Mundo de ficçãoIniciar sessãoUma onda de choque atravessa o salão.
Ninguém se move. Até a música para. Todos os rostos se voltam para o meu baba. —Seu pai roubou o sheik? —Bashir pergunta, quase num sussurro. Viro-me para ele, mas já não encontro o mesmo brilho de admiração em seus olhos. O encanto desaparece, substituído por surpresa e desprezo. É como se, em poucos segundos, eu também tivesse me transformado em uma vergonha. Não consigo responder. Minha garganta fecha e o ar desaparece dos meus pulmões. —A festa acabou! —ordena o sheik. —Todos devem sair imediatamente. O comando é tão frio que um arrepio percorre o meu corpo. Sid Yussef segura o braço do filho e o puxa para longe de mim. —Venha, Bashir. Não há mais nada que possamos fazer aqui. Antes de sair, ele me lança um olhar duro. —Diante do que Mohamed fez, considero este noivado desfeito. Duvido que algum homem de boa família queira se unir a você depois de uma vergonha dessas, muito menos alguém que valorize os bons costumes. As palavras me atingem como uma bofetada. Bashir permanece parado por alguns segundos, olhando para mim como se esperasse que eu explicasse o inexplicável. Depois, segue o pai sem dizer uma única palavra. Sinto alívio por não precisar me casar com ele, mas a sensação dura pouco. A preocupação ocupa o lugar da esperança. Se a acusação do sheik for verdadeira, nenhum homem respeitável se aproximará de mim novamente. Qual será o meu destino? Ficar solteira pelo resto da vida? Solto o ar devagar. Talvez isso não seja tão ruim. Pelo menos não terei de passar a vida ao lado de um homem que não amo. Ainda assim, não consigo ignorar o peso da humilhação que acaba de cair sobre a minha família. Procuro meu baba com os olhos. Ele está a poucos metros de distância, mas parece muito longe. O sheik aponta o dedo para ele e despeja uma sequência de acusações. Meu pai apenas permanece calado, respirando com dificuldade. Então, ele se ajoelha. A cena me destrói. Mohamed implora, mas Ali Al-Kudsi continua irredutível. Por um instante, seus olhos encontram os meus. Ele inclina levemente os lábios, formando um sorriso perverso, quase satisfeito. Meu corpo inteiro se arrepia. Aquele sorriso não anuncia perdão. Anuncia vingança. O sheik se vira e deixa o salão sem olhar para trás. Aproximo-me do meu pai com as pernas trêmulas. —O que foi tudo isso? Ele ergue o rosto. A vergonha estampada em sua expressão é tão grande que quase sinto pena dele. —Eu desviei dinheiro das empresas do sheik. —Pelas barbas do profeta! Por que fez isso? O senhor tinha um bom salário! Ele abaixa os olhos. —Perdi todas as nossas economias nas corridas de cavalos. Quando percebi o tamanho do problema, peguei dinheiro emprestado e apostei novamente para tentar recuperar tudo. Mas perdi outra vez. Sinto o estômago embrulhar. —E o meu dote? —pergunto, com a voz falhando. —O dote que o senhor receberia com este casamento? Ainda assim não seria suficiente? —Pagaria apenas metade das dívidas que criei. Fecho os olhos por um segundo e tento respirar. —Então o que vai acontecer agora? Como o senhor pretende pagar o sheik? Meu baba olha para a porta por onde Ali desapareceu. —Pagarei com trabalho. —Com o seu trabalho? Ele demora a responder. —Não com o meu trabalho atual, Jade. Um pressentimento ruim se instala no meu peito. —O que isso significa? Meu pai segura meus ombros. Seus dedos tremem. —O sheik quer humilhar a nossa família. E, para isso, não será suficiente me rebaixar. —Baba, o que o senhor está tentando dizer? Ele aperta os lábios, como se as próximas palavras lhe causassem dor. —Você também vai trabalhar para ele. Fico olhando para o meu pai, sem conseguir acreditar. —Eu? —Você será uma criada no palácio. Ao meu redor, a festa destruída parece desaparecer. Só consigo ouvir a minha própria respiração. —O que eu tenho a ver com o seu erro? Meu baba não responde. E, naquele instante, entendo que o sheik não quer apenas o dinheiro de volta. Ele quer o preço mais alto possível.






