Eles não combinaram nenhum ritual grandioso. Era uma terça-feira, o que a vida adulta insiste em não reservar para grandes acontecimentos. O dia tinha sido normal: Fundação, reuniões, telefonemas, um incidente com encanamento no segundo andar da mansão.À noite, porém, Clara apareceu na sala de estar com uma caixa de papelão nas mãos.— O que é isso? — Ricardo perguntou, vendo a caixa como se fosse um artefato misterioso.— O passado materializado — ela respondeu. — Ou parte dele.Ele pousou o tablet e se levantou.Na caixa, havia fotos, convites, lembranças de eventos antigos, alguns bilhetes, o véu do casamento, recortes de revista onde eles apareciam como “casal do ano” em colunas sociais. Coisas que tinham sido guardadas, esquecidas, e agora estavam ali, numa pilha.— O que vamos fazer? Tacar fogo? — ele perguntou, meio sério, meio brincando.— Não — ela retrucou. — Tacar fogo seria fingir que nada aconteceu. Eu não quero isso. Eu quero olhar, lembrar, e escolher o que ainda entra
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