Saulo apareceu na empresa sem avisar, como fazia questão de fazer desde sempre. Para ele, avisar tirava a graça. Parou diante da sala de Henrique, bateu duas vezes apenas para provocar e entrou sem esperar resposta, como se aquele espaço ainda fosse, de alguma forma, território compartilhado.— Preciso marcar hora agora? — perguntou, jogando o corpo na poltrona de frente para a mesa. — Ou você só existe nesse escritório?Henrique não levantou a cabeça de imediato. Continuou rabiscando algo no papel, como se estivesse terminando um raciocínio importante demais para ser interrompido.— Se eu não ficar aqui, o mundo desaba — respondeu. — Ou pelo menos a empresa.Saulo riu, cruzando os braços.— Impressionante como você sempre arruma uma desculpa elegante pra se esconder atrás do trabalho. Antes eu te encontrava no bar, no futebol, até em balada ruim. Agora, só com crachá e planilha.Henrique largou a caneta e, finalmente, encarou o amigo. O meio sorriso que surgiu não chegou aos olhos.
Ler mais