“Limpa tua casa, pois não sabes quem baterá à tua porta; lava teu rosto, pois não sabes quem o beijará.”
Provérbio árabe. Chego ao meu destino com as mãos escondidas nos bolsos do caftan. O tecido é bonito demais para alguém como eu, uma criada que tenta parecer menos assustada do que realmente está. Endireito os ombros, ergo o queixo e encaro a governanta parada no topo da escadaria de pedra.
Ela me observa em silêncio, dos pés à cabeça, como se estivesse avaliando uma mercadoria recém-entregue. Não há acolhimento em seu rosto, muito menos curiosidade. Apenas uma frieza cuidadosa, quase profissional, como se já soubesse exatamente quem eu sou e por que estou ali.
Por um instante, desejo estar em qualquer outro lugar.
Desvio os olhos dela e observo o jardim do palácio. A visão deveria me encantar, mas acontece justamente o contrário. A imensidão do lugar oprime o meu peito. As palmeiras perfeitamente alinhadas, as fontes de mármore, as flores exóticas e os caminhos iluminados pelo sol do fim da tarde parecem pertencer a outro mundo. Um mundo onde pessoas como eu não entram pela porta principal, muito menos sob a condição humilhante de uma dívida que não contraíram.
É a primeira vez que trabalho para a realeza árabe. Na verdade, é a primeira vez que trabalho para alguém. Até poucos dias atrás, minha vida era confortável. Eu tinha uma casa, uma família respeitada e a esperança — ainda que pequena — de escolher o homem com quem me casaria. Agora, tudo isso desaparece de uma hora para outra, destruído pelo erro do homem que deveria proteger a nossa família.
Ali Al-Kudsi, o sheik de Godan, é um dos homens mais poderosos e influentes do Barein. Seu nome é respeitado por reis, empresários e autoridades. A fortuna dele se estende por hotéis, empresas e propriedades espalhadas por vários países. Depois que seu filho se casou com Hanna Al-Sabbah, a influência da família aumentou ainda mais. Mas Hanna morreu em um acidente trágico, quando a aeronave em que viajava para visitar parentes no Catar caiu, deixando para trás um marido marcado pela culpa e uma família ainda mais poderosa.
Agora, eu estou diante do palácio desse homem.
E tudo o que existe ao meu redor foi pago, em parte, com o dinheiro que meu pai roubou.
Tenho consciência de que muitas moças se sentiriam honradas por receber uma oportunidade como essa. Trabalhar para um homem tão importante poderia representar segurança, prestígio e até uma chance de mudar de vida. Algumas talvez olhassem para o palácio e agradecessem a Allah por terem sido escolhidas.
Mas eu não consigo agradecer.
Meu baba desviou dinheiro das empresas do sheik. Durante um ano, roubou aquele homem enquanto fingia administrar os negócios com honestidade. E, quando tudo foi descoberto, não perdeu apenas o cargo. Perdeu a honra, o respeito e o direito de decidir o destino da própria família.
A realeza árabe valoriza a honra e a integridade acima de qualquer coisa. O dinheiro pode ser recuperado, mas uma traição jamais é esquecida. Meu pai tentou negociar. Prometeu que encontraria uma maneira de devolver cada dinar. Disse que venderia propriedades, pediria empréstimos e trabalharia até o último dia de sua vida.
O sheik decidiu que a punição precisava ser pública e humilhante. Meu baba foi rebaixado de controller a um homem responsável por fazer todos os serviços necessários dentro do palácio. De administrador, passou a carregar caixas, supervisionar empregados, limpar estábulos e obedecer a ordens que antes jamais teria aceitado.
Mas isso não foi suficiente para o sheik.
Ele exigiu que toda a nossa família trabalhasse para pagar a dívida. Não por alguns meses. Não até que uma quantia específica fosse devolvida. Por tempo indeterminado. Até que ele se sentisse vingado.
Agora, minha família inteira está presa a esse palácio.
Respiro fundo, mas o ar parece não chegar aos meus pulmões. Penso na minha juventude escorrendo entre aquelas paredes, nos anos que talvez nunca consiga recuperar. Penso nas festas que não frequentarei, nas amizades que deixarei para trás e nos sonhos que serão enterrados antes mesmo de terem a chance de nascer.
Não quero perder a minha juventude aqui.
E, pior do que isso, quem vai querer se casar comigo depois de tudo o que meu baba fez? O nome Al-Sabbah está manchado. Nenhuma família respeitável desejará se unir à nossa. Nenhum homem aceitará carregar a vergonha de uma mulher cujo pai roubou do sheik de Godan.
Talvez eu esteja condenada a ficar solteira para sempre.
A ideia me assusta, mas, ao mesmo tempo, não sei se consigo considerá-la pior do que me casar com um homem que não amo.
Subo o primeiro degrau. Depois o segundo.
A governanta não se move. Continua me esperando no alto da escada, como se fosse a guardiã do meu novo destino. Cada passo parece me afastar da vida que conheço. Quando chego ao topo, paro diante dela e tento esconder o tremor das minhas mãos.
Não sei o que me espera dentro daquele palácio.
Só sei que, a partir daquele momento, minha liberdade deixa de me pertencer.
E tudo porque meu pai decidiu apostar o nosso futuro em uma última tentativa desesperada de recuperar o dinheiro que havia perdido.