Mundo ficciónIniciar sesiónO corredor do hospital estava silencioso naquela manhã.
Valentina caminhava lentamente, sentindo o som suave dos próprios passos ecoar no piso brilhante. Cada dia ali parecia igual ao anterior, mas, ao mesmo tempo, carregava um peso diferente.
Fazia três dias desde que ela havia assinado o contrato.
Três dias desde que se tornara, oficialmente, Valentina Montenegro.
Mesmo agora, aquilo ainda parecia estranho em sua mente.
Ela apertou o pequeno envelope que segurava nas mãos. Dentro dele estavam alguns documentos que Helena Montenegro havia mandado entregar naquela manhã: a certidão de casamento, uma cópia do contrato e o cartão do advogado da família.
Tudo tão frio.
Tão formal.
Como se sua vida tivesse sido reorganizada em papéis e assinaturas.
Ao chegar à porta do quarto, Valentina parou.
Na placa metálica estava escrito:
Leonardo Montenegro – UTI Privada
Seu coração acelerou.
Ela ainda não tinha conseguido se acostumar com a ideia de que aquele homem…
era seu marido.
Mesmo que ele não soubesse disso.
Valentina respirou fundo antes de abrir a porta.
O quarto era grande, silencioso e iluminado pela luz suave da manhã que entrava pelas janelas enormes. O som constante dos aparelhos médicos era a única coisa que quebrava o silêncio.
E ali, no centro do quarto, estava ele.
Leonardo Montenegro.
Deitado na cama hospitalar.
Imóvel.
Valentina ficou parada por alguns segundos.
Mesmo naquela situação, era impossível negar o quanto ele era impressionante.
Os cabelos escuros estavam levemente desalinhados, caindo sobre a testa. O rosto tinha traços fortes e definidos, e até mesmo a palidez causada pelo coma não diminuía sua presença.
Ele parecia alguém que estava apenas dormindo.
Mas os tubos, fios e monitores contavam outra história.
Valentina caminhou devagar até a cadeira ao lado da cama.
Sentou-se.
E ficou observando-o.
Ainda era estranho pensar que sua vida estava agora ligada àquele homem.
Um homem que nunca tinha falado com ela.
Que talvez nunca falasse.
Ela colocou o envelope sobre a mesa ao lado da cama e soltou um suspiro leve.
— Acho que devo me apresentar… — murmurou, com um pequeno sorriso nervoso.
O silêncio permaneceu.
Valentina entrelaçou os dedos.
— Meu nome é Valentina Alencar… ou melhor… — ela fez uma pausa — Valentina Montenegro agora.
Nada.
Apenas o som constante do monitor cardíaco.
Ela olhou para ele novamente.
— Nós nos casamos… ontem.
Dizer aquilo em voz alta parecia absurdo.
— Eu sei que isso deve parecer estranho — continuou ela, quase sussurrando. — Para ser honesta… também parece estranho para mim.
Ela desviou o olhar para a janela.
O sol iluminava parte do quarto, criando um contraste suave com a atmosfera hospitalar.
— Sua mãe disse que conversar pode ajudar pacientes em coma.
Valentina apoiou o cotovelo na cadeira.
— Então… acho que vou falar.
Ela riu baixinho.
— Mesmo que você não possa responder.
Seus olhos voltaram para o rosto dele.
— Espero que você não seja uma pessoa difícil quando acordar.
O silêncio respondeu.
Ela suspirou.
— Porque sua mãe… definitivamente é.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Seu pai parece mais razoável.
Ela fez uma pausa.
— Mas ainda assim… acho que eles não gostam muito de mim.
Na verdade, Valentina tinha certeza disso.
Desde o casamento civil discreto no dia anterior, Helena Montenegro mal tinha olhado em sua direção.
Para ela, Valentina não passava de uma solução conveniente.
Um detalhe administrativo.
Valentina voltou a olhar para Leonardo.
— Eu também não esperava me casar assim, sabia?
Ela passou os dedos levemente pela borda da cama.
— Quando era mais nova, eu imaginava um casamento bem diferente.
Um vestido bonito.
Música.
Pessoas felizes.
Ela soltou uma pequena risada.
— Não um contrato em um hospital.
Seus olhos suavizaram.
— Mas tudo bem.
Ela olhou para ele novamente.
— Porque… eu precisava disso.
As palavras saíram mais baixas.
— Minha mãe está doente.
Valentina abaixou o olhar.
— E eu não tinha mais opções.
Por alguns segundos, ela ficou em silêncio.
Então respirou fundo.
— Então… obrigada.
Ela levantou o olhar novamente para ele.
— Mesmo que você não tenha escolhido isso.
O monitor cardíaco continuava com seu ritmo constante.
Bip.
Bip.
Bip.
Valentina recostou-se na cadeira.
— Prometo uma coisa.
Sua voz ficou mais firme.
— Eu não vou abusar da sua situação.
Ela cruzou os braços.
— Vou cumprir o contrato, ajudar sua família com o que for necessário… e quando você acordar, pode pedir o divórcio sem problemas.
Ela deu de ombros.
— Eu entendo.
Outro silêncio.
Então Valentina fez algo inesperado.
Ela estendeu a mão.
E segurou a mão dele.
A pele estava fria.
Imóvel.
Mas estranhamente… não parecia distante.
Valentina ficou assim por alguns segundos.
— Então… é isso.
Ela sorriu levemente.
— Prazer em conhecê-lo, marido.
O monitor cardíaco continuava constante.
Nada mudou.
Nada se moveu.
Mas Valentina não sabia…
Que naquele mesmo momento…
Em algum lugar dentro da mente de Leonardo Montenegro…
uma lembrança antiga começava lentamente a despertar.







