Capítulo 4

Sebastian

Meu dia começou cedo.

Como todos os outros.

Mas, diferente da maioria das manhãs, eu não consegui manter a mente onde deveria estar.

A sala de reunião estava cheia. Executivos falando, gráficos sendo projetados na tela, números sendo discutidos com aquela seriedade corporativa que normalmente me mantinha focado.

Hoje não.

— Sebastian?

Levantei os olhos.

 Richard Whitmore, meu padrinho e braço direito na empresa, me observava do outro lado da mesa.

— O que acha da proposta de expansão?

Perguntou.

Alguns executivos me encararam, esperando uma resposta. Olhei para o gráfico na tela por alguns segundos, organizando meus pensamentos.

— Precisamos revisar os custos logísticos antes de fechar qualquer coisa.

Respondi finalmente.

— Mas o plano parece sólido.

Richard assentiu, satisfeito.

A reunião continuou.

Mas minha cabeça… não. Porque, de vez em quando, a imagem surgia de novo.

Aquela garota.

Os olhos vermelhos. O jeito nervoso. E principalmente…

O rosto.

Suspirei discretamente e encostei na cadeira.

Era ridículo. Eu não pensava em Cassandra daquela forma havia anos. Mas aquela semelhança maldita tinha aberto uma porta que eu preferia manter fechada.

Flashes de memória me invadiram.

Eu tinha dezoito anos.

Cassandra estava sentada no banco do meu carro, rindo enquanto segurava uma bolsa absurda de cara que tinha acabado de comprar com o cartão do meu pai.

— Você nem olhou o preço.

Eu disse na época, rindo.

 Ela deu de ombros.

— Seu pai é rico, Sebastian. Relaxa.

Naquela época eu não via problema.

Eu era jovem.

E estava completamente apaixonado.

Cassandra Beaumont.

Linda.

Popular.

Sempre perfeitamente vestida.

Ela amava restaurantes caros, festas luxuosas, viagens improvisadas para lugares absurdamente caros.

E eu adorava dar tudo aquilo para ela.

Até o dia em que meu pai me chamou para conversar.

— Está na hora de começar a se preparar para assumir a empresa um dia.

Foi quando ele pediu para Richard começar a me treinar.

Estudos mais sérios.

Reuniões.

Responsabilidades.

Cassandra odiou.

— Você nunca tem tempo agora!

Ela reclamou jogando a bolsa no sofá do meu apartamento.

— Eu estou trabalhando, Cassie.

— Você tem vinte anos! Era para estarmos nos divertindo!

Eu tentei explicar.

Tentei fazer ela entender.

Mas Cassandra nunca quis entender.

Ela queria festas.

Luxo.

Atenção.

E quando percebeu que eu estava mais ocupado… ela simplesmente encontrou alguém que não estivesse.

Lembro perfeitamente do dia em que descobri.

Ela estava saindo de um restaurante caro… com outro cara.

Um cara que eu conhecia.

Mais velho.

Mais rico.

Mais influente.

— Sebastian…

Ela disse quando me viu.

Como se fosse apenas um inconveniente.

— Você terminou comigo ontem.

Eu falei.

Ela suspirou.

— Eu precisava de alguém com mais… visão de futuro.

A frase ainda ecoava na minha cabeça anos depois.

Visão de futuro.

Ela trocou nosso relacionamento por dinheiro.

E não foi a última vez.

Cassandra passou anos pulando de um homem rico para outro.

Empresários.

Herdeiros.

Investidores.

Qualquer um que pudesse manter o estilo de vida que ela adorava.

E eu?

Eu nunca mais quis nada sério com ninguém.

Porque aquela sensação…

De ser trocado.

De não ser suficiente.

Ela não desaparecia.

...

A reunião terminou e as pessoas começaram a sair da sala.

Richard ficou para trás.

— Você parece distraído hoje.

Comentou.

— Só cansado.

Ele me estudou por alguns segundos, mas não insistiu.

Quando finalmente voltei para o meu escritório, tentei mergulhar no trabalho.

Mas aquela garota continuava aparecendo na minha mente.

Não apenas pela semelhança.

Mas porque…

Por um segundo, quando olhei para ela…

Eu vi uma versão de Cassandra que não existia mais.

Antes das cirurgias.

Antes do luxo excessivo.

Antes de tudo aquilo.

A garota que eu realmente amei quando era adolescente.

A ideia me irritou.

Ridículo.

Passei o resto do dia tentando ignorar o pensamento.

Sem sucesso.

À noite, quando finalmente cheguei em casa, servi um copo de uísque e fui até a varanda do apartamento.

A cidade brilhava lá embaixo.

Bebi um gole lento.

Se Cassandra quisesse voltar hoje…

Eu sabia que poderia tê-la.

Ela sempre gostou de homens ricos.

E eu tinha me tornado mais rico do que qualquer um que ela já teve.

Parte de mim tinha trabalhado duro exatamente por isso.

Para provar que ela estava errada.

Que me trocar tinha sido o maior erro da vida dela.

E eu consegui.

Mesmo assim…

Aquela dor antiga ainda existia em algum lugar dentro de mim.

Terminei o uísque e peguei o celular.

Rolei a lista de contatos até encontrar um nome específico.

 Daniel Carter.

Um velho amigo.

Hoje policial.

Mas também fazia alguns trabalhos como detetive particular quando precisava de dinheiro extra.

A ligação foi atendida depois de dois toques.

— Sebastian?

Ele disse.

— Faz tempo.

— Preciso de um favor.

— Que tipo de favor?

Olhei para a cidade mais uma vez.

— Preciso que investigue uma pessoa para mim.

— Nome?

— Olivia Parker.

Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha.

— Certo… isso já ajuda bastante.

 Daniel respondeu.

— O que você quer saber sobre ela?

Encostei no parapeito da varanda, observando as luzes da cidade.

— Tudo.

— Tudo… tipo?

— Família, trabalho, histórico… qualquer coisa.

Daniel soltou uma pequena risada.

— Você está me pedindo uma investigação completa.

— Exatamente.

Peguei o celular e abri o e-mail corporativo que ainda estava salvo no meu telefone.

O currículo dela.

Olivia Parker.

22 anos.

Endereço simples.

Experiência principalmente em serviços de limpeza.

Nada impressionante.

Ainda assim…

— Eu consigo isso para você.

 Daniel disse.

— Mas vai custar.

— Não é um problema.

Mais alguns segundos de silêncio passaram antes que ele perguntasse:

— Quem é ela?

Olhei para o reflexo da cidade no vidro da varanda.

Pensei na garota chorando na rua.

No rosto que parecia um fantasma do meu passado.

— Alguém que chamou minha atenção hoje.

Daniel riu.

— Mulheres,Isso é a sua cara.

Desliguei a chamada e coloquei o celular sobre a mesa.

Talvez fosse mesmo.

Mas, por algum motivo estranho…

 Eu precisava saber mais sobre Olivia Parker.

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