentou o olhar.

— Isso não importa.

Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado.

— Importa para mim.

— Não deveria.

As palavras saíram antes que ela pudesse impedir.

Ele parou.

— Não deveria?

Ela respirou fundo.

Chega.

Chega de fingir que ele tinha direito.

— Você fez uma escolha naquela noite, Lorenzo. Escolheu sua família. Escolheu poder. Escolheu dinheiro. Você abriu mão de mim. De qualquer coisa que tivesse relação comigo.

A respiração dele ficou pesada.

— Isso não significa que eu abriria mão de um filho.

Ela sentiu o impacto.

Porque havia verdade ali.

Mas também havia passado.

— Você não estava disponível para nada além do seu império.

Silêncio.

Ele a encarava.

E pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza de estar certo.

— Eu quero um teste de DNA.

As palavras cortaram o ar.

Aurora sentiu como se alguém tivesse puxado o chão sob seus pés.

— Você não pode exigir isso.

— Posso.

— Não pode!

Ele ficou rígido.

— Se existe a mínima possibilidade de Helena ser minha filha, eu tenho o direito de saber.

Ela tremeu.

Não de medo dele.

Mas do que isso poderia causar.

Da família dele.

De Valentina.

Das guerras que viriam.

— Você não faz ideia do que está pedindo.

— Eu sei exatamente.

— Não, não sabe!

Ela se afastou.

Passou a mão no rosto.

— Se Helena for sua filha… sua família vai transformar a vida dela num campo de batalha.

Ele ficou em silêncio.

Porque ele sabia que isso era verdade.

A família Moretti não era gentil.

Não era emocional.

Era estratégica.

— Eu não deixaria ninguém machucá-la.

Ela olhou para ele.

E viu algo que não via há anos.

Proteção.

Mas também viu algo perigoso.

Posse.

— Você não conseguiu me proteger.

A frase caiu como uma sentença.

Ele sentiu.

Ela viu.

— Eu falhei com você — ele disse, finalmente.

E aquilo foi inesperado.

Aurora não estava preparada para ouvir isso.

— Mas não vou falhar com uma criança.

Ela fechou os olhos por um segundo.

O problema era que ela queria acreditar.

E isso era o mais perigoso.

Do outro lado da cidade, Valentina estava sentada no carro.

O olhar fixo na tela do celular.

A foto que sua investigadora havia enviado.

Aurora.

Saindo do prédio da Moretti.

Com a criança.

Valentina ampliou a imagem.

Os olhos da menina.

E o sangue dela gelou.

— Não… — ela murmurou.

Aquele olhar.

Ela conhecia.

Porque passava todas as manhãs encarando aqueles mesmos olhos na mesa do café da família Moretti.

— Isso não pode estar acontecendo.

Ela digitou uma mensagem.

“Descubra tudo sobre essa criança. Pai. Certidão. Hospital. Quero cada detalhe.”

Apagou.

Reescreveu.

“Se for o que eu estou pensando… essa mulher vai se arrepender de ter voltado.”

De volta ao escritório.

Lorenzo estava parado sozinho.

A fotografia ainda na mão.

Três anos e quatro meses.

Ele fez as contas de novo.

E de novo.

E de novo.

Não havia erro.

Se Helena fosse dele…

Ela teria sido concebida na última noite que passaram juntos.

A última noite antes da rejeição.

Antes do contrato.

Antes de Valentina.

Ele sentiu o estômago revirar.

Aurora carregou isso sozinha.

Ele caminhou até a janela.

E pela primeira vez em muito tempo, o império parecia pequeno.

Porque, se fosse verdade…

Ele não havia apenas perdido a mulher que amava.

Ele havia perdido três anos da vida da própria filha.

E isso não era algo que poder ou dinheiro compravam de volta.

Aurora entrou em casa e encontrou Helena sentada no chão desenhando.

— Mamãe! — a menina correu para ela.

Aurora a pegou no colo.

Apertou forte demais.

— Está tudo bem?

— Está.

Mas não estava.

Helena tocou o rosto dela.

— Você está triste?

Aurora sorriu.

— Não. Só cansada.

Helena inclinou a cabeça.

— O moço do prédio estava olhando pra mim hoje.

Aurora congelou.

— Que moço?

— O de olhos iguais aos meus.

O coração dela parou.

— O que ele fez?

— Nada. Só olhou.

Helena deu de ombros.

— Ele pareceu surpreso.

Aurora sentiu o medo subir.

Lorenzo já estava conectando as peças.

E quando ele decidia algo…

Ele não parava até conseguir.

Ela fechou os olhos.

A pergunta proibida tinha sido feita.

Agora não havia mais como fingir.

A verdade estava caminhando direto para eles.

E desta vez…

Não seria silenciosa.

No final da noite, Lorenzo pegou o telefone.

Ligou para seu advogado.

— Quero iniciar um processo para teste de paternidade.

Houve um silêncio do outro lado.

— Lorenzo… isso pode gerar escândalo.

— Eu não me importo.

Ele olhou novamente para a fotografia.

Para aqueles olhos.

— Se aquela criança for minha filha… ninguém vai tirá-la de mim.

Ele desligou.

E pela primeira vez em três anos, não pensou em contratos.

Nem em fusões.

Nem em ações.

Pensou apenas em uma coisa.

Uma menina de três anos.

Com olhos iguais aos dele.

E na mulher que o odiava com razão.

O jogo tinha mudado.

E agora…

Não era mais sobre império.

Era sobre sangue.

E amor.

E culpa.

E a verdade que estava prestes a explodir.

Continua…

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