VERDADE NA TELA GIGANTE

—Boa noite a todos — disse Valentina. Sua voz percorreu o salão sem tremer. — Obrigada por nos acompanhar nos trinta e cinco anos do meu marido. Héctor diz que a família é o pilar do seu sucesso. E hoje, quero mostrar a vocês o quanto um homem pode ir longe pra defender esse pilar.

Héctor a olhou com estranheza. Não era o discurso submisso que haviam combinado. Clarisa, de um canto, apertou sua taça com força, pressentindo o desastre.

— Meu marido é um homem de surpresas — continuou Valentina, olhando fixamente para sua mãe. — Mas eu também aprendi a dar as minhas. Meu presente não é um relógio, nem um carro de luxo. Meu presente é a verdade. Porque a verdade é a única coisa que nos liberta, não é mesmo, amor?

— Valentina, o que você está fazendo? — sussurrou Héctor, aproximando-se com os dentes cerrados. — Senta agora mesmo. Você está fazendo papel ridículo.

— Ah, não, querido. Acabei de começar — ela lhe deu um sorriso cheio de veneno. — Por favor, apaguem as luzes. Quero que todos vejam o vídeo que preparei com tanto esforço.

A alguns metros de distância, escondida atrás dos vidros de uma van escura, uma figura observava cada movimento de Valentina. O homem pegou o celular e, com calma, escreveu uma mensagem que mudaria o rumo de tudo.

A tela gigante desceu do teto. Héctor tentou impedir o técnico, mas Leónidas, seu próprio pai, o segurou pelo braço com força, obrigando-o a olhar.

O vídeo começou. As imagens eram nítidas. Héctor e Sandra apareciam no quarto principal, entregues a uma paixão frenética. Os gemidos e risadas dos dois encheram o salão, debochando do luto que todos achavam que guardavam. Enquanto a pequena Luz acabara de ser enterrada, eles se embolavam entre os lençóis de seda.

Um murmúrio de nojo percorreu o salão. Os convidados recuaram, horrorizados.

— Que tipo de pai faz isso? — sussurrou uma mulher com desprezo. — A filha dele morreu há poucas horas e ele está aí, feito um animal.

— É repugnante — acrescentou outro homem. — Está dormindo com a própria irmã. Adotiva ou não, foram criados na mesma casa. É uma porcaria.

Clarisa e Federico, os pais de Valentina, se adiantaram. Mas não para apoiar a filha, e sim para proteger as aparências.

— Desliga isso agora, Valentina! — gritou Clarisa, fora de si. — Você é uma desequilibrada! Está armando esse circo porque está morrendo de inveja.

— É verdade — secundou Georgina, mãe de Héctor, com veneno na voz. — Sandra é linda, jovem e perfeita. Clarisa sempre soube que Sandra vale mais que você. Isso é só um ataque de ciúmes porque você não suporta ver que ela é a favorita de todos.

Sandra, ao se ver encurralada, perdeu o controle. Lançou-se contra Valentina, seu único desejo era acabar com ela, reduzi-la a nada.

— Eu vou te matar! Maldita gorda ressentida!

Valentina nem piscou. Esquivou o ataque com uma elegância que deixou Sandra cambaleando. Olhou-a com uma segurança que eles não conheciam nela. Não havia medo em seus olhos, apenas um vazio absoluto.

— Você já não pode me machucar, Sandra — disse Valentina com voz firme. — Você não é mais nada.

Leónidas, que até então guardara um silêncio sepulcral, explodiu. Caminhou até o filho e, com um rugido de raiva, deu-lhe um soco que o derrubou direto no chão.

— Você é uma vergonha pro sobrenome Echeverry! — bramou. — Ainda bem que seu avô não está vivo pra ver a escória em que você se transformou. Você é um monstro!

Depois, virou-se para Sandra. Sem hesitar, deu-lhe um tapa que a deixou surda.

— E você... é uma qualquer. Como pôde dormir com seu irmão? Vocês são repugnantes. Os dois me dão vontade de vomitar.

Leónidas tentou se aproximar de Valentina, com os olhos cheios de uma culpa tardia.

— Filha, espera... me deixa consertar isso. Fica.

Valentina o olhou pela última vez. Deu uma olhada na mansão que antes chamava de lar e que agora parecia um túmulo.

— Não tem nada pra consertar, Leónidas. Esta casa já não é meu lar. É só uma mansão em chamas e eu não pretendo queimar com vocês.

Valentina caminhou até a saída com as costas eretas. Os convidados abriram caminho em um silêncio respeitoso, quase solene. Ao cruzar a porta, o ar fresco da noite a acertou. Do lado de fora, um carro a esperava.

Cristina baixou o vidro e estendeu a mão.

— Pronta pra recomeçar? — perguntou a amiga com um sorriso cúmplice.

Ela entrou no carro sem olhar pra trás.

— Nunca estive mais pronta.

Valentina fechou a porta do carro e o motor roncou, afastando-a do pesadelo. No entanto… recomeçar não seria tão fácil.

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