Capítulo 7

Capítulo 7

Ela suspirou profundamente ao entrar no prédio antigo, o cheiro de mofo se misturava ao de tempero de feijão enquanto subia pelas escadas estreitas.

O elevador estava quebrado há semanas, de novo, então subiu os degraus devagar, os músculos das pernas ainda moles do que aconteceu no hospital.

"Quase lá."

No quarto andar, como se tivesse um radar, a porta do apartamento 402 foi aberta antes mesmo que ela chegasse ao patamar.

O vizinho que sempre parecia farejá-la como um cachorro no cio, saiu e encostou no batente. Estava só de cueca boxer cinza surrada, barriga ligeiramente saliente, cruzou os braços exibindo músculos de academia barata.

— Oi, gatinha. Quer foder hoje? — disse com um sorriso que ele achava irresistível.

Maitê parou por um segundo, olhou para ele de cima a baixo com cara de nojo puro. O corpo estava em dia, sim: depilado, bronzeado de forma artificial, tatuagens malfeitas nos braços. Mas faltava o detalhe principal. O que realmente importava.

— Parece que você não tem pau — soltou ela, seca, sem nem piscar.

Ele franziu a testa, seu ego foi ferido na hora. Endireitou o corpo com raiva pela ofensa.

— Onze centímetros quando está duro — se gabou, a voz subindo um tom. — Você não precisa mais do que isso. Chega até o seu útero. Vou acabar com sua buceta.

Maitê balançou a cabeça devagar, quase com pena.

— Pode esquecer.

Ela continuou subindo sem olhar para trás.

— Você ainda vai implorar por mim, sua cadela! — gritou ele do corredor, a voz ecoando pelas paredes finas do prédio.

— Cara idiota… — murmurou ela baixinho, já no último lance de escadas. Parou por um segundo no patamar, encostou na parede fria e fechou os olhos. — Pensando bem, vai ser bom sair desse lugar.

Entrou no apartamento minúsculo, que mal cabia uma cama de casal, uma mesinha improvisada e um fogão de duas bocas. Jogou a bolsa no sofá-cama desarrumado, tirou os sapatos e andou até a janela pequena que dava para o beco dos fundos. O vidro estava embaçado de umidade, mas dava para ver o muro grafitado e o poste de luz piscando.

Sentou na beira da cama, o corpo ainda estava quente, marcado pelos dedos dele, de Rafael. As coxas ardiam onde ele havia apertado, e entre as pernas sentia o vestígio dele. Fechou os olhos e deixou a lembrança invadir: o jeito como ele a segurou contra a parede, o pau grosso entrando fundo, o grunhido baixo no ouvido dela quando gozou. Um contraste com o vizinho idiota que era quase risível.

Mas não era só o sexo.

Era o olhar dele. A forma como ele a via: não a via como uma enfermeira qualquer ou como uma vadia fácil. Era como algo que ele queria possuir. E isso assustava tanto quanto excitava.

Ela pegou o celular da bolsa. Ele tinha enviado uma mensagem: um endereço no centro, e o horário exato: segunda-feira, 11h. “Não se atrase. Rafael.”

Maitê salvou o contato como: “Rafael”, sem sobrenome, ainda não se acostumou com a ideia de que ele era Rafael Valença. O dono do hospital. O homem que ia pagar suas contas, dar um apartamento decente, um carro… e que não queria filhos. Que não queria mais do que um ano.

Ela se deitou na cama, olhando para o teto rachado. Uma lágrima desceu solitária pelo canto do olho, mas ela a enxugou rápido. Não ia chorar por algo que ainda nem começou.

“Um ano”, pensou. “E se eu não quiser sair?”

Ela virou de lado, abraçou o travesseiro e tentou dormir.

Segunda-feira chegaria logo, com ela, o contrato. E com o contrato… Rafael Valença.

Domingo de manhã, o sol mal tinha acesso a janela pequena da kitnet. Acordou cedo, o corpo ainda estava dolorido de um jeito que a fazia sorrir sozinha ao lembrar de sexta-feira. Mas hoje não era o dia de lembrar. Era dia de agir.

Ela se sentou na cama e respirou fundo.

— Melhor adiantar tudo — murmurou para si mesma, olhando ao redor no espaço apertado. — Com certeza segunda será um dia corrido e, pelo visto, meu chefe vai querer exclusividade desde então.

Levantou-se, vestiu uma camiseta velha e um short jeans surrado, amarrou o cabelo num coque bagunçado e começou a organizar tudo.

Dobrou as roupas, as lingeries básicas, não eram nada sofisticadas. Colocou tudo em caixas de papelão que guardava embaixo da cama para mudanças eventuais. Etiquetou cada uma com caneta preta: “Roupas de verão”, “Uniformes”, “ Roupas Essências”.

Depois os livros, eram poucos, mas queridos: romances antigos que a mãe lhe deu, um manual de enfermagem anotado nas margens, um livro de poesias que lia quando o plantão pesava demais. Embrulhou com papel pardo e colocou em outra caixa.

Produtos de higiene pessoal foram para uma bolsa de viagem. Maquiagem mínima, creme corporal, escova de dentes, absorventes. Tudo o que cabia numa vida prática.

Os móveis eram do kitnet, não precisava se preocupar com isso. Quando saísse, deixaria tudo como estava. Talvez o proprietário alugasse de novo no dia seguinte.

Parou no meio da sala minúscula, com as mãos na cintura e olhou o resultado.

— Tudo ok — disse em voz alta, e sorriu.

Sentou-se na beira da cama, pegou o celular e abriu a mensagem de Rafael. Respondeu em seguida: “Estarei lá.”

Segunda-feira mudaria tudo, e estava pronta.

Ou quase.

***

Enquanto isso, na mansão Valença, o sol da manhã entrava pelas janelas altas da sala de jantar. Rafael desceu as escadas, a camisa social branca estava aberta no primeiro botão, de calça jeans escura e o cabelo  úmido do banho.

Daniel estava na sala de jantar tomando o desjejum, o tablet ao lado do prato aberto em algum vídeo de medicina.

— O senhor parece diferente, pai — disse o filho sem tirar os olhos da tela.

Rafael sentou-se e pegou uma xícara de café que o mordomo lhe deu.

— Estou ótimo.

Daniel ergueu uma sobrancelha.

— Dá pra perceber. Pelo visto a mulher que ficou esses dias mexeu muito com você.

Rafael tomou um gole lento, o canto da boca, curvando num sorriso mínimo.

— Talvez sim. Talvez não.

O celular vibrou sobre a mesa. Ele olhou para a tela e atendeu.

— Sim. Estarei aí em trinta minutos — disse, seco, e desligou. Levantou-se em seguida.

Daniel franziu a testa.

— Onde vai? Já tem encontro?

O pai olhou para o filho com uma sobrancelha erguida.

— Preciso falar tudo?

— Não.

— Hum…

Rafael pegou o paletó na cadeira.

— Vou ver uns imóveis.

Daniel piscou, surpreso.

— Já tem tantos, pai.

— Até mais tarde, Daniel.

— Até mais, pai.

Rafael saiu. Daniel deu de ombros, terminou a torrada e foi para a sala de estar assistir a um filme.

Enquanto isso, Rafael atravessou o hall principal e foi direto para a garagem. O motorista, aproximou-se rapidamente.

— Vai sair, senhor? Vou pegar o carro.

Rafael ergueu a mão, parando-o.

— Pode deixar. Eu dirijo. — Ele fez uma pausa e o olhou sério. — Ah, e não quero que continue abrindo a boca para falar de mim.

O rapaz engoliu seco.

— Não tenho paciência com fofocas. Se você não for discreto, será dispensado.

— Não farei mais isso, senhor.

— Ótimo. Dê-me a chave do Mercedes.

O motorista entregou a chave com as mãos trêmulas.  Enquanto dirigia pelas ruas arborizadas da cidade alta em direção ao centro, pensou em Maitê. Na kitnet que ela descreveu. No apartamento que já havia mandado reservar, um loft moderno, dois quartos, vista para o parque, segurança 24 horas e mobília nova sob medida.

Um ano. Tempo suficiente para saciar o desejo.

Mas no fundo, bem no fundo, uma parte dele sabia que um ano talvez não bastasse.

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