A BOLA VERMELHA E O DESTINO

Os meses passaram sem trégua. Valentina mal conseguia se manter em pé, tentando aceitar que Luz não voltaria. E quando achou que nada poderia piorar, tudo explodiu.

Héctor e Sandra não esperaram. Não iam permitir que apontassem o dedo pra eles. Mexeram suas peças com frieza. Contrataram um especialista em manipulação digital e pagaram o necessário pra que o trabalho ficasse impecável.

Depois veio o golpe final: uma coletiva de imprensa transmitida nacionalmente. Com semblante firme e discursos calculados, apresentaram supostas provas. Afirmaram que Valentina, consumida pela dor e por um ciúme obsessivo, havia fabricado o vídeo pra destruí-los.

O efeito foi imediato.

A opinião pública mudou de lado. As dúvidas foram plantadas. Os olhares se desviaram.

Diante do mundo, Héctor e Sandra recuperaram sua imagem impecável. Diante de Leónidas, Valentina deixou de ser a vítima. Agora era a instável, a descontrolada, a mulher incapaz de aceitar a realidade.

Naquela manhã, o sol batia com uma crueldade desnecessária. Valentina saía de um prédio de escritórios no centro da cidade. Outra entrevista de emprego, outro rejeição.

O recrutador que a atendeu parecia hesitar, procurando palavras pra suavizar o golpe.

— Senhora Valentina, sobre seu perfil... eu... — começou ele, coçando a nuca.

— Não precisa se desculpar — interrompeu ela, parando de repente. Sua voz estava plana, sem nenhum traço de emoção. — Já sei o discurso. Ninguém quer contratar a mulher que acusou o marido e a irmã de transarem na frente das câmeras. Sou um risco pra imagem da empresa.

O homem a olhou com uma mistura de pena e vergonha. Baixou o olhar, incapaz de sustentar o dela.

— Sinto muito mesmo. Suas referências acadêmicas são impecáveis, mas as ordens vêm de cima.

— A pena não paga as contas — sentenciou ela com uma firmeza que escondia o tremor das mãos.

Valentina ajustou a bolsa no ombro e saiu pra rua. O barulho do trânsito e o burburinho das pessoas a envolveram de repente. Caminhava com o olhar perdido, perguntando-se quanto mais conseguiria aguentar. Estava sozinha.

De repente, um chiado de pneus rompeu o ritmo da avenida. Um menino pequeno, de uns quatro anos, corria freneticamente pelo asfalto, perseguindo uma bola vermelha. O pequeno não via o sedã preto que se aproximava em alta velocidade. O motorista, distraído com o celular, mal reagiu.

O instinto de mãe, aquele que Valentina ainda carregava tatuado nas entranhas apesar da perda, ativou-se como uma mola. Ela não pensou. Não mediu o perigo.

— Cuidado! — gritou, lançando-se para o meio da rua.

Suas mãos alcançaram o corpo do menino justo quando o carro freava com um estrondo metálico. O para-choque ficou a poucos centímetros de suas pernas. Valentina caiu de joelhos, abraçando o menino contra o peito, protegendo-o com o próprio corpo.

O trânsito parou bruscamente. As buzinas começaram a tocar, criando uma sinfonia de caos. O menino, um pequeno de cabelos castanhos e olhos cheios de lágrimas, agarrou-se ao pescoço dela com força desesperada.

— Mamãe! Mamãe! — soluçou o pequeno, escondendo o rosto no ombro dela.

Valentina sentiu um choque elétrico. Aquele grito a atravessou.

— Calma, já passou, você está seguro aqui — sussurrou ela, acariciando seu cabelo com ternura, ignorando que o menino não era dela, mas sentindo seu medo como próprio.

As pessoas começaram a cercá-los. Entre a multidão, dois homens altos, vestidos com ternos pretos impecáveis e óculos escuros, abriram caminho com brusquidão. Suas presenças irradiavam perigo e autoridade.

— Julián, vem aqui agora — disse um deles, estendendo as mãos para tirar o menino dela.

O pequeno se apertou mais contra Valentina, soluçando com mais força.

— Não! Mamãe! Não me deixa! — gritava Julián, afundando as mãozinhas na jaqueta de Valentina.

— Soltem ele, vocês estão assustando ele — reclamou ela, levantando-se com o menino no colo. Não ia permitir que o levassem assim, ainda mais quando o pequeno tremia daquele jeito.

— Senhora, não complique as coisas. O menino vem com a gente — respondeu o outro homem num tom que não admitia réplicas.

Nesse momento, o celular de um dos seguranças vibrou. Ele atendeu imediatamente, mantendo o olhar fixo em Valentina.

— Senhor, temos o Julián. Ele está ileso. Mas... tem um problema. Não quer soltar. Está agarrado a uma mulher e não para de chamá-la de “mamãe”.

Do outro lado da linha, houve um silêncio pesado. Depois, uma voz profunda, carregada de uma autoridade gelada e uma urgência que não permitia questionamentos, respondeu:

— Tragam o Julián imediatamente. E tragam essa mulher também. Não importa como façam.

Os homens trocaram um olhar cúmplice. Valentina sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o vento da manhã.

— Senhora, a senhora vai ter que nos acompanhar — disse o mais alto, segurando-a pelo braço com firmeza.

— Pra onde? Quem são vocês? — perguntou ela, sentindo o coração bater forte contra as costelas.

— Ver o pai deste pequeno. E sugiro que não resista, meu chefe não está acostumado a ouvir um não como resposta.

Valentina olhou o rostinho molhado de lágrimas de Julián. O menino a olhava com devoção absoluta, como se ela fosse sua única tábua de salvação num oceano de sombras.

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