Antônio cruzou o pórtico de ferro da Estância Soledad com a mesma sensação que o acompanhava desde que retornara a Río Branco: a impressão de estar atravessando não um espaço, mas um tempo. O ranger discreto das dobradiças, agora restauradas, parecia ainda guardar ecos de vozes antigas, de risos que haviam se perdido, de gritos que jamais encontraram resposta. Nada ali era inteiramente novo, nem completamente velho. Assim como ele. Já não era o rapaz de dezessete anos que deixara aquele lugar às pressas, com o coração em ruínas e o futuro imposto pelas circunstâncias. Agora, aos 37 anos, Antônio carregava nos ombros o peso de uma história que aprendera a conter, nunca a esquecer. Tornara-se médico por insistência do pai, sim, mas também por uma necessidade íntima de compreender a dor humana, talvez na esperança secreta de um dia compreender a sua própria. Formara-se na capital uruguaia, tornara-se um profissional respeitado, conhecido pela competência e, sobretudo, pela humanidad
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