Os dias que se seguiram ao incidente no hospital foram marcados por um silêncio cortante. Alexander não dirigia a palavra a Sophia a menos que fosse estritamente necessário, e seus olhos azuis a seguiam pela casa com uma desconfiança que a fazia sentir-se constantemente em julgamento.
Sophia, no entanto, não se deixou abater. Ela sabia que precisava fazer mais do que apenas seguir regras; precisava devolver a Gael a infância que Alexander parecia ter esquecido de proporcionar.
Naquela manhã, em vez de sentar Gael diante de cartões de matemática, Sophia forrou o chão do solário com plásticos e espalhou grandes folhas de papel e tintas coloridas.
— O que é isso, Phia? — Gael perguntou, os olhos brilhando de curiosidade enquanto apontava para as latas de tinta guache.
— Hoje não vamos usar lápis, Gael. Vamos usar as mãos — Sophia sorriu, sujando o próprio dedo de azul e fazendo uma marca no papel. — Vamos pintar como o mundo é de verdade.
No início, o menino hesitou, olhando para a porta como se esperasse a bronca do pai. Mas Sophia o encorajou, e logo Gael estava mergulhado em cores. Pela primeira vez, a mansão Ravenclaff não ecoava silêncio, mas sim as risadas cristalinas de uma criança.
Alexander estava em seu escritório, tentando se concentrar em um contrato de fusão multimilionário, mas o som vindo do solário o distraía. Era um som que ele não ouvia há anos: a alegria genuína de seu filho. Movido por uma curiosidade que se recusava a admitir, ele caminhou silenciosamente até a porta de vidro.
O que ele viu o paralisou.
Sophia estava sentada no chão, com manchas de tinta amarela na bochecha e o cabelo loiro levemente desgrenhado. Ela ria enquanto Gael tentava pintar um "sol" gigante. Alexander notou como ela era vibrante sob a luz do sol; havia uma vida nela que contrastava com a rigidez de sua mansão. Por um segundo, ele esqueceu a negligência, esqueceu a raiva. Ele apenas observou a forma como ela cuidava de Gael, com uma paciência que ele próprio não possuía.
Ele deu um passo à frente, e o rangido do piso denunciou sua presença. Sophia levantou-se num salto, limpando as mãos no avental, o rosto ficando pálido.
— Sr. Ravenclaff! Eu... nós estávamos apenas praticando coordenação motora e expressão criativa — ela disse, voltando ao tom profissional, esperando o sermão pela sujeira.
Alexander entrou na sala, ignorando Sophia e caminhando até o desenho do filho. Gael olhou para o pai, estendendo a mão suja de tinta verde.
— Olha, papai! Eu fiz uma árvore! — A voz do menino estava firme, sem o gaguejo de medo que costumava ter na presença do pai.
Alexander olhou para o desenho e depois para Sophia. A rigidez em seus ombros pareceu ceder por um milésimo de segundo.
— Expressão criativa? — ele perguntou, a voz ainda grave, mas sem a rispidez de antes.
— Sim, senhor. Gael tem uma percepção visual incrível. Ele se comunica melhor através das cores do que das repetições de números — Sophia explicou, sustentando o olhar dele.
Alexander encarou Sophia. Ele notou a mancha de tinta perto dos lábios dela e sentiu um impulso irracional de limpá-la. Ele se obrigou a desviar o olhar, pigarreando.
— Certifique-se de que tudo isso seja limpo antes do jantar — ele disse, voltando à sua fachada de gelo. — E não negligencie as outras lições.
Ele deu as costas, mas antes de sair, parou e olhou por cima do ombro.
— A árvore... ficou boa, Gael.
O menino deu um pulo de alegria. Sophia sentiu o coração acelerar. Alexander não a havia elogiado, mas aquele pequeno reconhecimento ao filho era uma vitória dela.
Enquanto ela ajudava Gael a se limpar, Isadora observava tudo da fresta da porta lateral. O ódio em seus olhos era palpável. Ela percebeu que Alexander não estava mais apenas vigiando a babá; ele estava começando a admirá-la. E para Isadora, a admiração era o primeiro passo para algo que ela não podia permitir: o amor.