O tempo não cura. Apenas cobre. Como a neve sobre um campo de batalha, um manto de normalidade desceu sobre as vidas partidas, disfarçando o terreno acidentado por baixo.Na padaria, o despertador de Kai tocava às 3h45, como sempre. As mãos mergulhavam na farinha, amassavam a massa, davam-lhe forma com uma precisão que era agora um ritual vazio. O cheiro do pão a cozer já não lhe trazia paz. Era o cheiro da sua própria vida, a repetir-se em ciclo infinito. Os clientes vinham, compravam, elogiavam. "O melhor pão da cidade, Kai!" Ele agradecia com um aceno, os olhos vazios. O "melhor pão" sabia-lhe a cinzas.Sofia tentava. Aparecia mais vezes, trazia-lhe comida, contava-lhe as novidades do seu trabalho na biblioteca. Mas via a sombra nos olhos do irmão. A ausência. Isla não era mencionada. Tornara-se um fantasma que habitava o espaço entre eles, um vazio palpável em cada silêncio.Uma tarde, enquanto ajudava a arrumar as prateleiras, Sofia parou. "Ele parou, sabes? Ezra. Os homens. As a
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