Jade Al-Sabbah A celebração de hoje deveria marcar o início da minha vida de mulher casada. Deveria ser uma noite de sorrisos, música e promessas, o momento em que todos os convidados testemunhariam a união entre duas famílias respeitadas. No entanto, enquanto observo o salão iluminado, percebo que não existe amor naquela festa. Existe apenas um acordo cuidadosamente planejado, alianças trocadas por conveniência e um futuro que foi decidido sem que ninguém se importasse em perguntar o que eu realmente desejava.
A celebração não é de um casal apaixonado. É a demonstração pública de que, em pouco tempo, Bashir será o meu dono.
A palavra pesa dentro de mim. Dono.
Sinto um arrepio percorrer a minha nuca e aperto os dedos uns contra os outros para não demonstrar o quanto estou desesperada. Meu baba se recusa a ouvir qualquer protesto. Desde que o acordo entre as famílias é anunciado, ele age como se o meu destino estivesse selado e não houvesse nada que pudesse ser feito para mudá-lo.
—Baba, eu não quero me casar com alguém que não amo —digo, tentando manter a calma. —Quero estar ligada a um homem de quem eu goste de verdade.
Nunca vou esquecer a expressão que surge no rosto dele. A raiva toma conta de seus olhos, misturada a uma indignação que me faz sentir como se eu tivesse cometido um pecado imperdoável.
—Allah! Isso é o que dá assistir a tantos filmes de Hollywood! —ele explode. —Aqui as coisas não funcionam assim, Jade, e você sabe muito bem disso.
Eu sei.
Sei que, no meu país, homens e mulheres crescem aprendendo que a vida é feita de deveres. Desde pequenas, muitas meninas escutam que precisam honrar a família, obedecer aos pais e aceitar o marido escolhido para elas. O amor, quando aparece, é tratado como um luxo. Uma possibilidade bonita, mas desnecessária.
O que importa é o nome da família. O respeito. A tradição.
Infelizmente, ninguém se preocupa com o que acontece dentro do coração de uma mulher obrigada a sorrir enquanto sente a própria liberdade sendo arrancada.
Olho para Bashir e tento encontrar alguma saída em seu rosto. Talvez ele perceba o meu desconforto. Talvez, se eu explicar que não estou pronta, ele se recuse a continuar com o casamento. Mas o meu noivo parece completamente encantado com a própria sorte.
Ele se aproxima, segurando uma taça entre os dedos, e inclina o corpo na minha direção.
—Você é linda, Jade. A mulher mais bonita que já vi —diz, com um sorriso satisfeito. —Sinto-me um homem de sorte por tê-la como minha noiva. Seu baba não poderia ter escolhido melhor. Agora entendo por que recebeu esse nome. Seus olhos são realmente preciosos.
Aceno com a cabeça e forço um sorriso.
—Obrigada.
Allah, pena que eu não consigo dizer o mesmo.
Bashir é um homem educado, mas não existe nada nele que desperte o menor interesse em mim. Seu rosto é grosseiro, o corpo não combina com o traje elegante e o nariz grande demais domina a fisionomia. Evito encará-lo por muito tempo para não deixar transparecer o que penso.
Preciso me controlar. Aquele homem poderá ser meu marido.
Meu marido.
A ideia faz meu estômago se contrair.
Não quero ficar ligada a ele pelo resto da vida. Não quero acordar todos os dias ao lado de alguém por quem não sinto nada. Não quero sorrir, obedecer e fingir que estou feliz apenas para preservar a imagem de uma família que já não parece tão honrada quanto todos acreditam.
Desvio os olhos e encaro os convidados. Eles bebem, comem e dançam, completamente alheios à minha agonia. Risadas espalham-se pelo salão. As mulheres exibem joias, os homens conversam em grupos e a música preenche cada espaço vazio.
Ninguém percebe que estou sendo sacrificada como um animal levado ao altar.
Ou talvez percebam e simplesmente não se importem.
Tento pensar em alguma alternativa. Posso fingir uma doença? Posso fugir? Posso pedir ajuda a alguém? Minha mente se move depressa, procurando uma brecha naquele acordo, mas antes que eu consiga elaborar um plano, as vozes ao redor começam a diminuir.
Então, aumentam os murmúrios.
Os convidados se afastam e se inclinam em sinal de respeito para alguém que acaba de entrar no salão.
O Sheik Ali veio à minha festa de noivado?
Meu coração b**e com força quando o reconheço. Ali Al-Kudsi não precisa anunciar a própria presença. A autoridade que carrega faz isso por ele. O salão inteiro parece encolher diante de sua figura imponente. Ele caminha com passos firmes, vestindo uma roupa escura impecável, e mantém o rosto fechado, sem o menor sinal de cordialidade.
Há algo perigoso em seus olhos.
Um silêncio pesado cai sobre os convidados quando todos percebem que ele não veio para celebrar. O sheik não olha para Bashir, para os músicos ou para as mesas repletas de comida. Seus olhos permanecem fixos em meu baba.
Por quê?
Por que meu pai empalidece?
O sheik para no centro do salão e ergue a mão, apontando para todos os lados.
—Tudo isto foi pago com o meu dinheiro —declara, com uma voz fria, capaz de atravessar o ambiente inteiro. —Cada taça, cada joia, cada prato servido nesta festa. Tudo foi comprado com os dinares roubados dos meus cofres.