Giulia MorettiAs crianças acordam antes do sol.Descobri isso no primeiro dia em que comecei a trabalhar aqui. Agora, sou a senhora Mancini — prisioneira desta mansão. E, ainda assim, são elas que me puxam de volta para algo que parece vida.Não são os seguranças, nem o barulho metálico dos portões, nem os rádios murmurando ordens em italiano baixo.São passos leves no corredor. Meias arrastando no chão. Risadinhas contidas.Vida.Abro a porta do quarto antes mesmo que batam.— Buongiorno — digo baixo.Sophia sorri como se eu fosse uma promessa.— Papà ainda dorme — ela sussurra, conspiratória.— Então falamos baixo — respondo, piscando.Ela entra, seguida pelos dois menores, como se meu quarto fosse um refúgio natural. E talvez seja.Preparo o café da manhã com eles. Não porque ninguém mais saiba fazer — a cozinha da mansão parece um restaurante cinco estrelas —, mas porque faço questão.O mais novo se senta no balcão, chutando o ar enquanto me observa quebrar ovos.— Você faz igual
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