Natália demorou a começar.As palavras estavam presas na garganta havia anos, acumuladas como poeira em um quarto que ninguém ousa abrir. Nicolas sentou-se à frente dela no sofá, em silêncio absoluto, respeitando aquele espaço invisível que só quem carrega cicatrizes entende.— Se eu contar — ela disse finalmente —, não tem volta.— Eu não quero volta — ele respondeu. — Quero você inteira. Mesmo que doa.Ela respirou fundo.— Meu pai nunca foi pai — começou. — Ele foi medo.Nicolas não a interrompeu.— Quando minha mãe morreu, eu tinha doze anos. Ele bebia, gritava… e me culpava por tudo. Se o dinheiro acabava, era minha culpa. Se ele perdia o emprego, também. Aprendi cedo que sobreviver era ficar em silêncio.A voz dela falhou por um instante, mas Natália continuou.— Aos quinze, ele começou a me tratar como propriedade. Controlava minhas roupas, minhas amizades, meu corpo. Quando tentei sair de casa, ele me trancou por dois dias. Disse que o mundo lá fora era pior do que ele.Nicola
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