Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina abriu os olhos com dificuldade. O teto branco do hospital parecia cair sobre ela. O pânico não demorou a chegar; foi uma descarga elétrica que percorreu sua espinha. Ela se levantou bruscamente, ignorando a dor lancinante no lado do corpo.
— Luz!? — sua voz saiu como um fio partido. — Meu amor! Onde está minha filha?
A enfermeira que estava no quarto, verificando os monitores, tentou segurá-la pelos ombros para que ela não arrancasse o acesso do braço.
— Calma, senhora, por favor. A senhora não pode se levantar assim — disse a mulher com voz suave, tentando transmitir uma tranquilidade que Valentina não sentia.
— Quero minha filha! Me diz onde está a Luz! — gritou Valentina. As lágrimas começaram a embaçar sua visão. Sua mente foi bombardeada por flashes: o caixão, o confronto, depois a escuridão. — Preciso sair daqui!
— Senhora, me escuta com atenção — a enfermeira segurou seu rosto com delicadeza. — A senhora sofreu uma queda na escada de casa. Tem vários hematomas, mas nada grave. Precisa ficar em observação por segurança. Seu corpo precisa descansar.
Valentina ficou paralisada. Uma queda? Era isso que Héctor tinha contado? O pânico se transformou em uma raiva intensa que queimava suas entranhas.
— Não foi uma queda... — sussurrou Valentina, tremendo. — Meu marido, Héctor... ele me empurrou. Tentou me matar.
— A senhora está confusa por causa dos analgésicos — respondeu a enfermeira, ignorando suas palavras. — Não se preocupe. Vou chamar seu marido agora mesmo pra acompanhar a senhora. Ele está muito preocupado lá fora.
— Não! — Valentina agarrou o pulso dela com força desesperada. — Não chama ele. Pelo amor de Deus, não deixa ele se aproximar. Foi ele quem fez isso. Ele tentou me assassinar!
A enfermeira franziu a testa, claramente desconfortável. Achou que o trauma craniano estava causando delírios na paciente. Sem dizer mais nada, soltou-se de Valentina e saiu do quarto. Segundos depois, a porta se abriu novamente, mas não era Héctor. Era Clarisa. Sua mãe entrou com passos elegantes, fechando a porta atrás de si com um clique seco que soou como uma sentença.
— Mamãe... — Valentina soluçou, buscando um refúgio que nunca tivera. — Héctor tentou me matar. Me jogou da escada, eu vi, ele queria...
— Cala a boca, Valentina — a voz de Clarisa cortou o ar como uma lâmina. — Nem mais uma palavra sobre essa bobagem.
Valentina ficou muda. As lágrimas, que antes eram um rio de angústia, agora deslizavam pesadas, carregadas de um cansaço que dobrava sua alma. Na frente dela, Clarisa não era uma mãe, era um juiz de gelo saboreando uma sentença. Não havia nenhum traço de humanidade em seus olhos, só uma frieza que queria terminar de quebrar o pouco que restava dela.
— Por que você me odeia tanto? — sussurrou Valentina, e a pergunta ficou pairando no ar do quarto branco. — Só me diz isso. O que eu te fiz pra você me olhar como se eu fosse lixo?
Clarisa deu um passo em direção à cama. Não houve nenhum gesto de piedade. Inclinou-se sobre a filha, invadindo seu espaço pessoal com aquele perfume caro que Valentina sempre associava ao abandono.
— Você me causa repulsa, Valentina — soltou Clarisa com uma calma que cortava como bisturi. — Seu nascimento foi o pior erro da minha vida. Você arruinou meus planos, meu corpo e minha liberdade. Você é o lembrete constante de um fracasso que eu nunca pedi. Ter você foi uma condenação, e cada dia que você respira nesta casa é um peso que eu não quero carregar.
Valentina sentiu o peito queimar.
— Então por que você me teve? — perguntou com um fio de voz. — Se eu te dou tanto nojo, por que não me deixou ir embora?
Clarisa abriu a boca para lançar outro golpe, mas o som da porta se abrindo com força a deteve. Federico entrou primeiro, com o rosto composto em uma máscara de falsa angústia, seguido por Héctor e, por fim, Leónidas. Num piscar de olhos, a Clarisa monstruosa desapareceu. Ela se endireitou, levou a mão ao peito e fingiu que estava consolando a filha.
— Filha, meu Deus! — exclamou Federico, aproximando-se com preocupação fingida. — Estávamos desesperados pra saber de você.
Héctor se posicionou do outro lado da cama, vigiando Valentina com olhos de predador. Tentou pegar sua mão, mas ela a puxou como se o toque queimasse sua pele.
— Fica tranquila, Valentina — disse Héctor com voz melosa. — O pior já passou. Estamos aqui pra cuidar de você.
— Mentira! Você é um... — quis gritar ela, mas a voz travou na garganta.
Foi então que Leónidas abriu caminho. Sua mera presença mudou tudo no quarto. Ele não fingia. Sua dor era silenciosa e real. Afastou Federico e Héctor com um movimento firme, sem pedir licença, e sentou na beira da cama. Ignorando os olhares dos outros, envolveu Valentina em um abraço protetor.
— Me perdoa, pequena — sussurrou Leónidas em seu ouvido, e Valentina sentiu que finalmente conseguia respirar. — Me perdoa por não ter estado no enterro da Luz. O tempo na Espanha foi um caos, os voos foram cancelados e não consegui chegar antes. Sinto tanto ter te falhado justo quando você mais precisava de mim.
Ao ouvir o nome de Luz, Valentina se quebrou completamente. Agarrou-se à camisa de Leónidas, afundando o rosto em seu ombro. O choro explodiu, um som dilacerante que encheu o quarto. De repente, a raiva foi mais forte que a tristeza e ela começou a bater no peito de Leónidas com seus punhos fracos, descarregando toda a frustração daqueles dias de solidão.
— Você me deixou sozinha! — soluçava ela entre os golpes. — Por que você foi embora?! Me deixou com eles e eles estão me matando! Eu não aguento mais, Leónidas!
Leónidas não se mexeu. Recebeu cada golpe com paciência, mantendo-a colada ao seu coração. Ele era o único que, desde que se casaram, a tratava com uma ternura que ela já não acreditava ser possível. O único que não queria tirar nada dela, apenas dar um pouco de paz.
— Minha vida tem sido um inferno — disse Valentina, afastando-se para olhá-lo nos olhos, com o rosto molhado. — A única coisa que me mantinha viva era a Luz. Ela era meu único refúgio. Mas agora que ela não está mais, eu não tenho nada a perder. Não me importa mais nada!
Héctor, ao ver a intensidade nos olhos de Valentina, sentiu um calafrio. Sabia que ela estava prestes a falar, a soltar a verdade sobre os maus-tratos e as ameaças. Deu um passo à frente para intervir, mas Leónidas se levantou, interpondo-se como um muro de aço.
— Fora — ordenou Leónidas. Sua voz não foi um grito, foi uma ordem que não admitia réplica.
— Mas Leónidas... — tentou dizer Federico.
— Eu disse pra saírem — repetiu Leónidas, cravando os olhos primeiro em Federico e depois em Héctor. — Todos. Preciso ficar a sós com ela. Agora.
Ninguém ousou contestar. A autoridade de Leónidas era absoluta e, embora a raiva os consumisse, o medo era maior. Um a um, Clarisa, Federico e Héctor saíram do quarto de cabeça baixa, como cães repreendidos.
Quando a porta se fechou, o ambiente no corredor ficou tóxico. Clarisa andava de um lado pro outro, apertando os punhos. Héctor se encostou na parede, com o maxilar tenso, enquanto Federico limpava o suor da testa.
— Se aquela menina abrir a boca, estamos mortos — sussurrou Clarisa, com a voz trêmula de pânico. — Leónidas vai nos destruir se descobrir o que fizemos.
— Cala a boca — disparou Héctor, olhando de canto de olho pra porta fechada. — Só nos resta torcer pra que o medo que plantamos nela seja mais forte que a dor. Se Valentina falar, nosso mundo desaba hoje mesmo.
A ansiedade os corroía por dentro. Sabiam que tinham esticado demais a corda e que Valentina, aquela que sempre se calava, já não tinha medo de se quebrar. Todo o império deles, construído sobre mentiras e desprezo, estava a um único grito de desmoronar completamente.







