Início / Romance / A CRIADA / O senhor não tinha o direito de destruir a nossa vida junto com a sua!
O senhor não tinha o direito de destruir a nossa vida junto com a sua!

Solto um suspiro de alívio, embora meu corpo continue rígido e o coração ainda bata depressa demais.

—Então o senhor pagará com trabalho? —pergunto, agarrando-me à única possibilidade que parece razoável. —Se trabalhar para o sheik, talvez consiga devolver tudo aos poucos. Talvez ele aceite.

Meu baba abaixa a cabeça.

O gesto é pequeno, mas me faz perder imediatamente a pouca esperança que ainda resta.

—Não com o meu trabalho atual —ele responde.

Franzo a testa.

—Como assim?

Ele passa uma das mãos pelo rosto e, naquele instante, parece muito mais velho do que realmente é. As linhas ao redor de seus olhos estão profundas, a pele perdeu a cor e os lábios tremem de maneira quase imperceptível. Nunca vi meu pai daquele jeito. Mesmo nos momentos mais difíceis, ele sempre foi o homem que se colocava à frente da família, aquele que dizia ter uma solução para tudo.

Agora, porém, não parece haver solução alguma.

—O sheik me rebaixou —continua, com a voz baixa. —Ele não quer apenas recuperar o dinheiro. Quer me humilhar. Quer que todos saibam que eu traí a confiança dele e que, por causa disso, deixei de ser digno do cargo que ocupava.

Sinto uma pressão no peito.

—Mas o senhor era o controller das empresas dele. Não pode simplesmente perder o cargo por causa de uma dívida.

Meu pai solta uma risada amarga, sem qualquer alegria.

—Para Ali Al-Kudsi, posso perder muito mais do que isso.

Um silêncio pesado se instala entre nós. Ao nosso redor, os convidados começam a deixar o salão. Alguns cochicham atrás das mãos, outros lançam olhares curiosos na nossa direção. A festa que deveria celebrar o meu noivado se transforma em um espetáculo de vergonha. Cada olhar parece me acusar. Cada murmúrio faz meu rosto arder.

—Que tipo de trabalho o sheik vai obrigar o senhor a fazer? —pergunto, tentando entender.

Meu baba levanta os olhos para mim. Há tanta tristeza em sua expressão que, por um segundo, esqueço a raiva e sinto apenas medo.

—Serei um tipo de faz-tudo no palácio.

A resposta demora a fazer sentido.

—Faz-tudo?

Ele desvia o rosto, incapaz de me encarar.

—Vou cuidar do que ele mandar. Transportar mercadorias, acompanhar os empregados, supervisionar os serviços, limpar o que for necessário... Não haverá mais cargo, sala ou secretária. Apenas ordens.

Meu estômago se revira.

—Ele quer destruir o senhor.

—Eu sei.

—E mesmo assim o senhor aceitou?

Meu pai fecha os olhos por um instante.

—O que eu poderia fazer, Jade? Eu roubei dele. Não tenho como exigir dignidade depois de ter destruído a confiança que ele depositou em mim.

Aquelas palavras aumentam ainda mais a minha revolta.

—O senhor não tinha o direito de destruir a nossa vida junto com a sua!

Minha voz sai mais alta do que pretendia. Meu baba olha ao redor, assustado, mas eu já não consigo me controlar. A vergonha se transforma em raiva, e a raiva encontra tudo o que venho tentando engolir desde que descobri a verdade.

—Eu tinha planos! —continuo. —Tinha uma casa, uma família e um futuro. O senhor perdeu dinheiro em corridas de cavalos, tentou recuperar tudo apostando novamente e, quando percebeu que não conseguiria, roubou o sheik. Como pôde fazer isso conosco?

Ele recebe cada palavra em silêncio.

Talvez porque saiba que não existe defesa capaz de justificar o que fez.

Depois de alguns segundos, meu baba se aproxima e segura meus ombros. Seus dedos apertam o tecido do meu vestido, mas não com força suficiente para me machucar. É apenas uma tentativa desesperada de me manter perto, como se ainda pudesse me proteger.

—Eu implorei por você —diz.

Meu coração falha uma batida.

—O que está dizendo?

—Pedi ao sheik que não envolvesse você. Disse que a dívida era minha e que a responsabilidade também deveria ser. Pedi que punisse somente a mim.

—E ele recusou?

Meu pai confirma com um movimento lento da cabeça.

—Não houve acordo.

Aos poucos, compreendo que existe algo pior. Algo que ele ainda não teve coragem de revelar.

—Baba... que tipo de acordo o sheik fez?

Ele aperta os lábios. Olha para mim como se estivesse prestes a arrancar o chão debaixo dos meus pés.

—Você trabalhará como criada no palácio.

Por alguns segundos, não consigo respirar.

—Eu?

A palavra sai tão baixa que quase não reconheço a minha própria voz.

—Você também vai trabalhar para ele, Jade.

—Eu não roubei nada! —grito, afastando suas mãos dos meus ombros. —Não fui eu quem jogou o dinheiro nas corridas. Não fui eu quem enganou o sheik. Por que tenho que pagar pelo seu erro?

Meu baba me encara com uma tristeza que deveria despertar compaixão, mas só consegue alimentar a minha fúria.

—Eu sei que você é inocente.

—Então diga isso a ele! Diga ao sheik que eu não tenho culpa!

—Eu disse. Falei até a minha voz desaparecer. Mas ele não quis ouvir.

Sinto as lágrimas queimarem os meus olhos, mas me recuso a deixá-las cair. Não darei esse gosto a ninguém. Não diante de todos aqueles convidados, não diante do meu pai e muito menos diante do homem que decidiu transformar a minha vida em uma punição.

—Por quanto tempo trabalharemos para ele? —pergunto, tentando fazer a voz soar firme.

Meu baba hesita.

—Não sei.

—Como não sabe?

—O valor que roubei é muito alto.

A resposta atravessa o meu peito.

Muito alto.

Essas três palavras passam a ecoar dentro da minha cabeça, repetindo-se como uma sentença.

Olho para a porta por onde o sheik desaparece e sinto um arrepio percorrer meu corpo. Ali Al-Kudsi não precisa me prender com correntes. Ele tem a dívida da minha família, a nossa honra e o nosso futuro nas mãos.

E agora também tem a minha liberdade.

—Allah... —murmuro, levando uma mão ao peito.

Meu pai tenta se aproximar, mas recuo.

Não consigo olhar para ele.

Naquela noite, perco o meu noivado, a minha reputação e o direito de escolher o meu próprio caminho. Sem sequer saber, deixo de ser uma filha protegida pela família e me torno parte do pagamento de uma dívida que não é minha.

A partir daquele momento, o palácio do sheik deixa de ser apenas a casa do homem que meu pai roubou.

Torna-se o lugar para onde a minha vida inteira está sendo enviada.

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