CHAMPANHE SOBRE CINZAS

Os dias se tingiram de um cinza amargo. Valentina se levantava por inércia, arrastando os pés até o quarto de Luz. Ali se trancava com Cristina, a única presença que não lhe causava náuseas. Agarrou-se aos vestidos da filha e aos seus brinquedos, esperando um milagre que a lógica negava, mas que seu coração ferido ainda exigia em silêncio.

De fora, a cena parecia uma tragédia familiar. Seus pais, seus sogros e Sandra se revezavam para entrar com bandejas de comida e palavras vazias. Aos olhos de Leónidas, eles só queriam resgatá-la da escuridão.

Valentina os observava sem piscar. Sabia que aquela suposta piedade era um disfarce.

Naquela noite, a mansão vibrava com uma alegria que para Valentina era obscena.

O champanhe corria e as risadas de Héctor ecoavam, liderando aquele teatro de perfeição. Enquanto Georgina, sua mãe, vigiava cada canto com precisão de falcão. Valentina os observava da sombra da escada principal. Seu vestido preto era um grito mudo, uma mancha de luto no meio de tanta hipocrisia dourada.

— Que bom que você saiu daquele quarto, querida. Finalmente voltou a ser você — disse Héctor, sorrindo enquanto lhe oferecia uma taça.

Valentina aceitou a taça. Sandra e seus pais sorriam com alívio fingido, acreditando que o tempo havia apagado o rastro do segredo sujo deles. As luzes do salão brilhavam demais, a música soava festiva, quase ofensiva. Tudo parecia normal. Normal demais.

— Claro, não podia perder sua festa. Que importa que o corpo da nossa filha tenha sido enterrado há pouco tempo — respondeu com ironia, dando um gole lento na taça, deixando o cristal tilintar suavemente entre os dedos.

Um casal próximo parou de rir. Alguém pigarreou. O comentário caiu como pedra em água parada.

— É melhor você se comportar! — sentenciou ele, apertando seu braço com força, cravando os dedos na pele.

Valentina apenas sorriu. Um sorriso suave. Inquietante. Seus olhos, porém, não sorriam.

Depois caminhou até onde estava Leónidas.

— Você está linda! — disse ele com voz doce. — Espero que não se incomode com isso... Sei que seu coração ainda está fraco. Mas vamos tentar fazer com que, por esta noite, nossos corações riam um pouco. Tenho certeza de que, se Luz estivesse aqui, estaria aproveitando tudo.

O nome da filha pairou entre eles como um sussurro sagrado. Como uma ferida aberta.

Embora Valentina soubesse que o carinho de Leónidas era real, naquele momento sentiu uma pequena pontada. Perguntava-se como era possível que ele tivesse se prestado àquele circo. Será que ele realmente não via o sangue invisível que manchava aquelas paredes? Ou preferia não ver?

Observou o salão. Risadas forçadas. Taças erguidas. Olhares que a evitavam. Outros a observavam com curiosidade, como se esperassem um colapso, um escândalo, uma cena.

Não. Ela não daria isso a eles.

— Vem, vamos — indicou Leónidas em voz baixa. — Chegou a hora do seu discurso.

— Tudo bem — respondeu ela, forçando uma calma que era puro fogo sob o gelo. — Hoje todos vão receber o que merecem.

Valentina foi avançando lentamente, abrindo caminho entre os convidados.

O som de seus saltos não era um andar, era uma contagem regressiva. Os convidados se viraram. Alguns baixaram a voz, outros ousaram apontar. “Como ela consegue estar tão inteira?”, diziam. “Não é um pouco cedo pra usar esse decote depois do funeral?”. Valentina não os escutava. Seus olhos estavam fixos em Héctor, que segurava uma taça de cristal fino, parecendo o dono do mundo.

Quando chegou ao centro do salão, a orquestra parou. Héctor se aproximou com um sorriso ensaiado, tentando segurá-la pela cintura para a foto. Valentina o esquivou com elegância técnica, posicionando-se frente ao microfone.

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