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CAPÍTULO 3 — QUANDO A NECESSIDADE GRITA

Eu tentei passar a tarde em casa como se aquilo fosse descanso. Não era. Era só tempo passando enquanto eu fingia que ainda tinha algum controle sobre alguma coisa.

Fiz arroz. Deixei o feijão pronto. Temperei carne para minha mãe não precisar pensar nisso quando voltasse do hospital. Dobrei roupa. Organizei a pia. Pequenas tarefas que me davam a sensação falsa de que eu estava fazendo algo útil.

A oficina dele ficava de frente para casa. Uma borracharia pequena. Porta de metal azul já descascando nas laterais, um compressor antigo que fazia mais barulho do que devia e o cheiro constante de borracha misturado com graxa. A porta estava fechada desde o acidente. Eu não tive coragem de atravessar a rua e olhar para dentro. Ainda dava para ver, da janela da cozinha, a mancha escura no chão onde ele sempre limpava as mãos antes de entrar em casa. Como se fosse voltar a qualquer momento.

Ele sempre foi dono do próprio sustento. Quando o movimento caía, aceitava extra em empresa de construção, carregava material, fazia o que fosse preciso. Dizia que homem parado enferruja.

Agora ele estava parado.

E ninguém parecia preocupado com isso.

Quando o fim da tarde chegou, eu entendi que não ia conseguir ficar ali esperando. Peguei a bolsa e fui até a Oliveira & Filhos Construções. Não era emprego fixo dele. Era um dos lugares que chamavam quando precisavam de reforço. Ele sempre ia.

O prédio era comum. Porta de vidro simples. Recepção pequena. Um ventilador girando devagar. Dois homens saindo com prancheta na mão, falando sobre prazo de obra. Nada ali parecia carregar a gravidade do que tinha acontecido.

Fui até o balcão.

— Eu preciso falar com alguém responsável pelo acidente do meu pai. Carlos Duarte. Ele estava trabalhando na obra de vocês quando caiu.

A recepcionista digitou algo, fez uma ligação curta e desligou.

— No momento não há ninguém disponível para atendê-la.

— Ninguém?

— Não, senhora.

O calor subiu pelo meu rosto.

— Para chamar ele para trabalhar tinha alguém. Para decidir colocar numa ambulância tinha alguém. Agora não tem ninguém?

Ela respirou fundo.

— Eu sinto muito pelo seu pai. Mas eu sou apenas a secretária. Eu só transmito recados.

Apenas.

Meu pai nunca foi apenas nada.

— Então transmite isso — eu disse. — Ele estava trabalhando para vocês. Foi levado daqui direto para o hospital. Disseram que a empresa assumiria tudo.

Ela anotou alguma coisa.

— Assim que houver retorno, entraremos em contato.

Eu saí dali sabendo que ninguém ia me ligar naquele dia.

No carro, fiquei alguns segundos parada antes de ligar o motor. Meu pai sempre dizia que empresa grande protege empresa grande. Trabalhador que se vire. Eu estava começando a entender.

Quando cheguei ao hospital, mandei mensagem para minha mãe. “Cheguei.” Ela respondeu que estava na cafeteria e já estava subindo.

Subi para o semi-intensivo no horário da visita. Não era UTI. Era mais aberto. Mais barulho. Cortinas separando leitos. As máquinas continuavam ali, funcionando. Mais simples. Mas funcionando.

Quando entrei, ele estava ali. Não isolado atrás de vidro. Só mais um leito atrás de uma cortina clara demais.

Aproximei-me e segurei a mão dele. A pele estava fria, não como antes. Fria de hospital. Fria de ar-condicionado constante. Não era a mão quente de quem chegava do sol.

— Eu cheguei.

O monitor marcava números estáveis.

Estável.

Eu ainda segurava a mão dele quando ouvi meu nome sendo chamado.

— Senhorita Elena Duarte?

Levantei o rosto devagar. O homem estava parado um pouco afastado do leito, como se soubesse que aquele não era o tipo de espaço onde se entra sem pedir licença. Terno escuro, pasta fina presa contra o corpo, expressão neutra demais para aquele andar.

— Ricardo Menezes. Sou advogado da Oliveira & Filhos Construções.

O nome da empresa ali dentro soou diferente. Não como lugar fixo de trabalho. Mas como o lugar que tinha chamado meu pai quando o movimento da borracharia estava fraco.

— Espero que todos estejam bem — ele completou.

— Na medida do possível estamos tentando.

Ele abriu a pasta.

— A empresa está analisando as circunstâncias do acidente ocorrido na obra. Como o senhor Carlos não possuía vínculo empregatício formal com a construtora, a responsabilidade ainda está sendo apurada.

Vínculo formal.

Olhei para o meu pai. A máscara de oxigênio. O monitor repetindo números estáveis. A mão parada sob a minha.

— Ele estava trabalhando para vocês. Foi chamado por vocês.

— Ele prestava serviço eventual — o advogado respondeu. — Até que haja conclusão técnica, não é possível assumir encargos financeiros relacionados à internação.

Encargos financeiros.

— Então vocês não vão pagar?

— No momento, não há definição.

No momento.

— E enquanto vocês definem?

— A família será formalmente comunicada assim que houver parecer conclusivo.

Parecer conclusivo.

Minha mãe apareceu atrás de mim.

— O senhor veio só para dizer isso?

— Sim, senhora.

Ele inclinou levemente a cabeça e se afastou pelo corredor como se tivesse acabado de resolver uma pendência simples. Nem rápido demais, nem devagar demais. Só o suficiente para mostrar que aquilo não exigia mais tempo do que o necessário.

Uma pasta fechada. Um parecer pendente. Um “no momento”.

Voltei para perto do leito e encostei a testa na mão do meu pai.

— Essa era a empresa que o senhor dizia que chamava quando precisava de alguém de confiança.

Minha mãe pousou a mão no meu ombro.

— Não fala assim, filha.

— Eu estou tentando fazer o certo.

— Você está fazendo tudo que pode.

Engoli em seco.

— E se não for suficiente?

Ela me virou de frente.

— A gente está dando o nosso melhor.

Eu queria que o melhor fosse garantia de alguma coisa.

Do outro lado da cortina, alguém começou a tossir. Primeiro fraco. Depois mais forte. Em segundos o quarto mudou. Passos rápidos. Uma enfermeira entrou. Outra veio atrás.

— Acompanhantes, por favor, aguardem lá fora.

Soltei a mão dele devagar. Sempre dói soltar, mesmo quando ele não reage.

No corredor, o hospital continuava funcionando. Metal batendo. Voz firme pedindo medicação. Alguém dizendo calma.

Minha mãe segurou meu braço.

— Vai lá embaixo um pouco, Elena. Você está muito tensa. Eu fico aqui.

Eu não queria ir. Mas assenti.

Desci. O ar da rua bateu no meu rosto. Lá fora tinha carro passando, gente conversando, alguém rindo no telefone. O mundo continuava funcionando.

Sentei no banco da entrada.

Pela primeira vez naquele dia, eu não estava respondendo pergunta de médico. Não estava discutindo valor com administrativo. Não estava enfrentando recepcionista. Não estava ouvindo advogado.

Eu só estava ali.

Meu celular vibrou.

Isabela.

Uma foto em Nova York. Prédios altos atrás dela. Luzes acesas mesmo ainda sendo fim de tarde. Casaco fechado até o queixo. O olhar firme.

A legenda dizia: “Nem todo recomeço é escolha. Às vezes é sobrevivência.”

Fiquei olhando para aquela foto mais tempo do que precisava.

Lembrei da noite em que ela me chamou para ir junto. Eu dizendo que era exagero. Que dava para resolver aqui. Que sair era fugir.

Abri nossa conversa antiga.

“Quando a necessidade grita, a gente descobre que é capaz de atravessar qualquer coisa.”

Na época eu revirei os olhos.

Agora eu entendia.

Meu pai atravessou a vida inteira. Acordou cedo, fechou a borracharia tarde, fez extra quando o movimento caía. Nunca deixou faltar comida.

E agora ele estava ali. E eu estava ouvindo vínculo formal e não há definição.

Olhei para a fachada enorme do hospital. Cada andar tinha preço. Cada aparelho tinha preço. Cada hora tinha preço.

Meu pai sempre dizia que dignidade era trabalhar e pagar o que devia. Nunca depender de ninguém. Ele tinha orgulho da borracharia pequena, do compressor velho, das mãos sujas de graxa no fim do dia.

E agora eu estava ali.

Esperando parecer técnico.

Esperando definição.

Gente que falava “no momento” como se o tempo não estivesse correndo.

Alguém movia advogado para se proteger.

Alguém movia helicóptero para salvar filho.

Eu estava fazendo conta para manter meu pai respirando.

Não era falta de amor.

Era falta de dinheiro.

E dinheiro não espera estabilizar monitor.

Voltei para a foto da Isabela. Nova York atrás dela parecia outra realidade. Outro ritmo. Outro fôlego.

Mas a frase dela não parecia distante.

Quando a necessidade grita…

Eu não tinha ouvido antes porque nunca precisei ouvir.

Agora eu ouvia.

Não era ambição.

Não era sonho de grandeza.

Era sobrevivência.

Meu pai nunca esperou ninguém resolver por ele. Quando o movimento da borracharia caía, ele ia fazer bico. Quando faltava peça, ele improvisava. Quando a vida apertava, ele trabalhava mais.

E eu estava esperando ligação.

Se eu continuasse esperando, nada ia mudar.

Eu não sabia ainda como atravessar.

Mas sabia que não podia continuar parada.

Meu pai sempre dizia que homem parado enferruja.

Talvez filha parada também.

Bloqueei o celular e fiquei olhando para a porta automática abrindo e fechando, abrindo e fechando, enquanto o mundo tinha passagem garantida e eu estava estacionada.

A dor ainda estava ali.

O medo também.

Mas tinha outra coisa misturada agora.

Não era desespero.

Era decisão.

E decisão não faz barulho.

Ela começa quieta.

E muda tudo depois.

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