Letícia Bianchi O ar da manhã em Paris deveria ser leve, mas, ao ver Charles parado à porta do meu prédio, senti como se uma névoa pesada tivesse descido sobre a rua. Ele estava impecável, como sempre, com um sorriso calculado que não alcançava seus olhos. Ele segurava um buquê de flores que, em qualquer outro contexto, seria elegante, mas ali, naquele momento, parecia um insulto à minha autonomia.— Letícia, meu amor — ele começou, com aquela voz aveludada que, antes, eu confundia com carinho. — Chega de brincadeiras. Eu vim buscar você. A viagem foi longa, eu entendo, mas agora a diversão acabou. Vamos para casa. Sua mãe mandou lembranças, e tudo o que precisamos é resolver o nosso casamento.Eu o observei. Pela primeira vez, eu não vi o "noivo ideal" ou o "sucessor" que a minha mãe escolheu. Eu vi um homem vazio, um homem que acreditava que a vida era uma extensão de suas posses e que eu, Letícia, era apenas um objeto que ele tinha deixado de lado por um tempo e agora estava vindo
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