No começo, foi por necessidade.Depois, virou rotina.Aurora apareceu na porta do meu quarto na terceira noite seguida. Não chorava alto, não fazia drama. Apenas ficava ali, com o travesseiro apertado contra o peito, como se estivesse pedindo permissão para existir fora dos próprios medos.— Posso ficar um pouquinho? — ela perguntou.O “pouquinho” durou até o amanhecer.Eu me afastei para o lado da cama, abrindo espaço sem dizer nada. Ela subiu devagar, como se tivesse medo de incomodar, e se acomodou perto de mim, sem tocar de imediato.O silêncio entre nós era confortável.Não precisava de explicação.Aurora dormia leve, mas inquieta. Às vezes murmurava algo, outras vezes apenas respirava mais rápido, como se estivesse revivendo imagens que ninguém deveria carregar tão cedo.Passei a deixar uma luz pequena acesa.Não por mim.Por ela.Na quarta noite, Henrico apareceu no corredor enquanto eu a conduzia de volta para o quarto.— Ela está acostumando — ele disse, encostado na parede.
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